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Expresso

João Silvestre Editor de Economia

Eu fizz, tu fizzeste, ele fezz

6 de Fevereiro de 2018

Bom dia,

Fizz: Gelado aromatizado de limão coberto com gelado de água aromatizado de limão. Esta descrição nada poética é retirada da loja online de uma cadeia de distribuição portuguesa e não faz justiça à importância que a singela palavra tem hoje em dia em Portugal. Também não assinala a sua morfologia. Mas é fácil perceber que não se trata de um verbo, embora pudesse ser, facilmente, conjugado.

Há muitos casos a correr na Justiça e não se sabe, para já, se todos os suspeitos/arguidos/mencionados/indiciados/correlacionados fizzeram realmente aquilo que deles se diz. Estamos no campo do alegadamente e de processos que, apesar de terem alguns pontos de contacto, são bastante distintos. A começar na investigação relâmpago a Mário Centeno que foi arquivada quase tão rápido quanto foi aberta. Mereceu duras críticas de vários comentadores – como, sem ser exaustivo, Ricardo Costa, Sousa Tavares, Daniel Oliveira ou Francisco Louçã – e também contracríticas ferozes como a de José Manuel Fernandes que, ontem no Observador, se insurgia contra o coro de ataques à Procuradoria-Geral da República e sublinhava, ironicamente, que “afinal a culpa é do Ministério Público e não dos corruptos”.

No caso do ‘gelado’, muito mais relevante em termos judiciais e diplomáticos, também há operações quase à velocidade da luz. Este fim-de-semana ficou marcado pelo mandato de detenção para notificação de Manuel Vicente que afinal estava em São Tomé e Príncipe com a família. Um aparente tiro de pólvora seca para o qual o seu advogado, Rui Patrício, pede responsabilidades. Só que parece que a PSP tinha mesmo informações – não muito boas, pelos vistos – de que Manuel Vicente viria a Portugal visitar um familiar.

Dentro do tribunal, continuaram as acusações a Proença de Carvalho. Desta vez vieram do advogado Paulo Blanco. Com tantas afirmações contraditórias, afinal quem fezz o quê?

Noutro caso igualmente mediático e carregado de picante político, o dos vistos gold, foi dia da primeira audição do ex-ministro Miguel Macedo. E Macedo também não foi meigo das palavras. Acusou o Ministério Público de confundir “a estrada da Beira com a beira da estrada”. O Micael Pereira esteve lá e conta tudo no Expresso Diário de ontem.

O processo Lex regressa mais à frente esta semana. As audições dos juízes desembargadores Rui Rangel e Fátima Galante estão agendadas para quinta e sexta-feira no Supremo Tribunal de Lisboa.

OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro

Ontem foi dia negro na bolsa. O PSI-20 caiu mais de 2% e apagou quase a totalidade dos ganhos acumulados desde o início do ano, como destacou o Negócios. O problema não foi exclusivo português e, lá fora, as bolsas estiveram em queda. Em Nova Iorque, o Dow Jones caiu mais de 1000 pontos (4,6%) , o maior trambolhão em seis anos, e acabou com os ganhos acumulados desde o início do ano.

Quem tem estado aos trambolhões é a bitcoin. Não só pela desconfiança de um activo (ou uma moeda) cujo valor fundamental é zero e é a ”maior bolha da humanidade”. Também porque há cada vez mais decisões de bancos a limitar a sua utilização.

Em queda acentuada estão também as temperaturas em Portugal: visite o site do IPMA para ter toda a informação. A Proteção Civil já emitiu um alerta amarelo e avançou um conjunto de recomendações à população para se proteger. Em várias cidades, com destaque para Lisboa e Porto, estão a ser disponibilizados sítios onde os sem-abrigo possam pernoitar nestes dias de temperaturas mais baixas, como estações de metro mas não só.

O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais deu uma entrevista ao Público onde abriu a porta à revisão dos benefícios. Não disse quais nem como. Apenas disse. Mas foi o suficiente para inscrever o tema na agenda mediática de ontem. A questão vai colocar-se no Orçamento do Estado para 2019 mas o Expresso falou com o PCP e Bloco de Esquerda, por onde vai passar parte da decisão sobre a política orçamental do próximo ano, para saber qual a sua posição. E, para já, não parece haver oposição de fundo, embora os bloquistas pareçam mais entusiasmados neste momento.

No Expresso Diário, o Miguel Prado, a Sónia Lourenço e a Rosa Pedroso Lima fizeram as contas aos grandes beneficiários dos benefícios fiscais. A EDP, que lidera nos privados, recebeu 4400 euros por hora em 2016. Mas o maior beneficiário é o Estado, entre autarquias, fundos autónomos e a própria administração central.

O Ministério do Ambiente prolongou por mais 30 dias as medidas provisórias para a empresa Celtejo. Escreve o Público de hoje que há “um raro consenso” entre todas as forças políticas para travar a poluição no rio Tejo, nomeadamente através de revisão das licenças ambientais, da redução das autorizações de descarga e de mais fiscalização.

A Moody´s mantém Portugal no lixo, mas pode ser por pouco tempo. Até porque é a única. Numa análise publicada ontem, a agência elogiou a gestão que tem sido feita da dívida – como o reembolso antecipado ao FMI – mas alerta para o facto de o elevado endividamento ser um factor de vulnerabilidade que persiste.

Já (quase) toda a gente tinha batido na Proteção Civil depois dos incêndios do ano passado. Agora foi a vez do Tribunal de Contas se juntar ao clube e, num relatório divulgado ontem, disse que continua a haver procedimentos inadequados. O tema faz manchete na edição de hoje do Correio da Manhã.

A propósito de protecção civil, ficámos ontem a saber que a Câmara de Lisboa vai devolver as taxas cobradas entre 2015 e 2017. Vai devolver por vale postal, segundo avançou o DN na edição de ontem.

Bruno de Carvalho demite-se? Não, não demite. Pelo menos até dia 17 de Fevereiro quando haverá nova assembleia geral. Nessa altura, estarão três pontos a votação: estatutos, disciplina e a própria permanência da direção. Qualquer chumbo significará a saída do presidente. Insólito, foi o tweet entretanto retirado do PS a comentar o momento no Sporting.

O Conselho Geral Independente da RTP quer que a televisão pública seja mais transparente, aposte mais nas regiões autónomas e que se assuma “como o operador mediático distintivo, inovador e de referência, no panorama audiovisual”, de acordo com o documento a que o Público teve acesso.

Ao mesmo tempo que PCP, Bloco de Esquerda e CGTP têm insistido na reversão de algumas alterações das regras laborais ocorridas durante o programa da troika, a edição de hoje do Diário de Notícias dá conta de um estudo da direção-geral dos assuntos económicos e financeiros da Comissão Europeia que recomenda menos protecção nos contratos sem termo.

Manchetes dos jornais: ”Partidos unem-se para travar empresas poluidoras do Tejo” (Público); “Bruxelas pressiona governo a cortar na protecção dos contratos sem termo”(DN); “Inspeção investiga escolas nas viagens de finalistas”(JN); “67 milhões sem rasto no combate aos fogos” (Correio da Manhã); “Arguidos da operação Fizz pegam-se em tribunal”(i); “Família Gulbenkian incapaz de travar venda da Partex” (Jornal de Negócios); “75% ou sai”(Record); “Ameaça final”(A Bola); “Matemática é toda azul”(Jogo)

Lá fora

O Reino Unido pode ser forçado a aceitar cumprir 37 directivas europeias durante o período de transição para o Brexit. Directivas relacionadas com a reciclagem de lixo ou a utilização de energias renováveis. Este cenário faz parte de um documento do governo britânico a que o Telegraph teve acesso.

Em Espanha, as últimas sondagens apontam para novas descidas de PP e PSOE nas intenções de voto. Os dois partidos continuam, ainda assim, nos primeiros lugares mas com Cuidadanos e Podemos a curta distância.

Salah Abdeslam, detido em França como principal suspeito dos ataques terroristas de novembro de 2015 em Paris, começou ontem a ser julgado em Bruxelas por tentativa de homícidio na capital belga numa troca de tiros com a polícia em março de 2016 quando foi capturado.

As Maldivas, que para muitos são um destino de férias, estão em estado de emergência com militares na rua, políticos da oposição presos e um confronto direto entre governo e supremo tribunal, como conta o britânico The Guardian.

Numa altura em que os investimentos chineses continuam a visar ativos portugueses, como foi o caso recente da Partex da fundação Gulbenkian, os controlos de capitais na China parecem estar a dificultar a vida a alguns investidores. Nomeadamente, no americano Silicon Valley, como conta o Financial Times.

Para terminar este bloco sobre o noticiário internacional, uma história do New York Times sobre como um dos líderes jovens do movimento alt-right americano mentiu sobre o percurso militar. Não passou pelo Iraque, não esteve em combate e nunca saiu, enquanto tropa, dos EUA. Para demonstrar patriotismo é preciso mais. São 20 minutos de documentário bem empregues.

FRASES

Não pode o queixoso assistir, impávido e sereno, a todo este empreendimento do Sindicato dos Médicos da Zona Sul com vista ao desmoronamento de uma carreira profissional que com tanto esforço tem vindo a construir", Leonel Luis, Diretor do serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Santa Maria em queixa-crime entregue no Ministério Público

Houve um [homem que me assediou], mas eu não posso dizer, já faleceu. Assediou-me uma vez. Eu estava no meu quarto, tínhamos ido a Inglaterra, num grupo de cantores, fazer uma digressão para a emigração. De repente, há um colega que me bate à porta e eu estava a fazer a barba em tronco nu. Eu era muito atlético e ele diz-me assim: 'Sabes, é de homens como tu, muito musculados e com pelo, que eu gosto! 'E eu disse-lhe: 'Pois, olha, esquece e deixa-me fazer a barba em paz. Só posso dizer que era um fadista, José Cid, Músico

O QUE ANDO A LER

A propósito de uma viagem de trabalho à Grécia, tenho andado entretido com o último livro de Yanis Varoufakis. “Adults in the Room: My Battle with Europe´s Deep Establishment” é o último livro do ex-ministro das Finanças grego mas já não é novo, saiu em maio do ano passado. (A propósito, o livro tem uma edição portuguesa da Marcador cuja tradução é do meu colega do Expresso, Pedro Cordeiro).

Apesar de se tratar de uma visão parcial por definição, ou não fosse a visão de um dos protagonistas no período turbulento após a chegada do Syriza ao poder, é uma peça fundamental para compreender a estratégia de Varoufakis que optou pelo confronto com o “poder instalado” na Europa – nas suas palavras – e acabou por sair, com Atenas a recuar. “Adults in the Room: My Battle with Europe´s Deep Establishment” descreve os vários momentos de tensão e as fases mais complicadas da negociação que opôs Varoufakis ao presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e ao ministro das Finanças, Schauble, entre outros.

Já muito foi escrito sobre o livro, que arranca com a descrição de uma conversa num bar de hotel em Washington entre Yanis Varoufakis e o influente economista norte-americano Larry Summers, secretário do Tesouro de Bill Clinton. A certa altura, conta Varoufakis, Summers pergunta-lhe se é um insider – daqueles que estão dentro e participam nas decisões – ou um outsider que tem a liberdade para tomar todas as posições que entender mas que, no final, não conta para nada. Varoufakis responde ser um bocadinho de ambos.

Para quem gosta de teoria dos jogos, vale também a pena dar uma espreitadela ao anexo onde Varoufakis explica, em termos estratégicos, por que optou pela via da confrontação.

Por hoje é tudo neste Curto que já vai um bocadinho longo. Fique por aí e acompanhe tudo em tempo real no Expresso online. Às 18 horas, já sabe, tem mais um Expresso Diário.

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