Siga-nos

Perfil

Expresso

Multimédia

Bem-vindos ao episódio ventoso e alternativo de House of Cards

É semana de estreia da terceira série de House of Cards e há uma versão alternativa para quem aprecia os mistérios do humor: vem da Rua Sésamo e é imperdível. Temos vídeos - são três, porque a matéria é rica - e texto que arranca com a série de verdade antes de sondar a paródia.

"Cheirou-me a Bacon." Ele diz isto ao entrar na cozinha, de pijama azul bebé. O outro está ao fogão de frigideira na mão e roupão azul escuro. Ali, a meio da noite, apanhados na improvável intimidade das suas roupas de dormir, estão dois homens poderosos. Um é um congressista feroz e sem escrúpulos, o outro um multimilionário norte-americano. Frank, de pijama azul bebé, foi enviado para convencer Raymond a aceitar o cargo de vice-presidente (um cargo que o próprio Frank ambiciona e que, de resto, [vem aí spoiler] iria mesmo a conseguir pouco depois). A conversa séria acaba adiada para a manhã seguinte. Frank sai da cozinha, não sem antes bater duas vezes na madeira da bancada.

Raymond: Posso perguntar porque é que faz isso? Frank: O quê? Raymond: Bater duas vezes com o anel. Já o vi fazer isso na televisão. Bate duas vezes sempre que se levanta de uma mesa ou sai de um sítio. Frank: É algo que o meu pai me ensinou. É para endurecer os nós dos dedos, para não os partirmos se nos metermos numa luta. E tem também o benefício de batermos na madeira. O meu pai acreditava que o sucesso é uma mistura de preparação e sorte.

Na verdade, o congressista Underwood sabe que, nesta equação, a sorte é uma variável que vale bem menos do que a preparação. Na vida, como na política, não basta estar à espera que uma boa carta lhe chegue às mãos. É preciso fazer bluff com o adversário, quando é preciso, esconder cartas na manga ou mesmo ter um segundo ou um terceiro baralho escondidos, de reserva, para puxar de um trunfo inventado sempre que se justifique ou descartá-lo com a mesma ligeireza com que se puxou dele. No fundo, fazer batota. Regras? "Só há uma regra: caçar ou ser caçado."

O episódio da cozinha entra no penúltimo da primeira temporada de House of Cards (onde é que isso já vai, dirão os fãs incondicionais da série, que consumiram avidamente as primeiras duas temporadas e aguardam agora ansiosamente pela terceira, que é disponibilizada esta sexta-feira pelo Netflix).

A história que se segue não tem bacon, mas tem porcos. Não tem um lobo político feroz que caça as suas presas sem misericórdia na floresta de Washington, mas um lobo verdadeiro (vá, mais ou menos verdadeiro). E continua a ter aquele tique meio obsessivo-compulsivo de bater duas vezes na madeira.

Isto está prestes a ficar ventoso A sequência de abertura mostra-nos imagens em timelapse de vários edificios emblemáticos da capital dos Estados Unidos. A música é imediatamente reconhecível. "House of Cards"? Não, este é o "House of Bricks". Mas serão mesmo tijolos? É preciso cuidado, porque também aqui, tal como na vida, tal como na política, nem tudo o que parece é. Mas já lá vamos.

Não é a primeira vez que a Rua Sésamo faz algo do género. Já tinha transformado Homeland (em Portugal, "Segurança Nacional") em "Homelamb" e "Boardwalk Empire" em "Birdwalk Empire". Agora, chegou a vez da série que relata a ascensão e a sede pelo poder de um congressista norte-americano. A estratégia insere-se no objetivo de apelar não só às crianças que veem o programa, como também aos pais. Ensinar os mais novos e ao mesmo tempo divertir os mais velhos.

"House of Bricks" é uma recriação da história dos "Três Porquinhos". Aqui, o personagem principal é Frank Underwolf (um jogo de palavras com "Underwood"), que traduziremos por Frank Lobo Mau. No vídeo, cada uma das casas dos três porquinhos representa uma edifício emblemático dos Estados Unidos: o Congresso aparece construído em palha, o Supremo Tribunal em madeira e a Casa Branca em tijolo.

Frank Lobo Mau aparece em cena e logo declara os seus intentos: o que ele quer mesmo é chegar à Casa Branca, nem que, para isso, tenha de passar por cima dos outros edifícios. Ou seja, o mesmo que o personagem de "House of Cards". De resto, está lá tudo: o mesmo sotaque sulista (Underwood é de Gaffney, no estado da Carolina do Sul), o mesmo hábito de fazer confissões e apartes para a câmara (ou seja, para nós). Até o grafismo das mensagens de telemóvel que envia é decalcado da série original.

O lobo mau, que nesta versão da história aparece-nos impecavelmente vestido de fato e gravata, destrói a primeira e a segunda casa apenas com a força do sopro. Ele já tinha avisado no início: nesta cidade temos de saber para que lado sopra o vento e isto está prestes a ficar ventoso... (Mais uma referência ao imaginário da série original. A metáfora é usada várias vezes por Underwood ao longo dos episódios. "Depois de 22 anos no Congresso, eu consigo cheirar para onde sopra o vento" ou "o presidente é como uma árvore solitária num descampado: inclina-se para onde o vento estiver a soprar".) Pelo caminho, o vídeo vai ensinando as crianças a subtrair, cumprindo o objectivo pedagógico da Rua Sésamo.

Mas quando chega à casa de tijolo (a Casa Branca), a história sofre um "twist" face ao conto. Este lobo mau não entra à socapa pela chaminé para se queimar ao descer. Entra pela porta principal, apenas para descobrir que afinal aquela é uma casa... de cartas, que se desmorona em segundos. O lobo acaba por ter o seu castigo.

No final da segunda temporada (mais um spoiler), Underwood também se senta na cadeira de presidente. Por isso, decidimos cruzar as duas personagens, Underwood e Underwolf. E não é que eles são mesmo iguais?

Para os fãs da série, há uma lacuna notória: onde está Claire nesta paródia? Na verdade, para ser fiel à série que inspirou a recriação, sem a mulher - parceira na busca obsessiva e sem escrúpulos pelo poder - Frank Lobo Mau dificilmente podia ter destruído as duas casas até ter chegado onde pretendia.

No original, Frank inicia a terceira temporada como presidente. Mas os trailers já conhecidos deixam perceber que a relação com Claire já viu melhores dias. Poderá tudo aquilo que alcançou estar em risco de se desmoronar, como um castelo...de cartas? É esperar para ver.