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"Há dias em que me sinto com direito a uma birra"

A grande atracção do Rock in Rio (actua no dia 29) tem uma legião astronómica de fãs que nem sequer chegaram à adolescência e nunca puseram os pés num concerto. A incrível história de uma menina a quem a personagem Hannah Montana catapultou para o estrelato. Leia a entrevista a Miley Cyrus e veja o vídeo de um dos seus temas

Entrevista de Rui Henriques Coimbra, em LA (www.expresso.pt)

Quem não tem filhos pequenos, muito provavelmente nunca terá ouvido falar de Miley Cyrus. Ou Hannah Montana, como a maior parte do mundo a conhece pela personagem que a celebrizou na série de televisão com o mesmo nome. Não é de estranhar. A rapariga que fez disparar a corrida aos bilhetes do Rock in Rio é afinal uma estrela internacional poderosa, mas sobretudo entre uma comunidade de fãs que ainda não chegou à puberdade. Não se pense, no entanto, que é um fenómeno sem importância. Não. Ela foi eleita pela revista "Time" como uma das 30 pessoas mais influentes do planeta. E a revista "Rolling Stone", a bíblia da música, disse que ela era muito mais do que um passageiro fenómeno pop juvenil, comparando-a a Stevie Wonder, Britney Spears e Justin Timberlake.

Mas a menina que com apenas 12 anos foi catapultada para o estrelato como diva juvenil, entretanto cresceu. E que bem que ela cresceu. Do alto dos seus talentosos 17 anos, agora que está prestes a terminar a última série de "Hannah Montana", acabou de protagonizar o filme "A Melodia do Adeus" ("The Last Song"), com argumento de Nicholas Sparks, e lançou-se numa bem-sucedida carreira em nome próprio como cantora. Resumindo, não está disposta a abrir mão do sucesso quando deixar para trás a pele da menininha sorridente Hannah que lhe mudou a vida, a tornou multimilionária e incrivelmente matura para a idade. Numa entrevista exclusiva em Los Angeles, falou ao Expresso da sua vida, da carreira-relâmpago e dos seus sonhos.

Começou uma carreira muito jovem, mas agora está a assumir-se como "crescida". Como é ver-se de repente no mundo dos adultos? Estou consciente de que isto soa mal, mas é verdade. Muitas vezes, quando tenho de ir aos sítios sem a minha mãe que é também a minha manager, sinto uma coisa esquisita... Até agora tenho-a sempre ao pé de mim. É ela quem, depois dos concertos ou das cenas que faço nos filmes, me diz que me portei bem ou o que precisa de ser corrigido. É ela quem me dá confiança. É uma sensação muito estranha quando não a tenho ao meu lado. Lembro-me da primeira visita que fiz ao Reino Unido sem ela. Tive de aprender a tomar conta de mim porque a minha mãe ficou em casa a cuidar da minha irmã mais nova. É bom que me habitue porque certamente haverá momentos em que terei de fazer as coisas sem a sua ajuda.

Como é que se está a dar com esta fase da sua vida? Vejo-a rodeada de tantos assistentes... Tem de ser. Preciso de ajuda. Garanto que, quando acordo de manhã, não tenho este aspecto. Mas é como nos filmes. Quando apareço no emprego não venho já como se fosse actriz. São eles que me ajudam na transformação. É a mesma coisa quando, todos os dias bem cedo, tenho de trabalhar. De um lado, há uma menina de 17 anos que gostaria simplesmente, ficar em casa a brincar com o cão. Mas sei que não pode ser sempre assim, que há dias em que tenho de dar entrevistas ou concertos, porque a vida de uma pessoa célebre é mesmo assim.

Presumo que a sua vida mudou bastante desde que começou a aparecer na televisão. A sua fama é hoje absolutamente estratosférica. Quais são as diferenças entre a vida antes do cinema e agora? É tudo superdiferente. De vez em quando, quando saio com as minhas amigas, ainda vejo os posters da Hannah Montana, dos tempos em que tinha 11 anos e só fazia aquilo que os outros me diziam. Além disso, a personagem da Hannah Montana estava decidida à partida. Nos filmes, uma pessoa pode adaptar mais a personagem àquilo que somos. Posso ir além daquilo por que sou conhecida.

Nunca se revoltou por ter uma vida determinada à partida pelos adultos que a rodeiam? Para uma artista que começa uma carreira, como é que lida com tudo isto? Uma coisa que sempre soube, mesmo antes de me ter mudado de Nashville para Los Angeles, foi que a minha vida não podia ser apenas um projecto. Não queria que as diferentes fases do meu crescimento fossem reduzidas a decisões negociais. Aquilo que faço, já percebi, pode afectar muita gente. E afecta de certeza aquilo que vou ser no futuro. Por enquanto, ainda sinto que estou a crescer como pessoa e como cantora, actriz, o que for, mas mesmo agora não deixo que todas as decisões sejam tomadas pelos outros. De momento, ainda preciso que me ajudem, até porque há muitas novidades que não sei encarar. A minha tendência é para reagir impulsivamente, mas sei que é boa ideia esperar para ver. O meu avô é que dizia: "Quando não tiveres bem a certeza, deixa-te estar quieta." É isso que tenho feito. Recuo, relaxo. Tenho de fazer isso mais vezes. Houve alturas em que aprendi à minha custa. Tenho de perceber que se os adultos me dão conselhos é porque gostam muito de mim. Fazem-no por mim. É muito importante rodearmo-nos de pessoas com as quais temos essa relação. Sabemos que nos amam e que fazem certas coisas para nosso bem e porque somos muito importantes na vida deles.

Recentemente a sua capa para a "Vanity Fair" causou escândalo por causa das fotos ousadas. Arrependeu-se? Não é que sinta vergonha, mas aprendi a lição e continuei em frente. É daquelas coisas que fazem parte do processo de crescimento.

Geralmente, as actrizes têm de mudar o look ou o tom da voz, se quiserem vingar. Mas, no seu caso, aquilo que é em público parece ser aquilo que é realmente. Alguma vez alguém se atreveu a dizer-lhe que, para se afirmar no mundo do espectáculo, teria de ser outra pessoa? Sim. Quando me mudei para Los Angeles ninguém percebia aquilo que dizia. Dava a ideia de que tinha chegado de um planeta distante. Ia ao Starbucks, pedia alguma coisa e, do outro lado do balcão, a única que me davam era um olhar inquisitivo, tipo "Hã?" Portanto, sim: o meu sotaque teve de ser corrigido e, além disso, a minha voz foi tida como demasiado grave, baixa. Queriam que eu fosse mais menininha. Disse-lhes logo: "Mas eu sou assim! Se querem uma voz diferente podem ir buscar uma das milhares de actrizes que há por aí. Compreendo que o meu sotaque seja difícil, mas lembrem-se de que os filmes podem sempre ter legendas." (risos). Percebi logo que aquelas objecções podiam ser contornadas e que as diferenças podiam ser apresentadas a meu favor. Havia muito medo, mas depois as pessoas habituam-se. O importante foi eu ter percebido que sou única tal como sou. Se me tivessem obrigado a mudar só para me tornar mais comercial, aí eu teria dito logo que não estava interessada.

Aos 17 anos, toda a gente, incluindo as meninas, passa por uma fase de grande insegurança. Mas quem a vê diria que está, basicamente, a implodir com certezas. De onde é que lhe vem esta afirmação pessoal tão sólida? É muito difícil, talvez porque tenho uma terrível falta de confiança, o que é normal porque ainda sou uma miúda. Não é fácil explicar. Sobretudo, acho que as outras meninas não conseguem perceber o meu caso. A única diferença entre mim e elas é que elas não têm ninguém que as arranje todos os dias. Comigo é assim: logo que acordo há alguém que me maquilha e me veste. Não é que eu seja obrigada a vestir coisas que não gosto, mas são de certeza peças que nunca teria possibilidade, ou tempo, de comprar. Os meus pais nunca me deixariam comprar um guarda roupa deste tipo. Quando estou em casa sozinha, com uma calças de fato-de-treino e o cabelo apanhado num carrapito, nunca me sinto nada de especial. Não vejo que o meu aspecto seja grande coisa. Não sinto que a minha vida seja apenas maravilhosa e nada mais. Mas sei que tenho alguma coisa que mais ninguém tem: esta personalidade. No mundo inteiro não há ninguém exactamente como eu. Ora bem, quando tenho de trabalhar é como se tirasse essas características do meu cofre pessoal. Mentalizo-me que só tenho de ser aquilo que sou. É isto que faz de mim uma criatura especial. Que pena a maioria das pessoas não se lembrar disso.

Às vezes, quando a vimos na companhia do seu pai parece que a relação que tem como ele é mesmo muito forte e descontraída. Mas também sei que, na gestão diária da sua vida e da sua carreira, se mantém apegada à sua mãe. Como é a sua relação com eles? Quase que interrompi no início da pergunta porque não sei se é assim tão clara a relação que tenho com o meu pai. Todos os dias me pergunto se sou mais menina do papá ou menina da mamã. Acho que depende de qual deles é meu aliado no dia em questão. Acho que esta dinâmica causa alguma fricção à minha mãe porque é ela quem tem de decidir os assuntos mais duros da minha carreira. Se me dão para ler um guião que eu adoraria passar para o cinema, ou uma canção que gostaria de cantar, é ela quem tem poder de veto. Se o tema não é positivo é a minha mãe quem me diz para eu recusar o convite. Faz-me ver que não se trata de tomar uma decisão negocial. O que está em causa é uma decisão pessoal. Numa situação dessas corro para o colo do meu pai e faço queixas. Ele ouve e dá-me conselhos, muitas vezes financeiros, até porque trabalhamos juntos. É complicado, até porque não quero que o meu pai seja apenas o meu sócio nos negócios. Para mim ele é uma bênção com quem tenho de trabalhar. Acho que ele é óptimo. Adoro estar com ele. Fartamo-nos de rir. Mas, sim, há fases mais difíceis em que eu acabo por me fechar no quarto depois de bater com a porta. Sei bem que pareço inofensiva e boa menina, mas também sou pessoa para me pôr aos gritos lá em casa. A minha mãe até me põe de castigo. Mas não é por mal. Ainda estou a aprender. Acredito que posso melhorar como pessoa se prestar mais atenção ao que a minha mãe diz e faz.

Apresentou recentemente o namorado Liam Hemsworth (co-protagonista do último filme) aos seus pais. Como é que reagiram? Bem. Para lhe ser muito sincera, acho que o meu pai ficou aliviado e mesmo feliz por perceber que, finalmente, a minha vida amorosa registava sinais de vida inteligente. Acho que está feliz por mim. Ainda por cima o rapaz é normal. Não apareci lá em casa com um psicopata, o que é vantajoso.

Há uma grande força, no universo do entretenimento, que vem da Disney. Foi lá que a Miley começou com a Hannah Montana. Mas há outros nomes: os miúdos do High School Musical, a Britney Spears, a Lindsay Lohan e os Jonas Brothers... Descreva-me o que se passa lá no estúdio, num dia normal de trabalho. Andam todos à luta, numa concorrência pegada, ou dão-se bem uns com os outros? Somos todos muito amigos. Já fomos fazer tournées juntos. Seria muito estranho se o ambiente fosse muito competitivo. Não, não me sinto nada ameaçada por eles. Nem eles por mim. Para lhe dizer a verdade, o ambiente de trabalho na Disney é mesmo fantástico. Aliás, devo dizer que, se tudo dependesse da gente e as decisões fossem tomas por cada um de nós, separadamente, era capaz de haver mais concorrência. Mas da maneira como o estúdio funciona, não. A Disney é mesmo um lugar que acarinha quem quer fazer televisão, cinema ou música. Tive imensa sorte, porque acho que é aqui que está o meu dom, no facto de a Disney incentivar os seus actores a tentar a carreira musical.

Mas não tem receio de que a sua carreira fique descarrilada como aconteceu com a Britney Spears? Não, porque tenho uma família que gosta muito de mim. Acho que ela também tem, mas está a passar por uma fase em que toda a gente quer tudo dela. É difícil quando o mundo inteiro nos está a empurrar numa determinada direcção. É importante saber quando parar. Não é que seja boa ideia rendermo-nos à preguiça. Mas, por vezes, é bom, fazer uma pausa. Numa carreira há sempre essa opção. O artista tem de saber que, se for preciso parar durante os tempos, não há mal nisso.

O que vai acontecer com a Hanna Montana agora que está a transitar para o ecrã maior e, pelos vistos, a gravar discos de sucesso para uma camada mais adulta do público? Estamos a gravar agora a última época da série. Já vamos a meio. Deixa-me um bocadinho triste. A Hanna Montana sempre foi um minha segurança, a minha zona de conforto, um pouco como um objecto ao qual nos podemos agarrar caso tudo o resto falhe. Nos últimos anos tem sido sempre a mesma rotina: das 8 horas da manhã às 6h30 da tarde sabia que era para o estúdio que ia trabalhar, a fazer de Hanna Montana. Ensaios, leitura, revisão do diálogo, todos os dias a mesma coisa. O mais estranho é que, quando fazia um meu último tour, a rotina era a mesma. Tinha de me levantar cedo, subir ao palco, ensaiar e cantar, mas era como se tivesse entrado em férias. Cada episódio era diferente, da mesma maneira que cada concerto ia ser diferente. Hanna Montana é a coisa mais fácil que fiz. Mas não sei o que lhe vai acontecer.

Por vezes, fico com a impressão de que a Miley é a única adolescente que conseguiu sobreviver aos anos difíceis sem nunca se revoltar contra os pais, sem ter uma crise de identidade ou, simplesmente, saltar dos carris. Os jornais pensam que me conhecem, mas a verdade é que não fazem ideia do que se passa quando regresso a casa e fecho a porta. Há dias em que me sinto saturada. Nessas ocasiões só me apetece dizer: "Pronto, mãe. Agora é que é mesmo. Não posso continuar a fazer isto. Já não aguento." A sério que há dias em que me sinto com direito a uma birra. Não é que eu me permita fazer isso com frequência, mas não vou estar aqui a fingir que sou perfeita. Não sou. Mas é como a minha mãe diz: "Não é possível conhecer antecipadamente os planos que a vida fez para nós. Ninguém sabe o que vem a seguir e, nem que seja só por essa razão, é importante tirar proveito dos momentos bons que nos foram dados."

Em relação ao seu último filme, "The Last Song", é mesmo verdade que o escritor Nicholas Sparks escreveu a história a pensar em si? O Nicholas escreveu o filme a pensar em mim, mas não necessariamente tendo já a certeza de que eu iria ficar com a personagem. Claro que ele queria muito que fosse eu, e acho que sempre soube que eu iria ter interesse em protagonizar a história, mas não foi tudo premeditado. É muito importante saber que uma pessoa como ele soube pegar em bocadinhos da minha vida de forma a dar ao filme uma consistência na qual me pude submergir com alguma facilidade. Não é que não tenha sido difícil. Foi. Mas custou menos. O Nicholas até deixou que fosse eu a escolher o nome da personagem. Pude apropriar-me dela dessa maneira. Dei-lhe o nome Ronnie, que era o nome do meu avô, porque me lembrei muito dele quando estava a fazer o filme. Chorei muito quando me disseram que tinha morrido, mas a vida é isso mesmo: quem fica tem de encontrar força para continuar. Quem falece deixa-nos com a responsabilidade de tomar conta dos mais novos.

Que aspectos da sua vida se revê no filme? Por exemplo a defesa dos animais. Sou absolutamente louca por animais e já perdi a conta a quantos tenho lá em casa.

Ainda vive em casa dos pais? Sim, vivo.

E a sua vida está apinhada de animais domésticos? Tenho cavalos, vacas e uma revoada de pássaros. Mas os pássaros, enfim, não é por escolha minha. O primeiro ainda vá lá. Foi giro acompanhar o crescimento, especialmente quando eles aprendem a chilrear. Mas agora não gostam de mim e, por vezes, são maus. Nas últimas férias de Natal o meu irmão ensinou um dos papagaios a dizer: "Stupid Miley" e, agora, sempre que estou em casa a cirandar de um lado para o outro, há uma banda sonora que me persegue: "Stupid Miley, Stupid Miley." Não sei se gosto daquela passarada, sobretudo quando é preciso limpar a porcaria que deixam cair. Lixo, insultos. Não sei o que fazer. Já tentei pô-los fora, dizendo à minha mãe que os pássaros têm asas por algum motivo... E também tenho montes de cães. Mas os cavalos continuam a ser os meus preferidos. São de uma serenidade a toda a prova. Parecem estar em sintonia com o mundo que os rodeia.

Sei que entra no segundo "Sex and the City". Não me diga que, apesar da sua idade, é fã da Carrie, Samantha e companhia limitada? Fiz aquilo com uma perna às costas. O meu papel resume-se a cinco minutos de ecrã. Faço de mim mesma. Agora, imagine. Eu, regra geral, detesto sentar-me na cadeira da maquilhadora. Mas, para os meus cinco minutos no "Sex and The City", estava alapada no camarim da caracterização quatro horas antes do previsto. Uma excitação. Só dizia à maquilhadora: "Força. Faz aquilo que te apetecer, mas não te esqueças de que tenho de parecer tão impecável como a Sarah Jessica Parker! Transforma-me. Quero que pensem que nasci neste universo!" No fim lá estava eu com o meu novo penteado, a maquilhagem "fab", as roupas, os adereços. A Sarah Jessica é um dos meus ícones da moda. Está sempre a mudar de look. É isso que eu gosto.

Na entrega dos Óscares apareceu com um vestido comprido e que algumas pessoas criticaram por ser demasiado adulto. Quem é que faz as suas escolhas estilísticas? Misturo e combino peças. O vestido que usei nos Óscares não era para ser sem alças. No início veio com umas tiras com ar de cortinado esquisito e que, isso percebi logo, não tinham nada que ver com aquilo que sou. De resto, gosto de olhar para as modelos das revistas. Ou adapto aquilo que vejo nas revistas e transformo a peça numa coisa que tem mais a ver comigo. A joalharia é toda da minha autoria. O meu estilo é o meu estilo. Sou incapaz de andar com algo que me causa desconforto.

Publicado na Revista Única do Expresso de 22 de Maio de 2010