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Expresso

Filipe Santos Costa Jornalista da secção Política

Não faltam razões para perder o sono. Mas nenhuma é boa

16 de Janeiro de 2017

Bom dia.
Dormiu bem?
Mesmo?
Sente-se descansado e de baterias recarregadas? Se não, é provavel que não esteja a dormir tanto quanto precisa. Se foram menos de sete horas, não foi mesmo o suficiente. Ah, é uma dessas pessoas que diz que "fica ótimo" com apenas seis, cinco ou menos horas de sono? Todos conhecemos essa conversa - sabia que está cientificamente demonstrado que "menos de um por cento da população se enquadra, realmente, na categoria de dormir pouco"? São "indivíduos raros capazes de viver com poucas horas de sono sem sofrerem consequências negativas" - e são raros porque não são pessoas normais. São, na verdade, mutantes (sabia, senhor Presidente da República?). "Embora muitas pessoas gostassem de acreditar que podem treinar para ter entrada nesse grupo de um por cento dos que dormem pouco, na realidade essa caraterística resulta de uma mutação genética."

As citações que acaba de ler são retiradas de "A Revolução do Sono", o livro de Arianna Huffington que acaba de ser editado em Portugal e andei a ler nos últimos dias. E se "o que ando a ler" saltou de lá de baixo, do final desta newsletter, onde é o seu lugar, para o início, não é por não haver notícias (já lá vamos), mas para, por uma vez, tirar o sono do fim da lista. A privação de sono é a nova epidemia global, com consequências sobre a saúde de cada indivíduo - desde a obesidade às doenças relacionadas com o stress, à maior propensão para diabetes, vários tipos de cancro, Alzheimer e outras sequelas na saúde mental -, mas também com consequências na economia - todos os estudos sobre os custos de produtividade associados a dormir pouco ou mal acabam em números assustadores. Parece-lhe importante? Então já voltaremos ao assunto.

Entretanto, isto é o que precisa de saber esta manhã, depois do seu sono.

NO MUNDO

Antes de mais, saiba que um acidente aéreo no Quirguistão, esta noite, provocou pelo menos 32 mortos. Um avião de carga da Turkish Airlines caiu sobre uma área residencial da capital, Bisqueque.

Na semana em que Donald Trump toma posse como presidente dos Estados Unidos da América (não há como isto não soar estranho...), não faltam razões para perder o sono. "Sim, isto é a vida real. Isto está mesmo a acontecer", dizia no último Saturday Night Live o ator Alec Baldwin, a parodiar a primeira conferência de imprensa de Trump.

Este fim de semana o presidente eleito confirmou que continua irascível e que ninguém está a salvo do seu Twitter afiado: atirou-se a John Lewis, congressista democrata que é um ícone vivo da luta pelos direitos cívicos. Lewis, um dos protagonistas da mítica marcha de Selma, no Alabama, e companheiro de luta de Martin Luther King, foi acusado por Trump de "falar, falar, falar", sem "ação nem resultados" - a realidade ultrapassa a ficção quando o presidente dos EUA se comporta como a personagem dos Gato Fedorento: "falam, falam, e não os vejo a fazer nada". Tudo porque, numa entrevista emitida ontem, o congressista acusou Trump de não ser um "presidente legítimo" e anunciou que não estará na tomada de posse. Em consequência de mais esta demonstração de temperamento de Trump, pelo menos 22 congressistas democratas já anunciaram que também faltarão à cerimónia de sexta-feira - um facto inédito.

Outro facto inédito: o diretor da CIA veio a público recomendar ao futuro patrão que tenha tento na língua - no caso, que tenha tento na ponta dos dedos, pois Trump quase só comunica por Twitter. "A espontaniedade não é algo que proteja a segurança nacional e, por isso, quando ele fala ou quando ele reaje, é bom que ele tenha a certeza das implicações do que diz e que o impacto nos EUA pode ser profundo", disse John Brennan numa entrevista.

O Público tem hoje um bom dossiê sobre o que se passa na política norte-americana nesta semana que vai mudar o mundo como o conhecemos e conta que "mais do que nunca, Washington prepara-se para ser campo de batalha política". Pelo que se viu de protestos no fim-de-semana, "batalha" pode não ser uma metáfora.

E quem diz Washington, diz o resto do mundo - Trump parece mesmo apostado em partir a loiça toda. Não só admite levantar as sanções de Obama à Rússia (e já falaremos da continuação do 'bromance' entre Trump e Putin), como deu uma entrevista a espicaçar a Europa: elogiou o Brexit e criticou a política da Alemanha para os refugiados. E mostrou, mais uma vez, que só sabe falar a preto-e-branco e em linguagem hiperbólica - "O Reino Unido foi tão esperto em sair da UE"; Merkel "comenteu um erro catastrófico que foi aceitar todos esses ilegais"...

Enquanto se acumulam evidências sobre a interferência da Rússia nas eleições de 8 de novembro (o Senado vai investigar as ligações de Trump à Rússia), Berlim quer evitar que o mesmo aconteça nas eleições alemãs. A comissão eleitoral já fez simulações para prevenir ataques cibernéticos durante a campanha eleitoral ou no dia das eleições.

Arranca amanhã a cimeira de Davos. O Miguel Prado conta-lhe quem são cinco portugueses em destaque entre os grandes do mundo. Já sem Obama e ainda sem Trump, as atenções estão centradas nas alterações climáticas - as tais que Trump considera que são uma invenção da China. Nem de propósito, o presidente chinês, Xi Jinping, vai estrear-se no Fórum Económico Mundial.

Teresa May será outra das vedetas de Davos. Esta semana a primeira-ministra britânica deverá anunciar que o Reino Unido está pronto para o Brexit na sua versão mais dura, o chamado "hard Brexit". Ao mesmo tempo, o ministro britânico da economia deixa um aviso muito claro: se o corte com a União Europeia for radical, o Reino Unido pode adotar um novo modelo económico, com uma política fiscal agressiva que transforme o país num novo paraíso fiscal. Sim, as coisas podem sempre piorar.

Em Paris, mais de 70 países apelaram ontem a israelitas e palestinianos para que se comprometam com a solução de dois Estados e se abstenham de ações unilaterais que possam condicionar o resultado da negociação, sobretudo sobre fronteiras, o estatuto de Jerusalém e a questão dos refugiados. Londres demarcou-se do comunicado e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, já classificou a cimeira de Paris como "inútil" e avisou que vem aí "um mundo diferente" - o mundo de Trump.

No Brasil, pelo menos 30 detidos morreram, depois de mais um motim numa prisão, desta vez no estado de Rio Grande do Norte.

Leonard Cohen e David Bowie, ambos falecidos no ano passado, estão nomeados para os Brit Awards graças aos seus derradeiros álbuns, editados em 2016. Bowie está nomeado para dois prémios - melhor artista masculino britânico e melhor álbum solo britânico -, com o seu trabalho "Blackstar", enquanto "You Want It Darker", editado em outubro, valeu a Cohen a nomeação para melhor artista internacional masculino.



POR CÁ
Está visto, TSU e Novo Banco vão voltar a ser os temas da semana.

A hipótese do Banco de Portugal avançar para uma venda parcial do Novo Banco, avançada no sábado pelo Expresso, teve resposta pronta dos lesados do BES. Quase 500 clientes lesados pelo papel comercial vendido aos antigos balcões do BES colocaram uma providência cautelar para impedir que o supervisor possa vender o Novo Banco às postas, considerando que ficariam prejudicados no reembolso dos seus créditos. A novela continua e promete.

São cada vez mais as vozes ligadas ao PSD que contestam a decisão de Pedro Passos Coelho de se opor à redução da taxa social única (TSU) para os patrões. A medida, aprovada em concertação social como contrapartida pelo aumento do salário mínimo, será chumbada pelo PSD em apreciação parlamentar, apesar de no passado o partido ter feito e defendido isso mesmo.
Depois de críticas de Manuela Ferreira Leite, de Paulo Rangel e de Silva Peneda, ontem foi a vez de Pedro Roque, líder dos Trabalhadores Social-Democratas, lamentar a mudança de posição do PSD, defendendo que o partido devia abster-se na apreciação deste diploma. A posição dos TSD foi notícia logo de manhã, nas páginas do Público, e à noite, na SIC, Luís Marques Mendes confirmou os seus créditos como crítico de Passos Coelho, desfazendo a sua decisão em relação à TSU, que considerou "incompreensível" e "um monumental tiro no pé". O ex-líder do PSD foi mais longe e rotulou Passos como um "catavento", considerando que este é "o maior erro de Passos desde que está na oposição". Mendes puxou pela memória e lembrou que ainda há poucos meses, já com o partido na oposição e a "geringonça" no poder, Passos deixou passar essa mesma medida no Parlamento, abstendo-se sobre a mesma questão que agora lhe merece o voto contra.

António Costa não recua e, mesmo sem o apoio dos seus parceiros PCP e BE, e com a oposição do PSD, vai enviar já hoje o diploma para Belém. Sabe que terá o suporte de Marcelo Rebelo de Sousa e o aval dos parceiros sociais. O Eco faz aqui a análise comparativa entre o que Passos fez no Governo e o que Costa faz agora.

Ainda o PSD: Passos Coelho assumiu finalmente o que já se adivinhava - ficou pelo caminho a possibilidade do PSD apoiar em Lisboa a candidatura autárquica de Assunção Cristas. O PSD terá o seu candidato, garante o líder social-democrata. Resta saber quem será o voluntário à força - ontem, Marques Mendes "revelou" o que já se sabia: que uma das apostas falhadas do PSD foi José Eduardo Moniz. Entretanto, Fernando Medina já deve ter posto o champanhe no gelo.

Lembra-se de Lacerda Machado? António Costa, o amigo e afilhado, nunca o esquece. E, segundo o Público, acaba de prolongar por mais seis meses o contrato de consultadoria com o Governo, para que o advogado continue a fazer o que quer se seja que faz.

Lembra-se de Armando Vara? Como esquecê-lo, não é? O i foi falar com ele sobre a polémica história da sua nomeação para administrador da Caixa Geral de Depósitos. Luís Campos e Cunha disse há dias na comissão de inquérito à Caixa que em 2005 Sócrates o pressionou para correr com a administração então em funções e nomear Vara; Sócrates desmentiu e Vara, o amigo de Sócrates, vem agora secundar... Sócrates. Entre Campos e Cunha, Sócrates e Vara, como no velhinho programa da RTP, "você decide" em quem acredita.

Ainda no i, recomendo a leitura de um ensaio de Alfredo Barroso, um dos mais próximos colaboradores de Mário Soares, sobre as "razões pelas quais [Soares] entrou para a história".

Terminou o congresso dos jornalistas. Entre as apreciações fatalistas de quem vê a maior crise de sempre da profissão e as análises otimistas de quem vê na crise uma oportunidade, entre os que apontaram o dedo a tudo e a todos e os que se chicotearam por pensamentos, atos e omissões, ficaram pistas para meditar e um conjunto de medidas para implementar já. Como esta: o boicote dos jornalistas às conferências de imprensa em que não sejam autorizadas perguntas. "Não há perguntas? Então não há jornalistas", como bem titula o Adriano Nobre. Veremos se a decisão, aprovada por unanimidade, resistirá à primeira conferência de imprensa sem perguntas, qualquer que ela seja.

Quinze "cidadãos comuns", um focus group representativo dos eleitores portugueses, estiveram reunidos durante um fim de semana, numa iniciativa da ONG Fórum dos Cidadãos, para refletirem sobre como melhorar a comunicação entre os cidadãos e os políticos. As conclusões desse debate serão apresentadas amanhã ao Presidente da República e divulgadas publicamente. Um conjunto de cinco recomendações com o saudável objetivo de "revigorar a democracia portuguesa".

No fim-de-semana futebolístico, só o Porto se ficou a rir. Ganhou ao Moreirense e, com isso, ganhou pontos ao Benfica e ao Sporting. Os encarnados sofreram para empatar com o Boavista e no fim ficaram aliviados, os verdes empararam com o Chaves e no fim ficaram em sofrimento. Sem surpresa, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus dominam os desportivos desta manhã.

AS MANCHETES DE HOJE

Diário de Notícias: "Socialistas querem indemnizações para vítimas de assédio no trabalho"

Público: "Conta da Luz. Consumidores vão pagar 112 milhões para apoiar indústria"

Correio da Manhã: "Falhas de centros de saúde entopem urgências"

Jornal de Notícias: "Burla dos selos da Afinsa fica sem julgamento"

i: "Armando Vara quebra o silêncio sobre a CGD"

Negócios: "Autoeuropa já está a contratar 1500 para novo modelo"


O QUE ANDO A LER

Voltemos, então, àquele assunto. Já bebeu o seu expresso para pôr essa máquina a funcionar? E não acha estranho, ou pelo menos incómodo, que a máquina dependa da ingestão de estimulantes para arrancar de manhã? Sono e cafeína... pois... é "um romance complicado". E é ainda mais complicado se tivermos em conta que cada vez mais gente depende de comprimidos para dormir e de estimulantes para acordar. "O círculo perfeito de esgotamento mercantilizado", escreve Arianna Huffington. Quando algo tão natural e vital como o sono se torna uma indústria, algo está errado.

Breve enquadramento histórico: Arianna Huffington, empreendedora e fundadora de um dos mais importantes novos projetos de media norte-americanos - o Huffington Post -, teve há dez anos um colapso por exaustão provocada pela privação de sono e, desde então, tornou-se uma especialista na matéria e ativista contra a cultura atual, que admira quem dorme pouco e premeia a ideia tonta de que dormir é tempo perdido.

Vivemos, escreve Arianna Huffington, numa "ilusão coletiva de que o excesso de trabalho e o esgotamento são o preço que temos de pagar para termos sucesso. (...) Sentindo que o dia não tem horas suficientes, procuramos onde cortar. E o sono é um alvo fácil. Na verdade, perante esta definição implacável do sucesso, o sono não tem qualquer hipótese". A tese da autora é que precisamos de virar a equação. "Para prosperarmos de facto, temos de começar pelo sono."

Pense nisto: conhece de certeza pessoas que se gabam de dormir pouco - pode até ser o seu caso e é, todos sabemos, o caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Pode ser o caso do seu chefe, do seu colega, do CEO da sua empresa. Ninguém os censura por isso, certo? Bill Clinton também era assim - dormia pouco e fazia gala disso. Até ao dia em que teve uma epifania: "Todos os erros importantes que fiz na minha vida foram feitos porque estava demasiado cansado." A autora de "A Revolução do Sono" tem uma tese radical: apesar desta glamourização testeronizada da ideia de dormir pouco, confiar em líderes (políticos, empresariais, seja de que setor for...) que se gabam disso é como confiar em líderes que se gabam de ser alcoólicos ou de tomarem drogas. Os efeitos são comparáveis, diz Huffington: a privação de sono, tal como o alcool ou as drogas, tolda o discernimento e leva a muitas decisões erradas (sem esquecer que todos provocam grande número de mortes, seja na estrada, seja no local de trabalho, sobretudo em ambiente industrial).

Mas a questão não é só a errada boa imagem da ideia de dormir pouco. A questão é também a pressão cada vez maior dos empregadores para que os funcionários estejam sempre disponíveis, e os avanços tecnológicos que fizeram com que muita gente passe a levar o emprego para casa, no smartphone. O "direito a desligar" vai ser um dos debates mais importantes dos próximos tempos do ponto de vista dos direitos laborais. Dormir voltará a ser uma reivindicação básica, como quando, depois da revolução industrial, os trabalhadores reivindicavam as 40 horas semanais com o slogan "oito horas para trabalhar, oito horas para descansar, oito horas para o que quisermos". A tese de Arianna Huffington é que a mudança de atitude passa pela consciência de cada um sobre a importância do sono, vai implicar provavelmente intervenções legislativas, mas também obrigará os empregadores a terem consciência de que cortar no sono dos funcionários tem mais custos que benefícios. O caminho, diz, é pela flexibilidade, incluindo a possibilidade dos funcionários trabalharem mais a partir de casa para evitarem as longas horas de deslocação nas grandes cidades. Mas não só. Há outras medidas "revolucionárias".

A Volkswagen passou a desligar os servidores de email da empresa trinta minutos depois de terminada a jornada de trabalho; outras empresas alemãs, como a BMW e a Deutsche Telekom, têm políticas semelhantes. O Huffington Post foi das primeiras empresas de Nova-Iorque a criar "salas de sesta" para os trabalhadores fazerem pausas durante a jornada de trabalho e a nova empresa de Arianna (Thrive) tem como política destruir os emails que os funcionários recebem durante as férias e fins-de-semana - quem envia a mensagem recebe um aviso de que "deve voltar a enviá-la a partir do dia X".

Ah, e convém resistir à tentação de estar sempre ligado - se não é o email do trabalho é a televisão, ou o Facebook, ou o Twitter, ou... Não só esta tentação cria um estado de ansiedade permanente, inimigo do sono, como os ecrãs dos telemóveis são especialmente eficazes a suprimir a vontade de dormir. A explicação é científica. "A luz suprime a produção de melatonina, a qual nos dá o sinal para dormirmos. (...) A luz azul, o tipo emitido pelos nossos omnipresentes dispositivos eletrónicos, é especialmente boa a suprimir a melatonina - o que a torna especialmente nociva para o nosso sono. Olhar para um dispositivo que irradia luz azul antes de ir para a cama pode servir como um estímulo de alerta que irá frustrar a capacidade do seu corpo para adormecer. (...) As pessoas expõem os seus olhos a este fluxo de fotões vindos destes objetos que dizem basicamente ao cérebro: 'fica acordado, ainda não é hora de ires dormir'. E depois são 22h00, são 23h00, é meia-noite, e você está a ver emails, a respoder a mensagens (...), à 1h00 vai ver mais coisas porque está acordado, portanto, porque não ver?, depois vai para a cama à 1h00, acorda às 6h00, porque são horas de ir para o trabalho, e isso dá cinco horas de sono. Soa-lhe familiar?"
À noite, durma sobre este assunto.

Fico por aqui. Bom dia e boa semana. E prepare-se, porque vêm aí dias de muito frio.

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