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Sandra Pereira: "Ainda estou a planar, falta-me aterrar"

Prefere fado e música de intervenção, mas foi a rainha de um concurso de música pop. Aos 24 anos, Sandra Pereira fala do sabor da vitória e de como vai sobreviver ao "Ídolos"

Com uma viola debaixo do braço e vinda diretamente da praia, Sandra Pereira surpreendeu o júri quando começou a cantar Zeca Afonso no primeiro casting do concurso de música pop "Ídolos". "Tens a certeza de que estás no programa certo?", perguntaram. A verdade é que nem Sandra sabia a resposta. Mas estava. Foi ela a vencedora no fim de semana passado do concursos de talentos mais concorrido em Portugal. Desde a vitória, Sandra anda a mil. Desdobra-se em entrevistas, sessões fotográficas e eventos. E ainda não teve tempo para pensar como vai transformar estes 15 minutos de fama numa verdadeira carreira musical.

Quando é que descobriu que tinha talento para a música?

Quando era pequena gostava de cantar. Mas a primeira vez que cantei em público tinha 16 anos e toda a gente adorou. Eu sentia qualquer coisa cá dentro sempre que cantava.

Antes de ir para o "Ídolos" já cantava em público?

Fazia parte de uma tuna e cantei fados pela zona de Viseu. Depois formei o grupo Cordas ao Cubo, com três raparigas. Tocávamos Zeca Afonso e Fausto. Cantávamos com tunas, fazíamos aberturas de galas e chegámos a ir cantar a dois bares. Durou pouco tempo, porque mais tarde fiz um casting e entrei numa banda chamada Miss Fabs.

O "Ídolos" não é o seu género de programa.

Não, mas o que interessa é o que podemos fazer a partir daqui. Não importa se é pop ou não. O "Ídolos" foi um meio para chegar a um fim.

Destaca algum momento marcante no seu percurso no programa?

O meu percurso foi regular. O primeiro casting foi o momento que mais me marcou, porque foi estranho para mim. Foi nesse dia que comecei a perceber como é que tudo ia funcionar. Eu própria me questionei quando o Manuel Moura dos Santos me disse: "Não sei se estás no programa certo!"

Alguma vez pensou desistir?

Sim, naqueles momentos quando a pressão era maior. Sacrifiquei-me muitas vezes porque sabia que era isto que queria da minha vida.

Sente-se mudada pelo programa?

Sou a mesma pessoa. Mas agora há coisas que descobri que não sabia antes. Por exemplo, na passagem de ano, quando vi aquelas 100 mil pessoas, percebi que é daquilo que eu gosto. Temos de nos adaptar ao público. Às vezes, precisamos de pôr de lado aquilo de que mais gostamos.

A adaptação então foi difícil?

Foi demorada, mas eu adoro o público, o palco, as luzes...

No momento em que lhe disseram que era a vencedora, o que é que sentiu?

Alívio, felicidade, explosão, tristeza...

Porquê tristeza?

Por causa do Martim. Nesse dia, sabia que ia ficar triste e feliz. Somos os dois vencedores, até porque a diferença de votos foi mínima. Não estava à espera de ganhar! Quando a Cláudia Vieira estava com o envelope na mão, só pensava: "Diz o meu nome, diz o meu nome." Estava receosa, pensei que ia ganhar o Martim.

O que faz afinal de si um ídolo?

O júri sempre me disse que o que me distingue é a minha energia. Desde pequena que sou elétrica, é uma das minhas características. Quando estou em alta, é sempre a andar, a duzentos à hora.

Hoje é uma mulher diferente. A sua aparência mudou muito.

Sim, e é engraçado, porque a cara continua a mesma! Quando apareci no casting, toda a gente me chamou "hippie". Estava com um vestido comprido, vinha da praia, trazia uma viola toda partida, cheia de autocolantes, e o meu cabelo estava todo despenteado!

Foi difícil adaptar-se a uma mudança na imagem?

Não. Fiquei contente com a mudança, e fico contente quando me olho ao espelho assim. Gosto de me ver mais bonita, mas não significa que isso seja a minha imagem de marca. Esta rapariga aqui, de cabelo esticado e maquilhagem, é a mesma de cabelo despenteado e sem pinturas nenhumas.

É uma mudança necessária?

Isto é um talent show de televisão que dura meses. O conceito do programa é esse. Pegar numa pessoa com talento, mas que não está habituada a estas coisas, e realçar-lhe a beleza. Dá gosto ver. Mas se eu fosse cantar sem maquilhagem e com o cabelo por arranjar, faria o mesmo sucesso.

No futuro tenciona manter esta imagem?

Vou concentrar-me mais no talento e na música, sem dúvida. Quando me dedicar ao meu próprio trabalho, vou começar por fazê-lo sozinha, só depois é que vou contactar os managers e os editores.

Há algum membro do júri de que tenha gostado mais?

Não, gosto deles como um todo. Cada um tinha a sua personalidade, cada um disse coisas diferentes, e eu retive os conselhos que achei que devia.

Não achou os comentários do júri destrutivos?

Não me posso queixar, comigo nunca foram muito destrutivos. Foram sempre porreiros.

Neste momento, sente-se um ídolo de Portugal?

É verdade, não é? Sou um ídolo! Mas estou supercansada de tudo. Preciso de tempo para respirar, descansar e pôr a cabeça de molho. Ainda estou a planar, falta-me aterrar.

É reconhecida na rua?

Sim. Ainda ontem fui às compras e apetecia-me andar calada e quietinha. Fui descoberta numa loja, alguém gritou: "É a Sandra dos 'Ídolos'!" Mas as pessoas têm sido muito queridas.

Sente que os amigos e familiares a tratam de maneira diferente?

Não. Tenho amigos que me procuram mais, mas isso foi uma das coisas boas deste programa, voltar a encontrar amizades perdidas, pessoas que já não via há muito tempo.

O "Ídolos" afetou a sua vida pessoal?

Vivíamos num hotel, fazíamos as refeições em conjunto. Deixámos de estar tanto com a família e víamos os amigos a correr. Faz tudo parte do programa...

Teve de abdicar de alguma coisa?

Tive de abdicar de duas coisas fofinhas: dois gatos, o "Julião" e o "Sniff". Tive de os deixar em casa de uma amiga, custou-me imenso. Nem me posso lembrar, porque me dá logo vontade de chorar. Tive de abdicar da minha casa, das minhas coisas, do meu espaço.

Tem projetos para o futuro?

Tenho projetos na minha cabeça, mas ainda não sei o que vou fazer a seguir. Espero ter muitas propostas para estudar antes de decidir.

Que género de música é que pretende explorar?

Gostava de misturar muita coisa. Gosto de funk, rock, chill out, hip-hop, fado, jazz, até música eletrónica.

Em português?

Sim, mas no meio do inglês. O género de música que eu quero fazer resulta bem em inglês.

Agora que viu um sonho a realizar-se, qual será o próximo? Internacionalizar-me.

Quer ser uma estrela a nível mundial?

Não gosto de falar em 'estrela'. Quero ser uma artista internacional. Sei que é muito grande, que é uma apoteose, mas é possível.

O que receia no futuro?

Receio que este mundo de cão me passe a perna. O mundo da música é muito de concorrência, oportunismos. Tenho medo de ser enganada e que a carreira me corra mal. Preciso de me preparar para isso, estudar o que vou fazer, aconselhar-me.

Não se sente sozinha a enfrentar este mundo inteiro?

Não estou sozinha, estou rodeada de amigos, os meus pais são fabulosos. Tenho montes de gente, músicos inclusive, em quem posso confiar e que me podem aconselhar a fazer o melhor.

Pensa acabar o curso de Publicidade e Relações Públicas?

Sim, mas não sei quando. Tenho de ver como será a minha vida.

Mas quer seguir carreira nessa área?

Sim, queria muito trabalhar em alguma coisa relacionada com música, como produção de eventos e de grandes festivais, ou a fazer receções a artistas. A vida não é fácil e temos de pensar sempre numa segunda via...

Publicado na Única de 8 de Dezembro de 2010