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Design e moda, uma aliança criativa

Como um vestido reverse, que se usa dos dois lados com um efeito igualmente deslumbrante, o design e a moda estão cada vez mais colados um ao outro

Madalena Galamba (www.expresso.pt)

Entramos numa loja para comprar uns jeans e saímos com uma mesa. Mostramos orgulhosos os nossos sapatos novos que afinal são a última obra de uma conceituada arquitecta. Sosseguem, não perdemos a cabeça. São apenas exemplos da fecundíssima fertilização cruzada que acontece entre moda, design, arquitectura e arte, num mundo onde as grandes griffes já não vendem roupa, mas um lifestyle total(itário).

O fenómeno não é novo, desde os anos 70 que as marcas de moda emprestam o seu nome a fabricantes de mobiliário. Mas, agora, a tendência assume outros contornos, bem mais sérios e sofisticados, com as maisons a investirem muito dinheiro e energia para competirem directamente, em qualidade e ideias, com as marcas de mobiliário de luxo. E porque a criatividade não tem limites, aí estão, do outro lado, os designers de equipamento a trocarem temporariamente os móveis por trapos.

Design e moda estão irremediável e criativamente ligados, pele contra pele, como um glamouroso vestido reversível onde direito e avesso se tornam indistintos, sendo apenas dois lados de uma mesma afirmação de estilo.

Existem as marcas clássicas, como a Armani, a Versace ou mais recentemente a Trussardi (pela mão de Milan Vukmirovic, ex-criador da Jil Sander), que lançaram linhas para a casa como parte da sua estratégia de expansão/diversificação, mas sem causar grandes estragos na indústria do mobiliário. E existem as aquisições recentes, como a Diesel e a Maison Martin Margiela, que associando-se a editores de mobiliário reputados (a Moroso e a Foscarini no caso da Diesel, a Eno no caso da Margiela) invadem o sector casa com propostas de sucesso. Na última edição do Salone del Mobile de Milão, o mais importante evento de design de mobiliário do mundo, o impacte causado por estes estreantes do universo da moda foi de tal maneira importante que a instalação da Maison Martin Margiela - uma reprodução exacta dos ateliês da marca em Paris, povoada por alguns objectos para a casa à espera de serem comercializados - foi considerada pela imprensa uma das melhores e mais originais apresentações do ano.

Mas o que é este design que está na moda? Para a Diesel, a inspiração foi Camp e roqueira, com um sofá que é como uma "grande nuvem" (Nebula Nine), candeeiros underground embrulhados em gaiolas (Cage) e mesas que se assemelham a mesas de DJs. A invisibilidade da Maison Martin Margiela traduziu-se em objectos que ficam gravados na retina, e não só, como o candeeiro com base de garrafa, o calendário têxtil, um globo de neve tamanho maxi e a colecção de Matrioskas (sem rosto e alvas, evidentemente, e para não destoar do ethos da marca).

Mas o cruzamento não estaria completo se as marcas de moda não piscassem o olho, por seu turno, a designers de equipamento, arquitectos e artistas (é impossível não pensar na mediática colaboração entre Takashi Murakami e a Louis Vuitton, onde a proximidade entre arte e comércio atingiu proporções nunca vistas) para realizarem projectos especiais com uma poderosa assinatura.

A marca brasileira de sapatos Melissa foi pioneira na tendência. A par dos designers de moda que escolhia para as suas edições especiais (Jean Paul Gaultier e Vivienne Westwood foram dos primeiros) procurou desde sempre colaborações com criativos de outras áreas, como o mobiliário e a arquitectura. A associação com os designers Fernando e Humberto Campana produziu alguns sapatos memoráveis. Depois, foi a vez da arquitecta Zaha Hadid.

A Melissa é uma marca que se posiciona na vanguarda. Mas o que leva a clássica Lacoste a procurar, precisamente, os mesmos nomes para assinarem colecções especiais e edições limitadas? A procura de frescura, é óbvio. Talvez até uma necessidade de sacudir o pó, e posicionar-se como uma marca de hoje, sem renegar o seu passado. Depois de Tom Dixon, Michael Young, Zaha Hadid, e uma colaboração com vários artistas através da revista "Visionaire", a Lacoste encomendou o seu mais recente projecto especial aos fabulosos irmãos Campana. No clássico pólo branco, os brasileiros agitam os crocodilos (veja página ao lado). Uma edição superlimitada feita pelas mãos de costureiras da associação de responsabilidade social Coopa-Roca, da favela Rocinha, no Brasil. Golpes de mestre, que mostra como o design fica bem à moda.

Publicado na Revista Única do Expresso de 1 de Maio de 2010