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Prada, a fashionista relutante

Detestava a moda e a sua futilidade. Foi membro do PC italiano e uma fervorosa feminista. Hoje, Miuccia Prada é a alma da marca de luxo que abriu na semana passada a primeira loja em Portugal.

Mafalda Anjos

Basta dizer que alguém veste Versace, Dolce & Gabanna ou Chanel para logo surgir na cabeça de um vagamente entendido em moda uma imagem imaginária de uma mulher sexy ostensiva, de um futebolista endinheirado piroso ou de uma pessoa sóbria e discretamente elegante.

Por isso, quando Lauren Weisberger teve de escolher uma marca que resumisse num título tudo o que é Anna Wintour, a lendária editora da "Vogue" americana, a tarefa não era fácil. Ficaria assim eternizada numa palavrinha a essência daquela mulher, a dama-de-ferro que é considerada a mais influente personalidade do mundo da moda. Ela que só gosta do melhor, ela que define tendências, ela que é fria, elegante, inteligente e implacável. Não foi obviamente à toa que escolheu a Prada.

No filme "O Diabo Veste Prada", inspirado no livro com o mesmo nome, Meryl Streep diz que a marca é a única razão por que vale a pena ir até à semana de moda de Milão. De uma peneirada, varreu da face da terra todas as famosíssimas marcas italianas e pôs num pedestal aquela que, para muitos, é a mais importante marca de moda europeia, que abriu na semana passada a sua primeira loja em Portugal na Avenida da Liberdade.

A alma desta casa é, sem sombra de dúvida, Maria Bianchi Prada, conhecida como Miuccia Prada, a eterna outsider no mundo da moda que aponta as pistas pelas quais muitos outros vão seguir nas estações seguintes. De todos os designers de moda, provavelmente nenhum tem um percurso mais insólito nem personalidade mais complexa.

Miuccia nasceu no seio de uma família endinheirada de Milão, mas depressa se interessou pelos ideais de esquerda. Foi membro do Partido Comunista Italiano e uma ardente feminista nos seus anos de universidade. Ao contrário de muitos outros estilistas, ela não estudou nada que se parecesse com corte e costura. Cursou ciência política e discutia Marx e Engels com fervor.

A cultura era outra das suas paixões. Durante quatro anos estudou para mimo no Teatro Picolo de Milão. Mas o tempo encarregar-se-ia de lhe pôr no caminho uma outra forma de se expressar sem precisar de falar. Por ironia do destino, haveria de fazer carreira na moda, essa coisa que ela no passado desprezara. Miuccia considerava a moda um mundo fútil, inconsequente e superficial, uma visão comum numa corrente de esquerda alternativa ligada à cultura e às artes.

O seu apurado sentido estético, no entanto, esteve sempre lá. Distribuía panfletos ideológicos pelas ruas da cidade vestida num discreto e elegante fato YSL. "Gostava e fazia moda por instinto", diz à "Única" em entrevista exclusiva.

Reinventar o luxo 

Depois da universidade, entrou com relutância em 1978 no negócio da família, uma luxuosa casa de couros fundada pelo seu avô em 1913, cuja loja original ainda hoje se mantém nas elegantes galerias milanesas Vittorio Emanuelle. E como sempre fez ao longo da sua vida, Miuccia começou a questionar.

O resultado foi uma colecção de malas de nylon pretas lançada em 1985 que deu que falar pelo mundo inteiro e ainda hoje é o produto mais bem sucedido da marca. Quando todos associavam o puro luxo às malas de pele, o gosto de Miuccia por novos materiais fê-la apostar num tecido sintético muito confortável, moderno e, ainda assim, altamente luxuoso. Empurrada pelo seu marido, Patrizio Bertelli, o inteligente empreendedor que assumiu funções como presidente do grupo, lançou a sua primeira colecção de pronto-a-vestir em 1989, imediatamente aclamada pela crítica.

Daqui para a frente foi um caminho de sucessos, com a criação de uma marca mais barata, Miu Miu, e 280 lojas abertas em todo o mundo, mas também de alguns desalentos, como a mal sucedida expansão através da compra da marca Jil Sander, a Azzedine Alaia ou a Helmut Lang.

São aparentes contradições, como as que opõem o mundo da política e das artes ao glamour da moda, que constroem o carácter excepcional de Prada. Miuccia incorpora nas suas criações uma visão do mundo diferente - ela desafia, ela reflecte, ela inova. Se todos dizem cor, ela opta pelo preto e branco. Faz vestidos de luxo como se fossem tingidos à mão na banheira, saias plissadas com motivos de papel de parede, combina botas de pescador com saias de seda.

A sua estética alia o feio e o bonito: "A beleza só por si é muito fácil", diz ela. Ela faz o que as pessoas querem vestir, não as empurra para territórios desconfortáveis, irrealistas ou insensatos: "A moda deve ficar no seu lugar, deve ser divertida, não deve dominar a nossa vida." Vestir Prada - que, diga-se, é muito discreta no que toca a ostentações - é uma declaração de princípios para muitas mulheres com cérebro que não se limitam a seguir a moda: "Sou fashion, mas não sou victim."

Leia também a entrevista

Publicado na Revista Única de 19 de Junho de 2010