Siga-nos

Perfil

Expresso

Gente

Fernanda Dias: "Muitos pagariam para aparecer"

Conhece as revistas femininas e de sociedade como ninguém. Nos 15 anos da "Caras", a diretora Fernanda Dias abre o livro sobre o star system português.

Entrevista de Mafalda Anjos (www.expresso.pt)

Fernanda Maria Pais Dias. O nome pode não ser familiar, mas poucos são aqueles que não conhecem os frutos do seu trabalho. A diretora da "Caras", a revista do social líder de mercado que celebra em setembro o seu 15º aniversário, conhece como ninguém a imprensa de sociedade e feminina em Portugal. Aos 56 anos, já passou por diversas publicações, desde a "Nova Gente", à "Maria", "TV 7 Dias", "Mulher Moderna", "Activa", "TV Mais", para hoje ser publisher do núcleo de revistas semanais da Impresa (detentora da "Caras" e do Expresso). Numa longa conversa na redação, entrecortada por diversas solicitações, Fernanda revela a sua dupla faceta: uma mulher de armas que é também um doce de pessoa. Uma conversa franca sobre o mundo das revistas cor de rosa, o estrelato e os famosos e a sua luta pessoal contra o cancro da mama num meio onde a imagem é sobrevalorizada.

É diretora de uma revista de sociedade, estrelas e festas, mas cultiva para si própria uma imagem de discrição. Raramente aparece. Porquê? Discrição faz parte da minha maneira de ser. Se calhar porque desde sempre trabalho em revistas com muitos famosos, tenho muito claro que a famosa não sou eu. O jornalista não é notícia, a não ser eventualmente os que aparecem na televisão porque têm uma imagem pública. Por isso faço questão de só aparecer quando é estritamente necessário, em grandes momentos da revista, como os aniversários, os Globos de Ouro, grandes eventos.

Já esteve em várias revistas femininas e de sociedade no país. Como é que tudo começou?Foi meramente por acaso. A culpa foi do meu irmão, o fotógrafo Abel Dias, que já trabalhava na "Nova Gente". Um dia, tinha eu 22 anos, perguntou-me: "Olha lá, tu não queres ser jornalista?" Na altura já tinha dois filhos, acabara de me separar, estava a precisar de uma mudança na minha vida. Decidi experimentar. Estávamos em 78, a redação não tinha ninguém a não ser a chefe de redação, e eu fui a primeiríssima jornalista da "Nova Gente". Comecei como estagiária e fiz de tudo um pouco, desde inquéritos de rua, a reportagens, entrevistas, festas, até horóscopos! Aprendi fazendo na tarimba.

Como era em 78, num período pós-revolução, fazer jornalismo de sociedade?Era muito diferente. Na altura só havia a "Nova Gente", era a única revista de sociedade e atualidades sociais. Tinha existido uma "Gente" antes do 25 de Abril, que fechou. Esta era a "Nova Gente", com gente nova depois da revolução. A primeira capa foi a Vera Lagoa, uma mulher polémica, forte, marcou logo ali um tom diferente. Outra capa que marcou na altura a revista foi com o casal Eanes.

Quem eram os protagonistas?Atores, atrizes, políticos, fadistas, muitas figuras internacionais, princesas...

As famílias mais tradicionais, ligada ao antigo regime, apareciam? Não, muito pouco. Essas saíam, mais tarde, na "Olá Semanário". A "Nova Gente" era mais popular.

Por que revistas passou na altura? Estive na Impala 12 anos, e passei por todas as revistas que foram saindo no grupo pela mão de Jacques Rodrigues, desde a "Maria", "TV 7 Dias", "Mulher Moderna", "Segredos de Cozinha"... Fui subindo, e tive um cargo de direção em relação a todas as revistas. Na altura era tudo diferente, com máquinas de escrever, corte e cola de textos e fotografias, era outro mundo...

O que aprendeu nesses tempos? Ser discreta, por exemplo, aprendi na Impala. O que é mais importante é o leitor, dar-lhe o que ele quer, servi-lo. Fazer revistas não para os amigos nem para ficar no portefólio de alguém, mas para os leitores.

Esteve no lançamento da "Maria", um clássico. Sim. A grande campeã de vendas na altura era a "Crónica Feminina". Aos poucos, a "Maria" foi conseguindo destroná-la. E a revista impôs-se porque trazia uma coisa completamente nova: sexo. Os consultórios de sexo foram um sucesso, não havia onde as pessoas pudessem falar do assunto em Portugal. As dúvidas, as angústias dos leitores. E não eram só as 'sopeiras' que liam, toda a gente lia.

Já a "Activa" marcou a diferença porque se destinava a uma mulher trabalhadora. Quando me convidaram para lançar a revista "Activa", vim trabalhar com os brasileiros da editora Abril Morumbi, a génese do que é hoje a Impresa Publishing. Nessa altura já existiam revistas femininas - "Máxima", "Elle", "Marie Claire". Mas a "Activa" trouxe uma grande componente prática, era feita para as mulheres reais, que trabalhavam, tinham filhos. Trazia fichas, picotadas e destacáveis, de jardinagem, tricot, filhos... E tinha uma coisa que fez sucesso: moldes para as pessoas fazerem roupas em casa. Foi também a primeira a oferecer brindes em Portugal: um bâton, um verniz. Hoje é a coisa mais banal, mas na altura era uma novidade incrível. A revista vai fazer 20 anos no próximo ano e ainda hoje continua a ser líder de mercado por ser uma revista de serviços.

Como foi o lançamento da "Caras", há 15 anos? Quando o grupo decidiu lançar a "Caras" em Portugal, que vinha da parceria que existia com o Brasil, convidaram-me para ser a diretora. Em Portugal não havia nenhuma revista que trouxesse os famosos com glamour, no seu melhor, que não tivesse televisão. A "Hola!" era e ainda é a grande referência. Fui para o Brasil aprender uma nova forma de fazer revistas sociais. Como fazer uma produção, as festas, as reportagens. Toda a forma de fotografar era substancialmente diferente do que se fazia em Portugal. Há 15 anos, as pessoas não eram fotografadas de corpo inteiro. As fotos eram pequeninas, pela cintura. Na "Caras", a técnica era completamente diferente, queríamos mostrar os famosos e as suas toilettes e casas. A revista ganha uma função de moda e de decoração, faz sonhar e inspirar os leitores. Todos tivemos de aprender.

Fazer sonhar é o ADN de todas as revistas cor de rosa? Sim, pôr as pessoas a sonhar é essencial: "Ai, gostava tanto de estar neste sítio, ter esta casa, ter este vestido." A ilha da "Caras", o castelo da "Caras", tudo isto faz parte deste universo da magia e do sonho. E dar a conhecer pessoas com mérito e sítios com interesse.

E a revista também se distinguia pelo tipo de pessoas que apareciam? Os socialites lutam para ter o 'privilégio' de ser capa na "Caras"? Tanto respeito as pessoas que não querem sair nas revistas como as que querem e gostam. Quem não quer sair, não sai e ponto final. Mas há de facto pessoas que adoram sair nas revistas e adoram ir a festas, e ainda bem. Estamos aqui para alimentar o ego de toda a gente que sai na revista. De forma positiva fazemos sonhar as pessoas.

Mas Portugal é um país pequeno, com pouca gente. São sempre os mesmos, nas mesmas festas. Sim, é verdade. Fazemos um esforço de edição para evitar isso. E, às vezes, no mesmo dia, as pessoas vão a várias festas. E depois há os profissionais: aprenderam que se estão com a mesma roupa em vários eventos, só vão aparecer uma vez, por isso mudam de roupa pelo caminho para aumentarem as suas hipóteses de aparecer.

Usam muito Photoshop (programa informático de tratamento de imagem)? Se a pessoa estiver mal numa fotografia, não a publico. Fazemos questão de cuidar da aparência das pessoas, de as tratar bem, se for preciso, retocá-las em Photoshop. O retoque sempre se fez, só que com outras técnicas. Aliás, o meu pai era fotógrafo profissional e a sua arte era o retoque. Teve aulas de belas artes, sabia pintar, desenhar, e fazia Photoshop manual. Estive horas ao lado dele a ver fazer esse trabalho. Punha pestana, tirava as rugas, as borbulhas. O meu pai mostrou-me que a fotografia não é só a verdade do momento. Há também a fotografia-sonho, artística, bonita, mas que é uma ilusão.

Mas onde estão os vossos limites? O que é só um mero retoque ou pura ficção? Todos nós temos estado a aprender quais são os limites da utilização do Photoshop. Numa revista como a "Caras", é muito fácil entusiasmarmo-nos e retocarmos demais as pessoas. Temos tentado definir os nossos limites com bom senso. Nós já fizemos coisas exageradas e aprendemos com os erros. Melhoramos a luz, tiramos uma gordurinha num braço que ficou encostado, atenuamos as rugas, mas não as tiramos. Algumas nem precisam porque já as tiraram! (risos)

E fotomontagens? Também as fazemos, mas com limites. Na "Hola!", há pouco tempo, fizeram uma fotomontagem um pouco agreste. Com base numas fotos nossas, em que aparece a princesa Letizia na praia com as crianças e a família Coutinho, retiraram Vasco Pereira Coutinho, puxaram as crianças mais para o pé dela, a comparação é impressionante. Isso é mentir e nós não fazemos. Nós somos jornalistas. Apesar de fazermos revistas cor de rosa, porque a "Caras" é uma revista cor de rosa, todos os que trabalham na revista são jornalistas. Nós não esquecemos isso. O que torna a nossa vida muito mais difícil. Não é por acaso que em 15 anos nunca tivemos um processo.

A Catarina Furtado ameaçou fazê-lo quando divulgaram imagens do filho. Mas não fez. Houve um episódio menos feliz com ela, mas não há nada como as pessoas darem a cara e se retratarem se for caso disso. Felizmente temos hoje com ela uma excelente relação.

Além do sonho, há também as mortes e tristezas. Há o lado sórdido que quer ver desgraças, faz parte da natureza humana. Estas revistas não vendem só pela felicidade. Se fazemos uma capa com a morte de uma figura pública muito conhecida, como o Raul Solnado ou o António Feio, sabemos que é uma revista que vai vender. Gosto de ver as coisas pelo lado positivo e pensar que os leitores compram para homenagear essas pessoas.

Mas a chamada imprensa cor de rosa está cada vez mais vermelho sangue. Cheias de escândalo, imagens de paparazzi. O que aconteceu? Sim, é verdade. As próprias revistas de televisão, que antigamente eram guias, hoje já não são nada disso. Tudo isto tem que ver com um fenómeno televisivo com 10 anos: o Big Brother. Veio mudar a televisão e as revistas, que acompanham muito do que acontece em televisão. Todas as revistas foram atrás daqueles desconhecidos, das suas famílias, amores, desamores. Todas, menos a "Caras".

Deve ter sido uma decisão que saiu caro. Foi estudado e deliberado, isso não tinha que ver com o nosso posicionamento e perfil editorial. A "Caras" só tem gente famosa e conhecida, no Big Brother entravam cidadãos comuns. Não podíamos perder a nossa marca e conceito. É claro que foi difícil, mas sabíamos que isto iria reverter a nosso favor. E entretanto apareceu o Big Brother dos Famosos, estávamos salvos! (risos)

Quem são afinal as pessoas mediáticas hoje em dia? Quem aparece na televisão. Os futebolistas, atores, são eles os mediáticos. As pessoas ditas de sociedade, as famílias tradicionais, os mais ricos - Champalimaud, Espírito Santo - não dão entrevistas, nem abrem as portas de casa.

O filho misterioso de Ronaldo foi um acontecimento nacional. E não apenas na imprensa cor de rosa, em todos os meios. É evidente. Temos de ir ao encontro do que as pessoas veem e querem.

Mas há também pseudo-celebridades que muita gente não conhece nem faz ideia quem são. A fasquia é muito baixa. Normalmente, são pessoas que trabalham em televisão. São apresentadores, atores de novelas, e quem vê televisão conhece-os. É sempre o velho problema: ou aparecem sempre os mesmos, ou se se quer pôr gente nova pergunta-se: "Mas quem é este que ninguém conhece?" É preciso colocar gente nova para refrescar, a revista não pode envelhecer. Mas é claro que não deixamos a Lili Caneças, nem a Cinha Jardim...

Como é que surgem aqueles fenómenos de estrelato instantâneo? Os tais 15 minutos de fama? O estrelato instantâneo tem que ver com a televisão e, novamente, o Big Brother. O Zé Maria, a Gisela Serrano... Estas personagens estavam em todo o lado, quem é que se lembra delas hoje?

E aqueles profissionais das festas, que não fazem nada? Como a Lili? Ela já existe nas revistas há mais de 30 anos... não é um caso de estrelato instantâneo. Há pessoas que não fazem nada, e têm designações típicas: empresários não se sabe do quê, relações públicas... E há as donas de casa dondocas que gostam de sair nas revistas. Se forem bonitas, tiverem uma boa história ou uma casa gira, já pode haver motivo para aparecerem.

As fotografias de paparazzi chegaram em força nos últimos anos às revistas cor de rosa. As pessoas adoram espreitar pelo buraco da fechadura? As pessoas gostam de ver fotografias dos famosos nas suas vidas, ao natural, tiradas sem a sua autorização. Os paparazzi chegaram tarde a Portugal, mas existem há anos em Espanha, Inglaterra, Itália. Basta lembrar a princesa Diana, foi uma mártir. E nós publicávamos também, não somos santos.

Não há inocentes nesta matéria. Na maior parte das vezes os paparazzi infringem os limites dos direitos da privacidade e são as revistas que publicam essas imagens que editorialmente têm de os controlar. Como decidem se publicam ou não uma imagem? As fotos de paparazzi nacionais já nos chegam via agências. Se não são degradantes ou prejudiciais para a imagem das pessoas, se forem giras e tiverem interesse por serem diferentes, telefonamos à pessoa e tentamos obter autorização para as publicar.

O que não publicam, então? Onde estão as fronteiras? O que não tem autorização. Já nos aconteceu ficar com fotos que não pudemos publicar porque não conseguimos autorização.

O Ronaldo no barco com a sua nova namorada, depois do nascimento do filho, estava em todo lado. Publicaram também? Com autorização dele? Não, nem conseguimos falar com ele... Quando as fotos nos chegam de agências internacionais, que publicamos com alguns critérios. Temos cuidado que não sejam situações degradantes, imagens para dentro da casa de alguém, temos cuidado com os menores. Mas é evidente que também não somos santos.

José Mourinho decidiu acautelar-se e emitiu uma providência cautelar para todos os media que proíbe que se fale dele e da sua intimidade e da família. O Ronaldo também fez isso.

E as providências são cumpridas? Normalmente são, mas há quem publique a fotografia das páginas de jornal que trazem as imagens proibidas. Há muitas nuances legais.

Muitos famosos mostram-se porque precisam das revistas, que lhes catapultam o seu valor de mercado, mas por outro lado irritam-se quando interferem na sua vida privada. Há uma relação de amor-ódio entre estas personagens e a imprensa cor de rosa? Por uma pessoa ter querido aparecer no passado, porque lhe dava jeito, porque lhe interessava, mas tem o direito a dizer que agora já não quer. Irritamo-nos, mas temos de respeitar isso.

Sentem-se instrumentalizados? Sim, mas a verdade é que os famosos também sentem que as revistas os estão a usar para vender. O sentimento é de parte a parte.

Tem consciência de que consegue aumentar o valor de mercado de uma celebridade porque ela aparece na "Caras"? Sente-se poderosa? Aparecer na "Caras" dá estatuto às pessoas, e penso que isso pode fazer aumentar o seu valor de mercado. Isso é poder? Não sei...

Pedem-lhe favores, metem cunhas? Fazem-me muitos pedidos, os próprios, os relações públicas... Mas, felizmente, já me conhecem o suficiente para não se atreverem a pedirem-me certas coisas.

Pedem-lhe para sair, para ser capa? Sim, esses pedidos chegam. Umas vezes de forma subtil, outras mais direta. Lidamos bem com isso. A capa é decidida no dia de fecho, nunca garanto capa a ninguém, seja quem for.

Já lhe ofereceram dinheiro? Não. Pagar para aparecer, nunca me propuseram. Sabem que seria muito mal recebido. Mas sei que há pessoas que não se importavam de pagar para aparecer.

E isso acontece, efetivamente? Não sei...

E em Portugal, as estrelas recebem dinheiro para aparecerem, deixarem fotografar o seu filho? Na "Caras" nunca pagámos um cachê para alguém dar uma entrevista. O máximo que fazemos é convidar para uma viagem, à ilha da "Caras", a uma cidade especial...

Pelo que li, a Isabel Figueiras fez-se cobrar 100 mil euros para uma entrevista e sessão fotográfica quando nasceu o filho, que disse que deu a uma instituição de solidariedade. Nós não entramos nisso, mas há quem o faça. Se fossemos um país rico, e estivéssemos em condições financeiras para o fazer, não acharia mal. Afinal compramos uma fotografia numa agência. Mas esses preços são ridículos.

E quais são os exclusivos mais caros? Quem são as personagens mais bem cotadas? Um exclusivo da Angelina Jolie com os gémeos foi a leilão e foi vendido recentemente por 25 mil euros, mas não chegou a ser vendido em Portugal. A "Hola!" comprou com direitos também para o nosso país. Nós nunca pagaríamos esse valor. Mas 5000 euros são valores mais normais para Portugal. O Cristiano Ronaldo é a grande figura, o Mourinho também...

E os políticos vendem? Em campanha, aparecer nas revistas cor de rosa dá-lhes votos? Os políticos não vendem capas! (risos) Só temos alguma coisa deles quando estão em campanha... nessa altura, não há dúvida, estão mais disponíveis. Mostram a família, abrem as portas de casa. Quando não estão em campanha, a maior parte nem olha para nós. Mas acompanhamos sempre a agenda da primeira-dama. E há muitos que aparecem na "Caras". Santana Lopes saiu muitas vezes, Paulo Portas, Ana Gomes, Edite Estrela, Maria de Belém...

Mas há uma tendência para os políticos usarem estes meios mais populares para comunicarem? Marques Mendes foi à Fátima Lopes, por exemplo. Sim, é possível. Mas capa, nem pensar. Já fizemos algumas experiências e não resultam.

E há informadores profissionais, que dão notícia da vida dos outros? Sim, sei que existem. Na "Caras" nem tanto. Agora há é o jornalismo do cidadão. São pessoas comuns que vão na rua, encontram um famoso, tiram uma foto e mandam para as revistas.

Há diferenças entre as socialites de Lisboa e do Porto? No Norte, a sociedade é um pouco mais fechada. É preciso ganhar-lhes a confiança. Depois disso, abrem-nos as portas de casa mais rapidamente do que os de Lisboa.

A Fernanda vai a muitas festas? Frequenta os meios que publica? Para mim ir a festas é trabalho, não é prazer. Tenho de ir às festas da "Caras", obviamente. Mas nunca desligo, não relaxo. Prefiro estar com a família e os amigos num jantarinho, coisas mais reservadas. Tenho alguns amigos que também são conhecidos, aí é um misto. Nesse aspeto, sou o contrário do meu irmão. Ele adora estar nas festas, eu acho que ele vive sempre em festa. Eu sempre fui mais tímida e reservada.

A Vera Lagoa costumava dar o seguinte conselho às pessoas mais novas que começavam a trabalhar com ela: "Nunca comas nem durmas com esta gente." (gargalhada) Ela tinha toda a razão! Era uma mulher muito sábia.

Quem é que são os seus amigos? São os meus amigos de sempre, de muitos anos. Mas tenho muitos amigos com quem trabalho. Amizades que fui fazendo ao longo dos anos.

Os seus pais eram festeiros? A minha mãe adora festas, ainda hoje com 84 anos. O meu pai, além de fotógrafo, era ator, cantava. E tinha um enorme amor pelo teatro, que transmitiu a toda a família.

Fez teatro? Sim, pertenço à coletividade da Academia de Sto Amaro, em Alcântara, onde vivo e todos me conhecem. Todos nós fizemos teatro lá, eu, o meu irmão, o meu sobrinho Miguel Dias... Ainda hoje faço as coreografias. Adoro dançar! E há uma certa analogia com fazer revistas: quer num caso quer noutro, estamos a contar histórias. E o contacto com este género de pessoas e realidades dá-me uma noção completamente diferente da realidade.

Da vida real? Fá-la descer com os pés à terra? Exatamente. Há muita gente que precisava de um banho de realidade, e de perceber que há um mundo diferente fora do seu círculo de amigos e colegas, para quem, por exemplo, 5000 euros são uma fortuna.

O que lhe dá prazer? Estar com a família. Tenho três filhos - o João Pedro, realizador, Gonçalo, designer gráfico, e Tiago, músico. Tenho um orgulho enorme em cada um. São eles a minha força. E já tenho sete netos entre os 9 anos e os quatro meses. Adorei ser avó, embora seja uma avó um pouco diferente das tradicionais. Somos uma família muito unida.

Travou no último ano e meio uma importante batalha na sua vida. Como descobriu que tinha cancro da mama? Sou uma pessoa supercuidadosa, sempre fiz todos os exames de rotina. Em dezembro de 2008 estava a pôr os meus cremes, senti um altinho no peito, em baixo. Como estava a entrar na menopausa, e tinha deixado de tomar a pílula, pensei que podiam ser alterações hormonais. Andei nisto uma semana, e o altinho sempre ali. Fui à médica do trabalho e ela mandou-me ir imediatamente fazer exames.

Quando teve a certeza do diagnóstico, como reagiu? A palavra cancro ainda é muito pesada, apesar do prognóstico já não ser tão mau. Sim, é muito pesada. Confirmaram-me que era um cancro, e dos piores. Eu disse cá para mim: "Olha que bom, tenho cancro..." Tenho esta capacidade de rir das próprias desgraças, o humor é a minha estratégia de defesa.

Lembra-se o que pensou? Pensei que tinha de fazer o que fosse preciso para debelar esta coisa, isto tinha de desaparecer. Felizmente caí nas mãos do cirurgião Santos Costa, um médico fantástico e uma pessoa que transmite toda a calma, que por acaso tinha também operado a Fernanda Serrano. Soube o diagnóstico no dia 5 de janeiro, no dia 14 estava a ser operada. Tive muita sorte, porque felizmente estava muito no início.

Nunca teve a tentação de, como jornalista, correr para a internet e informar-se sozinha? Sim, grande erro. Percebi logo e parei a tempo. Esta doença tem uma evolução diferente para cada pessoa, e as abordagens divergem. Tive de confiar no médico, não tinha mais nada a fazer.

Depois da operação, vieram os tratamentos. Quimioterapia, queda do cabelo. Como é que uma mulher da imagem lida com uma situação destas? Foi duro, porque não estava à espera. O médico tinha-me dito que provavelmente não teria de fazer. "Tem de ser", pensei, e só queria saber se podia apanhar sol, se podia ir para a praia, se podia fazer a minha ginástica, se podia fazer massagens.

Preocupações práticas. Sim. (risos) É claro que não podia fazer nada disso. Tinha de estar sossegada e fazer os tratamentos. E depois descobri o preço de fazer químio: seis sessões são 30 mil euros. É incrível!

Continuou a trabalhar durante esse processo. Os tratamentos duraram quatro meses, e eu fiz questão de trabalhar. Segunda-feira de manhã ia fazer as análises, fechava as revistas à tarde, e no dia seguinte ia fazer químio. Ficava dois dias em casa, e sexta voltava para ver como estavam as coisas. Nas duas semanas seguintes ia trabalhar, até ao próximo tratamento duas semanas depois.

E o cabelo? Antes tinha franja e cabelo preto, era quase uma imagem de marca. Fui-me habituando tanto à ideia que cortei o cabelo antes de tempo. Arranjei várias cabeleiras, primeiro de cabelo natural e depois de cabelo artificial. Sou uma mulher do teatro, pensei que era uma ótima ideia usar várias cores e feitios. Fui ao cabeleireiro com uma série de amigos e rapei o cabelo, tenho tudo filmado e fotografado, tudo documentado.

Chorou? Não. Até estava a achar graça. Pintava as unhas enquanto me rapavam o cabelo. Nos primeiros tempos ninguém notou, porque usava uma cabeleira igual ao meu cabelo. Depois fartei-me. Comprei uma preta, uma vermelha e uma loira. Comecei a achar que podiam condizer com o que trazia vestido. Para mim era uma forma divertida de encarar a situação, porque estar careca não tem graça nenhuma...

Vê sempre o lado positivo da questão. É a minha maneira de ser. Tomar duche careca era uma delícia. Sentir a água a cair diretamente na cabeça sem cabelo... que maravilha!

Retirou alguma coisa desta experiência, sente que ficou uma mulher diferente? Hoje sinto-me bem, faço a minha vida normal, o cabelo voltou a crescer... Faço exames de seis em seis meses, está tudo bem, e não vivo a pensar que tenho, tive ou poderei vir a ter cancro. Não vale a pena. Não deixei de ser a mesma pessoa nem modifiquei a minha forma de viver a vida. Se calhar tenho menos medo, não sei. É preciso é viver a vida intensamente e lutar quando é preciso.

Publicado na Revista Única do expresso de 28 de Agosto de 2010