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"Eu não faço política e o meu sogro não faz concertos"

Os maiores festivais de verão e as principais rádios alternativas de Lisboa foram construídas por ele. Por isso, recusa ser apontado como o genro do Presidente. A vida de Luís Montez.

Ana Soromenho (www.expresso.pt)

Sabíamos que detesta dar entrevistas, que não gosta que lhe escrutinem a vida e lhe apontem o dedo: "É o genro do Cavaco!", como se tudo o que conquistou não fosse por mérito próprio. Luís Montez, 46 anos, é um homem da cultura do trabalho. Nas duas últimas décadas organizou milhares de concertos, montou rádios. É isto que o move.

Durante a tarde em que decorreu a nossa conversa manteve-se sempre ligado, nunca parou de trabalhar. Dois telemóveis no silêncio, pousados ao lado da cadeira, vão-lhe dando conta do que se está a passar. Os festivais estão à porta, há ainda nomes a confirmar, negociações a fechar. Para trazer Prince, por exemplo, cabeça de cartaz do Super Bock Super Rock, travou uma luta renhida com o agente, mas conseguiu garantir a presença do artista no Meco.

No escritório onde nos recebe, na Rua Viriato, sede das rádios e da promotora Música no Coração, os discos estão por todo o lado. Nas prateleiras, no parapeito da janela, em cima da secretária... No que toca à música, Montez põe-se como peixe na água: "Já ouviu isto?", perguntará várias vezes ao longo da tarde, aproveitando a oportunidade para saltar da cadeira e abandonar a posição incómoda de entrevistado. E, quando a música começa a tocar, perde a rigidez, transfigura-se. Por momentos, esquece o seu papel.

Porquê tanto medo de se expor? Há sempre os invejosos: "Olha o gajo a armar-se." Gosto de ficar sossegado. A única coisa que interessa saber sobre mim é o que faço.

É orgulho? Não gosta que lhe apontem o facto de ser genro de Cavaco Silva? O trabalho é sagrado. É mesmo uma coisa muito séria. Tenho muito orgulho no meu percurso. Incomoda-me a ideia que não seja devidamente avaliado, que seja desprestigiado. "Ah! É por isso que ele consegue!" Essa insinuação existe sempre e magoa-me. Prefiro não me expor.

Mas, já que aqui estamos, por onde começamos? Temos de falar sobre mim?

Alguma coisa teremos. Estou tramado.

Começamos pelas rádios. Foi por onde iniciou o seu percurso profissional? É a minha paixão. Gosto muito deste meio de comunicação, da intimidade que proporciona. E gosto de criar projetos. Pensar em vários géneros de música e saber como se comunica, a quem se pretende chegar. O que me dá verdadeiro gozo é criar um produto e fazê-lo crescer. Todo o lucro que recebi dos concertos foi para investir em rádio. Nunca tive nenhum fundo financeiro a sustentar a empresa.

Um negócio ajuda o outro. As rádios promovem-lhe os festivais, é a melhor maneira de divulgar. Claro. É o casamento perfeito. As minhas rádios fazem promoção e trazem informação para programar os festivais. 

Como? Com o Pedro Ramos da Radar ou outro dos meus colaboradores a dizer: "Ouve isto, tens de conseguir este músico." Toda esta informação é fundamental para o sucesso da empresa de música. As coisas estão ligadas. Têm de fazer sentido.

Como é que se programa um festival? Hoje, os artistas estoiram todos ao mesmo tempo e todos querem ter os mesmos. Na Europa existem 620 festivais de verão, e só há oito fins de semana. É uma disputa duríssima. Como é que consigo disputar mercados tão competitivos como Alemanha, França, Inglaterra? Só pagando cachês mais altos. Pagamos tanto para certas bandas virem tocar a Portugal que elas podem ir dar um concerto a Espanha por um cachê muito mais baixo.

Mas como é que faz o alinhamento? São anos e anos de trabalho a construir relações de confiança com os agentes. Tem de haver nomes que toda a gente conhece e nomes novos. Em primeiro lugar, é fundamental gostar muito de música, ler revistas, ver críticas, estar atento a toda a informação. Antes de se apostar num músico é preciso vê-lo atuar ao vivo. Todos os anos vou ao South by Southwest, nos Estados Unidos, que é a grande montra do que se faz de novo, e também ao Coachella, que é um dos maiores festivais americanos e é absolutamente incrível! Há sempre coisas fantásticas a acontecerem.

Em Portugal há uma oferta de festivais enorme, e a especialização também é maior. Por exemplo, um Delta Tejo é focado em sons dos países exportadores de café, um Sumol Summer Fest em bandas que têm a ver com o espírito de praia e do surf, é um público mais jovem... Quem determina o desenho de um festival, o promotor ou o patrocinador? Nunca se consumiu tanta música como hoje e nunca se venderam tão poucos discos. Toda a gente saca música da Net, e o orçamento que existia para a aquisição de CD agora é gasto em música ao vivo. A questão dos downloads gratuitos quebrou uma receita grande nos lucros que os artistas recebiam com os discos, e isso obrigou-os a tocar mais. E o que aconteceu foi começar a haver uma grande oferta da parte dos artistas para tocar e de público para os ouvir ao vivo. Isto gera patrocínios. Sobretudo na imagem dos artistas ligados a determinadas marcas. Antigamente, fazia-se uma campanha de televisão e estava feito. Agora é impensável a indústria da música viver sem marcas. O consumidor tem de tocar nos produtos, tem de os conhecer, criar empatia de forma agradável... Somos nós, programadores, que temos de conciliar os interesses. A música é um veículo muito forte.

O que é que a música consegue? Emocionar. O negócio da música é um negócio de emoções. Enquanto no futebol há uma equipa que ganha e uma que perde, na música está tudo virado para o mesmo lado. As pessoas gritam, emocionam-se, choram, é uma coisa impressionante... 

Chora a ouvir música? Choro. Quando ouço a Mariza cantar 'Gente da Minha Terra' choro sempre. É inexplicável.

O que anda a ouvir? Agora ando apaixonado por um tipo chamado Mayer Hawthorne. Fez um disco fantástico! É raro haver um disco que seja todo bom, não me canso de o ouvir. Já comprei vários para oferecer. Procura na secretária, dentro de um armário. Vou pôr baixinho. Este tipo é incrível. 

Faz parte de algum cartaz deste Verão? Vem ao Super Bock Super Rock. É uma espécie de Amy Winehouse em masculino, sem toda a encenação da drogaria.

Quantas pessoas passaram pelos festivais no ano passado? Não falo de números... 

Assiste a todos os seus concertos? Praticamente todos. Gosto de estar presente.

A Música no Coração existe desde 1991. O primeiro concerto que organizou foi o da brasileira Marisa Monte, e desde então, pela sua mão, vieram a Portugal quase todos os grandes nomes da música. Tem sete festivais, oito estações de rádio. Em menos de 20 anos conquistou um vasto território. (Encolhe os ombros). As coisas vão crescendo. O facto de trabalhar com mercados como os Estados Unidos e Inglaterra obriga-me a um enorme rigor. As agências destes países são bastante exigentes, somos avaliados pela capacidade de produção, e isso obriga-nos a ter um nível de profissionalismo igual ao desses países e gente capaz a trabalhar. Estou a falar de tudo, das luzes ao som, passando pelo catering.

É possível pôr os seus cartazes num circuito internacional? É a minha esperança. Começa a acontecer e, nesse sentido, a Internet é um aliado fantástico. Neste momento estou a investir fortemente nas redes sociais. Tenho pessoas só dedicadas a alimentar o Facebook. É uma coisa viral.

Qual é a afluência de estrangeiros? Será 13 por cento, grande parte no Sudoeste. A maioria são espanhóis... 

Foi uma estratégia? Também. A minha formação é em engenharia, portanto, em vez de pensar no mundo, começo por pensar aqui ao lado. A questão é que os espanhóis gostam muito de música espanhola, não consomem tanta música internacional como nós. Uma das coisas que tenho em atenção, por exemplo, é trazer sempre bandas de que eles gostam. Carlinhos Brown, que este ano vai estar no Delta Tejo, é um nome muito forte naquele país. Já tive Manu Chao. No ano passado fiz uma noite dedicada a Barcelona. Bem, já estou a dar trunfos à concorrência.

Sempre cauteloso... Não gosto de ir para fora de pé. 

Chegou a organizar o Super Rock em Madrid... E correu bem. Mas tenho um trato verbal com os produtores espanhóis: eles não fazem cá e eu não faço lá.

Funciona? São anos e anos de trabalho. É preciso conhecer bem as pessoas e ter palavra. Mas claro que a minha meta é que os espanhóis venham aqui aos meus festivais, sem ter de ir para lá fazer muito barulho. (Recebe uma mensagem. "Yes!", exclama. Faz vários telefonemas aos colegas da rádio. Diz: "É uma americana maravilhosa que vi atuar em Austin, no Texas, a tocar numa igreja. Chama-se Holly Miranda e andava atrás dela. É uma coisa brutal. Esta miúda vai ser enorme. Ainda há de encher o Coliseu." Recosta-se na cadeira com uma cara sorridente. "Ganhei o dia!") 

Parece outro. É isto que me dá gozo, descobrir uma coisa que ninguém conhece e apostar. Pegar e fazer acontecer. O resto é para manter. Trazer os U2 pode ser porreiro, Jamiroquai é cabeça de cartaz, fará um bom concerto, trará seguramente pessoas ao festival, mas dar a conhecer the very best é outra coisa! Claro que ninguém vai ao Super Bock Super Rock para ouvir Holly Miranda, mas podem passar pelo palco, parar... "O que é aquilo?", e o nome fica. Se o público gostar, pode-se tentar Aula Magna, depois Coliseu e quem sabe até Atlântico. É preciso ver em perspetiva, olhar sempre à frente. Com o Ben Harper, por exemplo, foi assim.

É isso que o faz mover? Sem dúvida. Às vezes, vejo pessoas entrar aqui para o prédio e penso: "Aquele é um ouvinte da Oxigénio, aquele é da Marginal..." Ver as coisas acontecerem é fantástico. Quando, em 1997, resolvi fazer o Sudoeste na Zambujeira do Mar toda a gente dizia: "És doido. Quem é que vai de Lisboa para ali?" Não havia água, luz... Nada! 

O primeiro espetáculo que organizou foi o concerto dos Xutos & Pontapés no Pavilhão do Belenenses, tinha pouco mais de 20 anos. Como é que isso aconteceu? Quando fui trabalhar para a Rádio Comercial, na altura ainda estava no Técnico a estudar engenharia, conheci os Xutos e fiquei fã. Só os passavam na rádio de madrugada, e eu muitas vezes ligava do meu telefone para o top da Rádio Cidade para fazerem parte da tabela dos mais pedidos. Chegava a ligar aos meus colegas da concorrência para passarem Xutos. Às tantas, fizemos um trabalho tão grande de divulgação que começaram a tocar em todo o lado. Para me agradecer, os Xutos convidaram-me para os acompanhar quando andavam em tournée. Eu era bom em matemática, ajudava-os a organizar a vida. Fazia os contratos, os recebimentos... O Victor Silva, o manager, convidou-me para fazermos o concerto de Lisboa, no Estádio do Restelo, e como eu tinha conseguido juntar algum dinheiro na tournée, pedi mais algum emprestado à minha mãe e arrisquei. Era um risco calculado. Passava Xutos na rádio, sabia a força com que estavam.

E logo a seguir faz o seu primeiro concerto internacional, Lloyde Cole and the Commotions, no Dramático de Cascais. Quantos anos tinha? 23. Ninguém vinha a Portugal naquela altura, não estávamos no mapa. Eu tinha a certeza que toda a gente queria ver Lloyd Cole, senti que era o momento. Mas era um miúdo, não tinha credibilidade para ir a Inglaterra contratar um artista com aquela dimensão. Fui ter com o Ricardo Casimiro da Tournée, disse-lhe que pagava, e ele propôs dividir os lucros. Ele estava com algumas dificuldade, e eu tinha ganho dinheiro com os Xutos. Pusemos o Dramático a abarrotar e tripliquei o que já tinha ganho. 

Cresceu em Luanda, o seu pai já era empresário da música em Angola... Herdei isto do meu pai. Ele organizava os maiores espetáculos de Luanda e trabalhava na rádio. Quando fiz o Super Rock de Luanda, muita gente veio ter comigo a falar-me dele. Temos o mesmo nome. É um orgulho enorme.

Refere-se sempre à sua raiz angolana, apesar de ter saído de lá com 12 anos. Sinto-me mais angolano do que português no atrevimento que tenho. Não vejo pequenino. O meu pai nasceu em Malange, os meus tios nasceram todos lá. Quando vou a Luanda, tento sempre ir ao morro da Lua, caminho da Barra do Kuanza. A dimensão daquela paisagem abre-me a cabeça. 

Como foi a saída de Angola? Fomos dos últimos a vir embora. O meu pai acreditava que o futuro ia ser risonho, que ia ter uma volta. Mas começámos a não ir à escola, deixou de haver segurança, e tivemos de vir para Portugal. Só o meu pai ficou. Depois foi para o Brasil. Saímos de África com muitas dificuldades. Fomos com a minha mãe para o Fundão. Ela era professora e foi lá colocada.

Foi duro adaptar-se? Tinha de ser. Não havia alternativa. Fui da praia para a neve, e isso deu-me uma capacidade de adaptação enorme. Relaciono-me bem com qualquer pessoa, em qualquer lugar. A minha elasticidade vem daí. A primeira vez que trabalhei e ganhei um salário foi a apanhar cerejas no Fundão. Na altura, era uma vila muito pequenina, onde toda a gente se conhecia. Mas a sua adolescência não foi passada em Oeiras? Passado pouco tempo, a minha irmã mais velha veio estudar para Lisboa e, como uma menina não podia viver sozinha, a família acompanhou-a.

Foi um regresso "à vida de praia"? Quando fomos para o Fundão chamavam-me retornado, em Oeiras era o bimbo do Fundão e quando fui para o Técnico passei a ser o menino da Linha...

O que lhe pesou mais? Talvez "retornado" fosse o mais pejorativo. Quando morava na Linha, como não vivíamos desafogadamente e não tinha massa para andar a passear namoradas na mota, havia duas coisas que podia fazer e não me custavam dinheiro: ouvir rádio e estudar. E tive tão boas notas que fui parar ao Técnico. 

Portanto, não era um menino da Linha. Mas tinha um grupo fantástico, que era o grupo dos escuteiros. Foi uma escola de vida e de liderança muito importante Era o guia da patrulha. Havia muito contacto com a natureza, fazíamos muitos acampamentos. Éramos um grupo de malta muito saudável. Quando vim para o Técnico perdi o contacto com os escuteiros. Nessa altura, aluguei um quarto em Lisboa, na Defensores de Chaves. Com o dinheiro que ganhei no concerto do Lloyd Cole comprei a minha primeira casa em Alfama, no Beco da Formosa. Era um sítio lindo.

Fala bastante de dinheiro... É importante? Não ligo muito. Quando era administrador da Media Capital tinha um bom ordenado e vim-me embora.

Foi-se embora, em 2003, porque teve a oportunidade de começar a construir as suas rádios. Não foi só isso. Também não estava satisfeito com o projeto que estava a fazer.

As rádios sempre foram uma ideia fixa? Gosto de fazer coisas. Entre as rádios e as empresas, pago cerca de 116 salários. Tenho um orgulho enorme nisso. As rádios também foram por questão de estratégia. Quando comecei a organizar festivais, tinha de fazer uma série de concertos com bandas que não são conhecidas. A coisa funciona assim: se queremos cabeças de cartaz temos de levar no pacote com os músicos que estão a começar e ninguém conhece. As rádios grandes não tocam esses nomes. Eu era promotor e tinha de os promover. Como é que fazia?

É assim que funciona: para conseguir uns tem de se trazer outros no pacote? Também é assim. Um agente tem 200 bandas. Se nós queremos os cabeças de cartaz, ele tenta impingir os que estão a começar. Faz parte da negociação? Temos de aceitar algumas sugestões...

Criou o seu nicho de rádios para poder promover os músicos mais alternativos? A primeira rádio que comprei foi a Radar, que toca rock alternativo. A Oxigénio é uma rádio de música eletrónica, porque entretanto começou a haver uma grande produção de música eletrónica, os dj têm imenso público, eu tenho palcos de eletrónica e tinha de acompanhar. Depois apareceu a Marginal, que tem a ver com o público do Smooth Jazz e do Cool Jazz Fest... As coisas têm de estar arrumadas.

Disse que o dinheiro que ganhou nos concertos foi para investir nas rádios. Os concertos correram bem. O que é que eu havia de fazer ao dinheiro? Comprar ações, Ferraris, barcos? Isso não me diz rigorosamente nada. Tenho sempre a mesma marca de carro: Volkswagen Golf. Já vou no quinto. 

Não é de luxos? O meu luxo são as rádios. Estou a falar na compra. Porque depois é preciso rentabilizá-las. Neste momento estão positivas. A Capital é a que tem mais dificuldades. Tinha um passivo muito grande.

As outras são rentáveis? São. Consigo ter uma economia de escala muito grande. O mesmo engenheiro eletrotécnico funciona para todas as estações. Todas as empresas estão concentradas no mesmo prédio. É uma grande otimização de recursos. 

A última aposta foi a Rádio Amália. Não existia ainda nenhuma estação de fado. Isso encheu-me de alegria. Aqui no prédio é a que tem maior audiência. A ideia era recuperar o espírito da rádio dos anos 50, dos cantores da rádio, com um palco para música ao vivo. À noite temos dois guitarristas, e são os ouvintes que vêm cantar. Não faz ideia o que é que isto é! Deixam os carros em quatro piscas na rua e vêm para aqui: é taxistas, médicos, farmacêuticos... Temos pessoas em lista de espera até junho. Uma loucura!

Não lhe interessam as rádios de informação? É muito dispendioso.

 

Tentou comprar a TSF. Ainda tem essa ambição? Sou muito determinado. É incompreensível que em Portugal não haja nenhum empresário português que tenha uma estação de rádio nacional. Existem seis. Três são do Estado, outra é da Igreja e a outra dos espanhóis. É normal poder sonhar com isso. Mas não sou obcecado.

Quando foi a questão das escutas, falavam no seu nome associado à Media Capital. Isso nem merece comentário, nunca falaram comigo. São todos uns grandes estrategas! Ao longo da minha vida já me apareceram dezenas de negócios fabulosos, ou ditos fabulosos... Não acredito em nada que não tenha trabalho. Oferecerem-me uma rádio parece-me uma coisa tão patética! 

Não era uma oferta, era uma oportunidade de negócio. Que nem teria muito interesse. Tudo rádios deficitárias, cheias de passivo.

Nestes casos, ser genro de Cavaco Silva é um constrangimento? Do ponto de vista dos negócios, sim. Evito trabalhar para o Estado, e seria um cliente bom para mim.

Nunca trabalhou? Durante os mandatos do meu sogro não.Recebe propostas? Às vezes. Trabalho muito bem com câmaras PS e CDU. Mas evito. Há tanto trabalho para fazer, porque é que hei de trabalhar com o Estado? Eu não faço política e o meu sogro não faz concertos.

Conta-lhe dos seus negócios? Falam sobre música? Ele é atento. Ouve a Rádio Amália e a Marginal. Lê os artigos que me dizem respeito. Para mim, é uma referência no sentido de ser um bom marido, um bom pai... É um bom homem. Acho que é um privilégio Portugal ter uma pessoa que dedique a vida como ele dedicou ao país. É uma vocação, e admiro-o por isso. Eu não teria paciência! Mas cada um na sua praia, vivemos bem assim. 

Esteve inscrito num partido? Nenhum.

Vota? Claro. Mas em quem quero, ninguém me faz a cabeça. 

Nas últimas eleições, em quem votou? (risos)Em Lisboa, votei Costa.

O seu percurso teria sido exatamente o mesmo se não fosse genro de Cavaco Silva? Não sei. Só posso fazer o que faço porque tenho uma mulher fantástica que me ajuda. A minha família é o meu equilíbrio. 

Acompanha o trabalho da sua mulher? Ela é investigadora, dá aulas e faz trabalho de laboratório. Partilhamos as preocupações e as vitórias. É uma bênção poder ter ao meu lado uma pessoa que me ajude a construir tudo isto. Não é fácil. É uma aventura muito grande, e eu nunca posso falhar. Tenho de ter sempre tudo em dia. Tudo. Nunca me posso atrasar, não posso ter uma multa, sou muito mais auditado do que qualquer dos meus colegas. Tenho a noção de que gasto mais em segurança do que a minha concorrência, porque nos meus eventos nada pode acontecer. Se acontecer, não é a Música no Coração que tem a responsabilidade, é o genro do Cavaco Silva. Tenho de comunicar de uma forma clara e transparente.

Tem quatro filhos... Uma família grande dá-lhe conforto? Muito. Somos cinco irmãos. Eu sou o do meio. Os meus pais faleceram com uma diferença de tempo muito pequena, e nem consigo imaginar o que teria sido sem os meus irmãos. Sou muito de família. Acho que é uma bênção. 

Ficou espantado por Cavaco Silva ter promulgado a lei do casamento dos homossexuais? Tinham falado sobre isso? A lei iria ser aprovada de qualquer maneira. Não discuto essas decisões com ele. O Parlamento decidiu, e acho que tem de se respeitar essa decisão. Não fiquei espantado, contava com isso. Ele é um democrata.

E o que pensa disso? Eu sou pelo amor. O mais importante é que as pessoas que se amam estejam juntas, e já agora legalmente, se lhes interessar.

Como educa os seus filhos? O que é para eles serem os netos do Presidente da República? Os mais velhos estão habituados, cresceram com isso. No colégio fazem perguntas, mas tentamos educá-los da forma mais natural possível. Não exacerbamos essa história. Evitamos a exposição. Não vamos a muita coisa, só o estritamente necessário.

Vão aos festivais? Começam a ir. Todos gostam de música.

Deixou-os ir ao Rock in Rio? E ainda por cima foi eu que lhes mostrei John Mayer! (Um dos nomes fortes deste ano da programação da concorrência)

Em que sentido um festival de música pode ser representativo do que é hoje a cultura juvenil? Talvez no sentido em que está muito ligado à ideia de liberdade. Não há pais, não há professores, não há patrões, cada um veste o que quer, ouve o que lhe apetece... Vivemos o ano inteiro com regras e objetivos, chega uma altura em que estamos fartos!

É capaz de dormir numa tenda? Já dormi muitas vezes. Ter sido escuteiro foi muito importante, porque sabia exatamente do que um campista gostava. Quando contrato um funcionário para a rádio, pergunto-lhe se já foi a um festival. Se me responder que não, não entra.É um critério? É. Faz parte do currículo para quem queira trabalhar numa empresa da música. Repare, há imensos jovens que querem vir trabalhar para aqui. É um sonho. Se lhes pergunto: "E festivais?" e respondem: "Ai, não! Chuveiros, tendas e tal...", percebo logo que é uma pessoa que dá prioridade ao conforto. Os meus eventos são ao ar livre, na terra, no pó. Se eu não tiver capacidade para lá estar, como é que vou organizar? Se uma pessoa está bem num sítio adverso, consegue estar bem em qualquer lugar.