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Vai feliz e não seguro

Chega ao Mundial depois de um apuramento aflitivo. Quem é afinal este homem ao leme da selecção nacional, que confia na ciência mais do que na fé e na propaganda e em quem se depositam contidas esperanças?

* LETRISTA E CRONISTA

Ouviu-se falar de Carlos Queiroz no início dos anos 90, quando ganhou dois campeonatos do mundo de juniores e lançou a mais brilhante geração de futebolistas pós-Eusébio. O salto para a selecção principal foi o corolário lógico desse feito, mas correu mal. Depois treinou o Sporting, o Real Madrid, outras selecções, até se fixar no Manchester United, ao lado de Ferguson. O país opinioso do futebol reduziu-o a um potenciador de talentos, bom organizador, mas técnico sem carisma para comandar equipas de nomeada.

É contra essa opinião que Carlos Queiroz ainda hoje se debate. Durante o aflitivo apuramento para o Mundial, quase confirmou esse anátema. Não o vimos aí erguer os olhos em busca de auxílio divino quando a táctica terrena parecia inapta. Vimo-lo de rosto crispado, forçando as agulhas do acaso com gritos e instruções, levando as mãos à cabeça por causa da bola no poste ou por causa duma decisão do árbitro. Entregue às feras nessas horas más, assegurou, com serenidade magoada e convicção, que dias melhores haviam de chegar. E a verdade é que chegaram, num pico dramático digno das melhores tradições épicas portuguesas. Celebrou o apuramento com alegria contida, como se tudo aquilo estivesse previsto no seu plano. Não se queixou de incompreensão, mas arreou a giga dentro dos limites do razoável (que atire a primeira pedra aquele que nunca sonhou dar uns empurrões a uma cigarra como Jorge Baptista).

Agora, no lançamento da campanha africana, Carlos Queiroz reposiciona-se. Temi que o aconselhassem a ganhar o país profundo do futebol através dum golpe de propaganda, talvez revelando devoções insuspeitas, como fez, por exemplo, o professor Marcelo Rebelo de Sousa, que afirmou rezar durante o trânsito recorrendo a um terço mental. Queiroz preferiu continuar impassível. Ainda bem. Vai estar no banco a mascar chiclete, ancorado nos seus gráficos, convencido de que a ciência, mais do que a fé, move montanhas.

Mais emoção, precisa-se 

Espera-se que guinde a selecção a lugares onde já esteve e, acima de tudo, que seja um líder. Portugal é um compêndio no que diz respeito a lideranças fracas. Mas os líderes provêm da nação e se a nação não os produz em abundância é porque tira um prazer mortificador da sua inércia. Queiroz não preenche o perfil da inércia e da lamúria. Talvez por vir de Moçambique e ter uma costela cerebral via África do Sul. Mas tem também a ronha do português avisado: nada de entusiasmos espúrios, nada de derrotas antecipadas. O seu problema principal parece residir no facto de não ter uma curva emotiva na voz que galvanize os adeptos. O seu modelo de comunicação assenta em generalidades evasivas, aqui e ali pinceladas por uma tirada descontraída. "O meu desporto é saltar da cama para a mesa", disse ele a Herman José quando este lhe perguntou se praticava desporto. Foi o homem comum a falar. Mas o homem comum não mobiliza a pátria, os patriotas apreciam declarações marciais e assertivas. Um Mundial é um ensejo para mostrar egrégias virtudes, mas Queiroz não embarca nessa nau.

Estranhamente, escolheu a tormentosa nau de afrontar o benfiquismo. Deixou de fora o Quim, o Carlos Martins, o Ruben Amorim. O benfiquismo é um fenómeno sociológico que assenta na premissa de que o país deve qualquer coisa ao Benfica sem que o Benfica tenha culpa disso. É imprudente afrontá-lo. Queiroz não tardou a levar recados de Jesus. Recados com o peso de presságios. "É bom que ele tenha razão no fim do campeonato." A pasquinada também lançou o seu verdete: quem terá soprado estes nomes ao ouvido do seleccionador? Teria sido mais popular convocá-los - mesmo que não jogassem. Ter o benfiquismo de olho torvo na selecção é um erro, o karma fica inquinado. Não os convocou em nome de quê? Dum modelo de jogo? Esperemos que tenha razão. O problema é que no futebol não se sabe onde começa e acaba a razão, tal como não se sabe onde acaba a ciência e começa a mística, embora os mestres se empenhem em construir a mística com requintes de ciência de pedreiros-livres.

Mas já se percebeu que Queiroz não é fã de correntes fervorosas, bentinhos, pensamentos mágicos. Não cultiva o canteiro da superstição onde o futebol colhe as suas flores mais gratas. Em 2004, Scolari foi lesto a ler o lado para onde soprava o vento opinioso do futebol português e percebeu que afrontar a pequena mas poderosa besta negra do Norte lhe granjeava uma popularidade rápida. Deixar de fora o Vítor Baía foi meio caminho andado para o sucesso mediático. Juntou-lhe o adubo das bandeiras e o sal da senhora de Caravaggio e a pátria marchou ao seu lado incondicionalmente. Mas Scolari era um feirante. No jogo decisivo, contra uma Grécia fria e germanizada por Otto Rehagel, não foi capaz de dar um derradeiro grão de arrebatamento à equipa. Queiroz não apela às varandas engalanadas. Acredita no método, nas dinâmicas internas do grupo.

A sedução mediática não é a sua praia

Às vezes parece até desprezar a opinião pública do futebol. O que é perigoso. Tem um plano e segue-o à risca. É pena não ter um leque confortável de grandes jogadores. O seu dilema resume-se a pôr Ronaldo ao serviço da equipa ou a equipa ao serviço de Ronaldo. Sem Ronaldo, Portugal é uma equipa limitada mas unida, consciente dos seus limites. Com Ronaldo, é uma equipa sobrecarregada pela responsabilidade de ter o melhor jogador do mundo e pela sensação perturbadora de que isso só atrapalha. Daí estarmos condenados a ver Ronaldo ignorar os companheiros, jogadores menores, que abrem os braços sempre que ele não devolve a bola na tabelinha e fica parado a questionar os céus por causa do azar. Como disciplinar Ronaldo, o capitão? Como fazê-lo despir a peliça de primus inter pares? Como prender o génio de Nani numa garrafa e abri-la em espaço necessário e tempo útil? Como impedir Deco de cair no alheamento dos que sabem como se faz mas já não têm força para o fazer? É uma pena Deco ter 32 anos. Sem ele, não há o suplemento de fantasia capaz de operar o milagre do passe que mostra ao avançado a fissura na defesa.

É sobre esta metafísica que o método de Queiroz se debruça dia e noite. Com o aproximar da hora, a incógnita alastra. Que esperar dum mister que não se benze nem troca o passo ao entrar em campo? A saída sem glória logo na primeira fase? A caminhada inesperada até à final? Que drama nos prepara ele? Porque, de acordo com as leis da epopeia, seja qual for o desfecho, o caminho será sempre dramático. Pelo menos, Queiroz terá o apoio da pequena tribo dos que olham para o jogo com olhos mais antropológicos, se bem que não menos tribais, embora todos nós, na hora da verdade, esperemos a transcendência. Num país que acredita mais nos pastorinhos de Fátima do que na disciplina e no esforço individual e colectivo, seria irónico que fosse a veia científica e metódica de Queiroz a dar-nos uma alegria. Mas a gente não exige o impossível, apenas o razoável. E o razoável é jogar sem medo, pois só longe do medo se corre o risco de ganhar. Força, Carlos Queiroz.

Publicado na Única de 12 Junho de 2010