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"Sempre estive nas coisas por prazer e para fazer"

A eurodeputada Edite Estrela, que acaba de lançar um livro sobre o tema, continua a receber muitas dúvidas sobre como falar e escrever bem em português. Mesmo em Bruxelas, responde sempre. Por e-mai.

Cândida Santos Silva (www.expresso.pt)

Foi professora de português e apresentadora de um programa de televisão sobre a arte de bem falar. Aos 60 anos, Edite Estrela orgulha-se de ter sido autora de uma das mais duradouras crónicas na imprensa escrita e acaba de lançar um livro sobre as dificuldades da língua portuguesa. Em Bruxelas, tem relatórios com o seu nome e de lá responde às dúvidas de português que lhe chegam por e-mail.

Acaba de lançar um novo livro sobre a língua portuguesa. Porque voltou à temática? Nunca a deixei. Há dois anos publiquei outro livro, com Maria Almira Soares e Maria José Leitão, as mesmas autoras deste.

De que trata o "Dicionário de Dúvidas, Dificuldades e Subtilezas da Língua Portuguesa"? Era um projecto antigo. Enquanto fiz televisão e nos 17 anos em que publiquei uma crónica na "Capital" recebi muitas dúvidas sobre a língua. Ainda hoje me mandam e-mails para o Parlamento Europeu (PE) com questões de português. Neste livro fizemos um levantamento das principais dificuldades da língua falada e escrita.

Hoje fala-se melhor do que quando apresentou o programa de televisão? Tem havido alguma simplificação. O que me preocupa é o facto de os jovens lerem e escreverem muito pouco. Até os diálogos são estereotipados e muito pobres.

Sente isso na literatura? Não. Não me preocupam as excepções. Hoje, os licenciados padecem de um certo analfabetismo regressivo.

É a favor do acordo ortográfico? É a única forma de promover o português de forma articulada com os outros países que falam a nossa língua.

Fala em português no plenário? Sempre. Mesmo quando estou a presidir a uma reunião.

Vê o mesmo nos seus colegas? Vejo. Nuns mais do que noutros. No ano passado, eu e o Vasco Graça Moura chegámos a criar alguns incidentes pelo facto de irmos a reuniões e não haver intérpretes.

Tem três netos. Ajuda-os nos trabalhos de casa de língua portuguesa? Andam na escola alemã. É tudo em alemão. Há pouco tempo ouvi um deles dizer ao outro: os meninos dizem obrigado e as meninas obrigada. Perguntei-lhe quem lhe tinha ensinado. Respondeu-me que era ele que sabia.

Em Bruxelas, tem feito um trabalho muito ligado ao ambiente, à igualdade entre sexos, ao papel da mulher. Há até um relatório que se chama Estrela, sobre as alterações à directiva da licença de maternidade. É um assunto que tem muitas repercussões. Os ingleses dedicaram-me muitas páginas na imprensa, devido ao impacto financeiro da proposta, e por causa disso pedi um estudo de impacto financeiro.

Tem havido vicissitudes com o relatório? Vai ser votado em Julho. A ideia é alargar a todos os países a licença de maternidade para 20 semanas. Também proponho duas semanas de paternidade pagas integralmente. Debato-me por uma licença suficiente para que a mulher possa recuperar fisicamente, acompanhar o bebé, adaptar-se à nova situação, quer familiar quer pessoal, mas que não contribua para sedimentar os estereótipos sociais.

Também por sua iniciativa foi aprovada uma resolução para eliminar o tabaco dos espaços públicos fechados. Já tem força de lei? Está bastante atrasado. Apoiei com muito entusiasmo a sua proibição em relação aos bares e restaurantes, não só porque há estudos que confirmam que a exposição continuada dos fumadores passivos tem graves consequências para a sua saúde como por ter acompanhado de perto uma situação dessas. O irmão da minha empregada, que não fumava mas trabalhava num bar, morreu com cancro de pulmão. Temos de proteger os trabalhadores no seu local de trabalho. Mas é um processo moroso. A iniciativa legislativa terá de ser da Comissão.

Em Bruxelas, é também tudo muito burocrático? No PE valoriza-se muito a capacidade de quem consegue estabelecer diálogos, criar pontes, ouvir os outros. É muito mal visto aquilo que nos parlamentos nacionais é mais mediático, como o confronto, o conflito, a agressividade. Levar assuntos nacionais para lá não é nada bem visto.

O deputado Nuno Melo foi mal visto por ter interpelado no PE Lopes da Mota sobre o caso Freeport? Foi muito mal visto. Até os colegas do seu grupo político, o PPE, o criticaram. Pude testemunhar isso e até lho disse. Lá vão-se forjando cumplicidades, mesmo com elementos de outros grupos. Valoriza-se quem trabalha, quem consegue estabelecer pontes. É assim que se vai granjeando influência, prestígio e cumplicidades.

Os deputados mais velhos não deveriam ter uma função pedagógica com os mais novos, orientando-os, explicando-lhes as regras? Eles também podiam perguntar! Podiam ver como os outros fazem antes de agir. Em Roma, sê romano. Foi muito criticado que os novos deputados fossem criticar para lá dois portugueses que a nível internacional têm muito prestígio, como Lopes da Mota e Vítor Constâncio. Ser um português a levantar objecções infundadas e que não têm nada a ver com a matéria que está a ser analisada é quase uma traição à pátria.

Isso afectou as relações que existiam entre os deputados portugueses? Criticámos e discordámos, mas não fica uma marca para sempre.

Em Bruxelas, tem-se batido pela igualdade entre géneros. É a favor das quotas? Sou. É a única medida que tem provado que se consegue aumentar a representação feminina. Quando, na Assembleia da República, foi apresentada a lei da paridade, no tempo do engenheiro Guterres, o PSD disse que recusava. Achavam que era um atestado de menoridade e diziam que acreditavam na capacidade reguladora dos partidos. Há sempre alguém, uma força.

Sente-o no seu partido? A política ainda é reino do masculino.

Alguma vez foi escolhida para preencher uma quota? Talvez. A primeira vez que fui eleita para o Secretariado Nacional foi com o Vítor Constâncio. Ainda não estava no estatuto o sistema de quota, mas ficava sempre bem haver mulheres.

Está no segundo mandato no PE, pertence à direcção do PS, foi presidente da Câmara de Sintra, é muito próxima do primeiro-ministro... É uma mulher com muito poder? Nunca coloquei essa questão. Nunca usei a política para me servir ou para servir os que me estão próximos. Sempre tive da política uma concepção do sentido original da polis, ao serviço da cidadania.

Isso é poder. Talvez nesse sentido. Como instrumento para poder alterar a realidade.

É amiga pessoal de José Sócrates. Foi até sua madrinha de casamento. O primeiro-ministro pede-lhe conselhos? Não precisa. Não nos vemos tanto como gostaríamos, mas conversamos.

É ambiciosa? Tenho aquela ambição que é necessária para fazer coisas. Sou muito ambiciosa em relação ao meu país, ao meu trabalho, aos que me estão próximos. Quanto ao exercício do poder pessoal, não sou. É público que já fui convidada para ser ministra e não aceitei.

Em que circunstâncias? Isso não é relevante. Sempre estive nas coisas por prazer e para fazer, nunca para pôr no currículo.

Há algum cargo que ainda não ocupou e que gostaria de ocupar? Não penso assim. Quando era pequena queria ser médica para tratar os doentes, depois quis ser advogada para defender os mais desprotegidos e depois transportei isso para a minha prática política. Gosto de ajudar. E estou bem com a vida.

Publicado na Revista Única de 22 de Maio de 2010