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"Entre nós as quatro há alquimia pura"

Na altura em que "Sexo e a Cidade" volta aos cinemas, uma das protagonistas, Sarah Jesssica Parker, fala ao Expresso do novo filme, da série de TV, da relação com as outras três co-protagonistas e de si própria. Clique para visitar o canal Life & Style 

Rui Henriques Coimbra, correspondente em LA

Por vezes, parece que se mantém periclitante não só em cima daqueles saltos altos mas, sobretudo, no topo faiscante de uma vida crocante que não pára de a surpreender e alegrar. A estreia da segunda sequela cinematográfica da série "Sexo e a Cidade" (nos cinemas desde quinta-feira), de que ela é uma das protagonistas, foi o pretexto para uma conversa do Expresso com Sarah Jessica Parker, que atrás das câmaras faz o papel de Carrie Bradshaw.

"Sexo e a Cidade" é um fenómeno, não só por se ter transformado em material de tese universitária nas questões do feminismo como pelo êxito junto do público e o diálogo que estabelece entre a mulher e o seu papel na sociedade. À medida que o tempo passa, que perspectiva ganhou sobre estes temas?

Falsas modéstias à parte, direi que, quando me encontrei com o criador da série, Darren Star, num restaurantezinho da East Village, em Nova Iorque, não fazia a mínima ideia que a vida dessa ideia iria passar-se desta maneira. Ainda hoje não sei bem se me cabe a mim falar sobre o significado global do "Sexo e a Cidade". São as pessoas que irão dizer, agora que estreia o segundo filme, se o diálogo pode continuar. O que lhe posso garantir é que o sucesso tem, desde logo, a ver com a maneira como a série e os filmes são escritos. É um pouco como quando pegamos num livro. Sabemos que é bom quando damos connosco a querer saber como é que a história continua. Mas, do ponto de vista profissional, sim, é mesmo um privilégio e uma honra fazer parte desta conversa que se estabeleceu entre a mulher e o mundo em que ela vive. Neste novo filme, por exemplo, continuamos a explorar o papel que lhe cabe dentro das regras tradicionais do casamento. Não é por acaso que a história, desta vez, se passa no Médio Oriente. É uma cultura antiga e importante, com regras definidas, onde a mulher tem de saber navegar entre o respeito que sente por ela mesma e as normas sociais em que está inserida. Ir filmar a Marrocos ajudou-nos a compreender isso tudo.

E a sua Carrie Bradshaw, sente inveja da personalidade dela?

Ou, pelo menos, de alguma peça do guarda-roupa que tenha exibido com o seu estilo inconfundível? Sinto uma inveja louca do tempo que a Carrie passa com as amigas. É essa uma das grandes fantasias que temos à nossa disposição, isto de imaginar que uma mulher pode ter, realmente, tempo para tratar de tudo e, ainda por cima, passar horas, dias, com as amigas. Em relação às roupas, tem sido quase embaraçoso ter tanto por onde escolher. É quase tudo emprestado. Os costureiros sabem que, se nos dão algo para as mãos, poucos dias depois devolvemos em bom estado, porque, claro, vamos querer pedir outras coisas. Não sei se já reparou que, nas entregas de prémios que se fazem hoje em dia, o talento e os vencedores passaram quase para segundo plano. As grandes atracções parecem ser as mulheres e a maneira como caminham no tapete vermelho.

Como actriz, mas também como ícone da moda, acha que há desvantagens em sobrevalorizar a roupa?

Não sou pessoa para dar grande importância a tudo aquilo que se diz ou escreve sobre o assunto. O que fazemos é trabalhar. Concretizamos o que nos é pedido. A verdade não deixa de ser bastante simples: numa entrega de prémios, é importante que nos apresentemos bem. É um momento de respeito, que tem de ser visto como tal. Seria fantástico que, nos Estados Unidos, o ênfase fosse colocado no raciocínio crítico e houvesse menos bisbilhotice ou menos importância dada às decisões que tomamos quando temos de escolher uma peça de roupa para aparecer em público.

No novo filme aparece também como produtora. Além disto, continua a viver com o actor Matthew Broderick e foi recentemente mãe. Como é que consegue ter esse ar tão prazenteiro e solto apesar de tudo aquilo que faz todos os dias?

Aquilo que faço é aquilo que qualquer mãe trabalhadora faz diariamente. Eu ainda vou tendo vários apoios. Mas, no meu caso, como no de muitas outras mulheres, a recompensa é sempre diminuta comparada com o investimento que fazem.

Mas, no fim de um dia longo de trabalho, é o sucesso que serve de recompensa?

Mas será que sou mesmo uma mulher de sucesso? Não sei se posso afirmar tal coisa, ou, sequer, se isso é assim tão importante. O que lhe posso dizer é que me sinto muito feliz por ser mãe. Venho de uma família numerosa, com oito filhos. Adoro o ambiente típico de uma casa cheia e caótica. De momento, sinto que o meu papel deve ser mais de mãe que de esposa. Sim, continuo a trabalhar, mas só porque acho que isso me aperfeiçoa como mãe. Gosto muito de sair porta fora de encontro ao que nos rodeia, aprender e passar por alguns desses momentos na companhia do meu filho mais velho. Às vezes, ele vem comigo, quando estou em filmagens, e absorve muita informação enquanto vê coisas novas e trava conhecimento com gente extraordinária. Já lhe foi possível falar com pessoas oriundas de todo o tipo de culturas, hábitos, crenças, gente gorda e gente magra, gente nova e gente menos nova, gente de todas as cores, formas e feitios. Com as minhas filhas vai ser a mesma coisa. Vão poder ver, graças ao trabalho que faço, a vida de outras meninas e de outras mulheres. É bom que assim seja, porque o mundo está cada vez mais pequeno. Mas é claro que há dias em que nem tudo corre bem e em que a minha suposta perfeição fica desmascarada. Vou arriscar e dizer que a situação é idêntica à de muitas mulheres que são mães e, paralelamente, têm um emprego que lhes exige muita atenção.

Há algum tempo tinha-me dito que a presença dos média na sua vida, a actuação dos paparazzi, lhe causava uma certa frustração. Como vão as coisas neste aspecto? E como é que os seus filhos reagem a esse escrutínio diário?

Infelizmente, a situação piorou. Agora, logo de manhã, quando tenho de levar o miúdo à escola, há já 30 fotógrafos à frente da minha casa. As crianças não podem servir de carne para canhão. Por vezes, até dou comigo a dizer coisas que não devo. O pior é a hostilidade que uma pessoa sente, e as provocações que nos fazem quando vamos com as crianças pela mão, eles sempre de câmara na mão, na esperança de que digamos algo menos bem educado ou que a nossa reacção não seja verbal mas, até, física. Não quero estar a queixar-me como se a minha vida fosse um inferno. Mas vamos lá pensar: eu, como actriz, tenho o dever de sair para o mundo e observar como é que ele funciona. Adoraria poder sentar-me na soleira de uma porta a ver como é que as pessoas caminham pela rua fora; poder escutar um sotaque diferente num café ao ar livre; poder observar alguém a roer as unhas. Não há nada que me agrade mais do que ir, por exemplo, às compras. Ou andar de metro. Ou ir de transportes públicos para aqui e para ali. Ora bem, tudo isto me está vedado. Há muita vida que não me é acessível e, por isso, como é que vou fazer? Não posso viver apenas numa bolha que não tem nada a ver com a vida real, até porque, na minha profissão, é suposto eu encarnar pessoas a sério. Como é que, sendo esta a situação, vou interpretar uma personagem? Por vezes, penso que, nas questões dos fotógrafos, o que se passa é simplesmente isto: não me deixam ter uma verdadeira sensação de que estou a viver.

Há já 13 anos que colabora com estas três mulheres. A que atribui o sucesso desta colaboração? Antes de mais nada, devo dizer que esta experiência foi única, porque, antes, nunca tínhamos vivido juntas. Desta vez foi diferente, porque viajámos juntas ao estrangeiro, para trabalhar em conjunto. Vivemos juntas, dormimos juntas, tomámos as refeições na mesma mesa, trabalhávamos juntas todos os dias, vestíamo-nos e preparávamo-nos no mesmo compartimento, íamos fazer xixi juntas. Nunca tínhamos passado por nada assim. Foi essa colaboração constante, realmente, a melhor parte de fazer este último filme. No fim, senti por elas ainda mais respeito, mais admiração e uma necessidade crescente de as ter como parte integrante da minha vida. São pessoas muito especiais. Sem elas, estas histórias não seriam possíveis. É uma parceria que é alquimia pura.

Publicado na Revista Única de 5 de Junho de 2010