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O português que já venceu dois Óscares

Carlos de Mattos é o único português que já ganhou Óscares, pelas suas inovações tecnológicas. De "ET" a "Titanic", de Spielberg a Coppola, todos os grandes realizadores de Hollywood já utilizaram equipamento seu. Clique para visitar o canal Life & Style.

Nélson Marques (www.expresso.pt)

São notícias velhas. Isso passou-se nos anos 80". É desta forma, com genuína modéstia, que Carlos de Mattos arruma a conversa sobre os dois exemplares da estatueta dourada mais cobiçada do mundo da Sétima Arte que guarda na sua casa em Westlake Village, uma pequena cidade no extremo oeste do condado de Los Angeles, na Califórnia. "Foi há tanto tempo que já estão a ficar verdes...", atira com ironia. É, até hoje, o único português premiado com o Óscar da Academia. Recebeu-o, em ambas as ocasiões, na categoria de "Avanço Técnico", pelo pioneirismo dos equipamentos que desenvolveu para cinema: em 1983, pela primeira grua para operar câmaras, utilizada por Steven Spielberg no mítico "ET"; e, três anos mais tarde, por uma câmara activada por controlo remoto que Francis Ford Coppola estreou em "Cotton Club".

Para contar a história de sucesso deste empresário luso-americano de 57 anos é preciso recuar até ao início dos anos 70 do século passado. Nascido em Angola mas criado entre Moçambique (onde viveu até aos 8 anos) e Portugal, Carlos tinha 18 anos quando foi estudar Economia na Universidade Estatal da Califórnia, em Northridge, no coração do vale de S. Fernando (acabaria por licenciar-se em Contabilidade). A adaptação ao Sul da Califórnia não foi fácil. "Os dois primeiros anos foram mais complicados", admite. "A área de LA é tão imensa que era muito difícil desenvolver um sentimento de vizinhança. Além disso, a maior parte das pessoas não sabia nada sobre Portugal, as suas origens, a história e os costumes. Como me chamo Carlos, julgavam que era mexicano."

Com apenas 19 anos, juntou-se ao amigo Ed Philips e, aproveitando a proximidade dos grandes estúdios, montou, numa pequena garagem, uma empresa de equipamentos para cinema, a Matthews Studio Equipment Inc. Na época, as maiores produções estavam a sair dos estúdios para serem realizadas em diversas localizações, mas cada estúdio tinha equipamentos próprios, o que criava, por vezes, problemas de incompatibilidade. Os jovens empreendedores vislumbraram aqui uma oportunidade e agarraram-na com as duas mãos: apostaram em produzir e aprovar formatos standard de tripés, iluminação e outros equipamentos, que rapidamente se tornaram a escolha de eleição em Hollywood. O êxito foi meteórico. "Chegámos a facturar mais de 100 milhões de dólares (perto de 70 milhões de euros), empregar 460 pessoas e estar cotados na Bolsa de Nova Iorque", recorda o empresário.

Quando o telefone tocou

O reconhecimento da Academia chegou na década de 80: primeiro pelo desenvolvimento da "Tulip Crane", a primeira grua para operar câmaras, passível de ser instalada em qualquer lugar. Depois com a "Cam-Remote", uma câmara controlada à distância que conquistou os principais realizadores ao longo de mais de duas décadas.

A ideia de criar a câmara surgiu depois de um operador de televisão ter morrido durante as gravações de um programa. Carlos e o sócio juntaram-se então ao engenheiro Bob Netman para desenhar e produzir um sistema de suporte para câmaras com movimentos controlados à distância. A ideia era alugar o equipamento para rentabilizar a inovação, mas os potenciais clientes acharam o preço demasiado elevado e a "Cam-Remote" não vingou de imediato.

Face à escassez de clientes, a solução encontrada passou por oferecer a utilização do sistema à NBC para a realização de um jogo, recebendo como contrapartida os créditos no final do encontro. Foi o suficiente para o telefone de Carlos tocar no dia seguinte. Do outro lado da linha, uma voz soava estranhamente familiar. Era Francis Ford Coppola, que estava a rodar "Cotton Club" e se tornaria o primeiro cineasta a usar a nova invenção. Seguiu-se o realizador japonês Akira Kurosawa, que a usou em "Ran, os Senhores da Guerra". "Gostou tanto do equipamento que me convidou a mim e à minha mulher para sermos hóspedes dele no Japão", conta Carlos de Mattos.

Uma paixão nascida por causa de Angola

As amizades famosas dentro do círculo de Hollywood não se esgotam em Kurosawa ou Coppola. De Mattos é tido como próximo de Steven Spielberg, George Lucas e até do clã Kennedy, mas é diplomático na resposta. "Todos os realizadores e produtores de excepção que usam os meus equipamentos são meus amigos, desde que sejam justos, criativos, moralmente credíveis e íntegros." A lista de clientes ilustres inclui também James Cameron: o mega-êxito de bilheteira "Titanic", como a maioria dos filmes do realizador, foi todo filmado com equipamento alugado à Matthews Studio Group. O logótipo da empresa está também em filmes como "O Quinto Elemento", de Luc Besson, "Jackie Brown" (Quentin Tarantino), "A Máscara de Zorro" (Martin Campbel ) e "Forrest Gump" (Robert Zemeckis).

Actualmente, De Mattos - que é um dos quase 6000 eleitores da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas que decide, anualmente, os Óscares - preside à CDM Interactive, que detém participações em diversas companhias, incluindo a Cinemills, pioneira no fabrico de iluminação eficiente para cinema e televisão, e a produtora Generation Entertainment.

Com ele, trabalham os três filhos, fruto de um casamento com 34 anos. Uma história que o português recorda com visível orgulho. "Conheci a minha mulher numa loja de arte, onde ela trabalhava. Temos isso em comum: ambos apreciamos a arte", começa a contar. "Comprei uns quadros e quando fui pagar ela viu o meu nome no cartão de crédito e quis saber de onde era. Sem paciência para explicar, uma vez mais, onde é que Portugal ficava no mapa, disse-lhe que era de um país estranho chamado Angola. Para minha surpresa ela respondeu-me: 'Então é português, porque Angola é uma colónia de Portugal.' Fiquei impressionado por finalmente conhecer alguém da minha idade, e ainda por cima uma jovem tão bonita, que conhecia a história de um país tão pequeno, e para muitos californianos tão estranho, como Portugal. Contou-me que Portugal era o seu país favorito e que tinha acabado de passar lá as férias de Verão. Apaixonei-me de imediato e convidei-a para jantar. O resto é história."

Uma aposta de 700 euros

Apesar de, entretanto, ter adquirido também a cidadania americana e de ter passado mais de dois terços da sua vida nos EUA, De Mattos não esconde o orgulho de ser português. "A minha esposa prometeu-me mil dólares (cerca de 700 euros) se eu conseguir passar um dia sem falar de Portugal, da comida, da música, dos jogadores de futebol ou de qualquer outro assunto relacionado com o país. Tenho que admitir: ainda não ganhei essa aposta."

O "Embaixador de Portugal na Califórnia", como muitos o apelidam, garante que prega as virtudes da sua pátria a todos aqueles com que se cruza, de políticos a actores, produtores, empresários, amigos ou simplesmente vizinhos. Bill Clinton não foi excepção. O então presidente dos EUA convidou duas vezes o português para discursar na Casa Branca e, em ambas as ocasiões, De Mattos fez questão de lembrar as conquistas históricas do seu pequeno país.

(Texto original publicado na Revista Única  da edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009)