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Rainha da pop: Gaga ela?!

Há dois anos, ninguém sabia quem ela era. Hoje, a revista "Time" inclui-a na lista das 100 pessoas mais influentes do planeta. Lady Gaga ganhou o mundo a uma velocidade relâmpago. Como é que esta nova-iorquina de 24 anos tomou de assalto o trono da pop? Clique para visitar o canal Life & Style.

Alexandra Carita (www.expresso.pt)

Radio Ga Ga, o célebre tema dos Queen, era a forma carinhosa com que o produtor musical Rob Fusari a cumprimentava sempre que ela chegava ao estúdio. A voz da jovem era sistematicamente comparada pelo produtor à de Freddie Mercury. Um dia, ao escrever o nome do tema, o corrector ortográfico substitui Radio por Lady. Stefani Joanne Angelina Germanotta nunca mais quis ser chamada de outra maneira. Tinha então 19 anos e acabara de assinar um contrato com a editora Island Def Jam. Ia produzir as suas primeiras músicas a sério.

Para trás ficava a aventura da Stefani Germanotta Band, o grupo que criara com amigos da universidade e com o qual chegara a gravar um EP. Tratava-se de um conjunto de baladas ao bom estilo de Fiona Apple, gravadas num estúdio por cima de uma loja de bebidas alcoólicas em New Jersey. E dera alguns frutos. Em Março de 2006, uma actuação da banda num clube, numa noite também protagonizada pela cantora Wendy Starland, tinha feito com que Starland, ao ouvir Gaga, decidisse ajudá-la, apresentando-a a Rob Fusari, que procurava na altura uma cantora nova.

A jovem Stefani estava há um ano a viver no Lower East Side, no "apartamento mais barato" que conseguira encontrar e cuja renda o pai concordara em pagar durante um ano, depois de ela ter desistido dos estudos universitários na Tisch (Faculdade de Artes da Universidade de Nova Iorque), logo no segundo semestre do primeiro ano. Decidira ser estrela de rock, e a família concedia-lhe um ano sabático.

Tudo indicava que valera a pena. O trabalho com Fusari desenvolvia-se a bom ritmo. Nasciam canções, cada vez mais próximas da música de dança, e formava-se uma imagem de marca. As leggings e camisolas largas que Gaga usava habitualmente foram dando lugar às saias curtas e justas, até que, mais tarde, só a roupa interior ficou colada a um corpo de 1,57 metros com apenas 45 quilos, menos oito do que no fim da adolescência. O ponto de viragem, contudo, acontece com a primeira grande desilusão de Gaga: o fracasso, ao fim de três meses, do contrato assinado com o produtor L.A. Reid, da Island Def Jam.

O ano era já o de 2007. Apaixonada pelo baterista de heavy metal e manager de um bar de rock Luc Carl, de 29 anos, Gaga mergulha de cabeça no mundo do hard rock e adopta para si a cena artística trash. Cada vez mais embrenhada nas noites do Lower East Side, entre bares de travestis e de go go dancers, faz dupla com Lady Starlight, uma self-made woman, performer, DJ e maquilhadora. Actuações sucessivas em pequenos clubes (de Mercury Lounge a Bitter End), que aliavam a dança erótica à música e à performance, abrem-lhes as portas para fazerem as primeiras partes dos concertos dos Semi Precious Weapons, um grupo de glam-rock. É nessa altura que a cocaína entra na sua vida, mas não por muito tempo. O suficiente para lhe consolidar a dieta e fazê-la transcender-se nas suas exibições, que chamam de novo a atenção de Fusari. Sob a influência deste, conhece o produtor Vincent Herbert, que acabara de assinar um contrato com a Interscope para encontrar novos artistas. O patrão da editora ouve-a e resolve apostar nela.

Deixou de ser gente, passou a ser espectáculo

A cor do cabelo já tinha mudado. De preto passara a loiro, depois de, num concerto no Festival Lollapalooza, em Chicago, ter sido confundida com Amy Winehouse. E a sede de fama iria aumentar exponencialmente depois de o namorado, ainda Luc Carl, ter duvidado das suas capacidades artísticas. Ficou célebre a frase "um dia não vais conseguir entrar num café sem que me oiças cantar", que Gaga terá dito a Carl como adeus. Para ajudar à festa, Lady Gaga passou a ter em Andy Warhol o seu mestre. Estudou toda a sua bibliografia como se de uma bíblia se tratasse e encontrou deus em si própria. Disse adeus a Nova Iorque e mudou-se para Los Angeles.

Deixou de ser gente para passar a ser espectáculo. Os números falam sozinhos. Os álbuns "The Fame" (2008) e "The Fame Monster" (2009) venderam mais de 10 milhões de cópias e 35 milhões de singles em todo o mundo. Plateias e plateias de estádios inteiros rendidas, Grammy ganhos, vídeos galardoados nos Prémios MTV e com visionamentos no YouTube superiores a mil milhões, recorde estabelecido até ao momento. Ícone da comunidade gay e lésbica e ao mesmo tempo convidada a cantar para a Rainha Isabel II. Páginas e páginas de jornais, capas de revistas, da especialidade, de moda e de informação pura e dura, a ela dedicadas. Tinta que não corre só pela popularidade de temas como 'Just Dance', 'Paparazzi', 'Bad Romance', 'Poker Face' ou 'Telephone'.

Cada aparição sua é um acontecimento só pelo que pode levar vestido ou não. A moda tornou-se uma paixão tão grande como a música. Ambas são a sua arte, considera. O vestido de bolas de plástico transparente com que apareceu durante a sua primeira digressão, "The Fame Ball Tour", deu tanto que falar como o sutiã manchado de um vermelho a lembrar sangue, como os chapéus gigantescos ou como as suas sete tatuagens com citações de Rainer Maria Rilke a John Lennon. Criou a sua própria agência de imagem, se assim se pode chamar. Chama-se Haus of Gaga. É supervisionada por ela própria e tem ao serviço um criativo, que com ela trabalha directamente, um stylist, um maquilhador, um cabeleireiro, um assistente e um coreógrafo. Qual Factory de Andy Warhol, a Haus de Lady Gaga põe a arte a servir a pop e tem em Donatella Versace a musa inspiradora.

Cada aparição sua é ainda um acontecimento só pelo que pode dizer ou não. As declarações de Lady Gaga vão da ingenuidade mais pura, carregada de um idealismo herdado dos seus ídolos de sempre, John Lennon e Yoko Ono, até à provocação mais polémica. A sua sexualidade provoca explosões e engarrafamentos na Internet de cada vez que é falada. A seminudez já não é novidade na figura de Lady Gaga, mas aumenta sempre as expectativas em relação às suas preferências sexuais. O boato de que é hermafrodita e bissexual nunca foi desmentido pela cantora, que prefere dizer que é uma mulher que gosta de homens que parecem mulheres, mas também uma mulher que gosta de se parecer com um homem. A sua estreita ligação à comunidade gay e lésbica, cujo apoio foi determinante para o seu sucesso no início de carreira, mantém a chama acesa, bem como as muitas declarações que tem proferido sobre a androginia. "Retrato-me de uma forma muito andrógina. E, de facto, adoro a androginia!"

Com um potencial sexual à vista de todos - e aí as comparações com Madonna são legítimas -, Lady Gaga aposta sobretudo numa extraordinária capacidade mutante. Junta caricatura e real, real e surreal, com um humor muito próprio e que chega a ser negro (a facilidade com que mata namorados nos videoclipes é disso exemplo, bem como a forma como faz o prenúncio da sua própria queda). Bizarra, como bizarra era outra das suas grandes referências, Grace Jones, no auge da sua vida artística, Gaga pretende dar corpo a todas as variantes sexuais existentes.

É claro que nada disto seria suficiente sem o talento vocal que lhe é unanimemente atribuído. Terá sido o músico senegalês de R&B Akon a dar o empurrão definitivo a que esse talento pudesse ser ouvido em todo o mundo. Artista da Interscope, editora que contratara Gaga em 2007, foi Akon quem convenceu o big boss Iovine a deixá-la gravar os temas que vinha trabalhando com a produtora RedOne. Foi assim que Gaga deixou de escrever temas para nomes como Britney Spears, Fergie, Pussycat Dolls ou New Kids on the Block, em cujas digressões começou por fazer primeiras partes, e passou a protagonizar a sua própria tournée. O talento que vinha de menina estava finalmente aos olhos de todos.

Família católica e aulas no Sagrado Coração

Nascida no seio de uma família católica, Gaga cresceu no Upper West Side, no coração de Manhattan. O Sagrado Coração, pequena escola privada para raparigas muito perto do Museu Guggenheim, foi o seu mundo até aos 18 anos. Aí, não era encarada como uma criança prodígio, mas os seus dotes artísticos eram reconhecidos por todos. Boa aluna, dedicada, a então Stefani, que aprendera a tocar piano aos 4 anos, deu nas vistas aos 8, quando num concerto da escola fez uma actuação brilhante ao piano. O teatro foi a sua segunda paixão. Aos 11 anos, decidiu sacrificar todos os sábados à arte de representar, em aulas que lhe permitiram pouco tempo depois fazer várias séries de audições para peças de teatro no âmbito escolar. O palco, porém, não deixou nunca que esquecesse a música. Ouvia Pink Floyd e Beatles e muitos outros clássicos do rock. Com um grupo de amigos, ainda antes dos 16 anos, já cantava versões dos seus ídolos como amadora. Uma gravação com baladas fez o orgulho dos seus pais à época.

A carreira artística nunca esteve em causa e, terminado o liceu, seguiu para a Faculdade de Artes da Universidade de Nova Iorque, onde não chegou a frequentar dois semestres. A vontade de criar sem imposição de regras levou-a a tentar a sorte por sua conta e risco. O objectivo era a música e o estrelato, em simultâneo. Na bagagem levava as referências que ainda a marcam actualmente. David Bowie, Michael Jackson, Freddie Mercury e Madonna são os nomes mais gritantes dessa lista de influências, hoje esbatidas num ritmo mais electrónico, sempre dançável e pano de fundo para uma crítica e/ou elogio à futilidade, a um mundo global dominado por redes sociais e afins, violento, pouco apaixonado e equilibrado entre o desequilíbrio de relações de amor e ódio. Tal como as suas. E talvez tal como as dos seus fãs em relação a ela própria. É que a sua emergência meteórica pode transformar-se numa queda aparatosa. São as regras desse mundo que Gaga canta. E ela sabe-o.

Publicado na Revista Única de 22 de Maio de 2010