Siga-nos

Perfil

Expresso

Gente

"Conquistei o que queria sem saber o que queria..."

Uma mulher bonita e uma arma é sempre uma combinação fatal. Catarina Furtado é a protagonista da nova série policial da RTP1 e o seu desempenho já lhe valeu uma nomeação no Festival de Monte Carlo. Uma conversa dos palcos à vida privada

Entrevista de Bernardo Mendonça (www.expresso.pt)

Encontramo-nos no final de uma destas manhãs, no bar do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Cafés e águas regam a conversa. Aos 37 anos, Catarina continua tão sedutora como na TV. Usa o sorriso como arma. E até quando não responde a determinada pergunta sorri. Esquiva-se a questões sobre política, porque diz que uma embaixadora da Boa Vontade não tem cor partidária, "apenas cúmplices em todo o lado". Três horas de conversa num almoço light, composto por frango grelhado e salada, com uma gelatina de fruta para sobremesa. Determinada e mais confiante, ela fala das críticas negativas ao seu desempenho como actriz (actualmente protagoniza uma série policial na RTP1) com o mesmo desprendimento com que fala do título de mulher mais elegante de 2009. "Não dou importância. Sei como as coisas se processam. Trabalho na TV desde os 19 anos. São muitos anos a virar frangos."

Acaba de ser nomeada na categoria de Melhor Actriz, na 50.ª edição do Festival de Televisão de Monte Carlo, pelo seu desempenho como inspectora da Polícia Judiciária na série "Cidade Despida" (RTP1). Esta nomeação coloca-a no patamar de actores de séries internacionalmente conceituadas, como "Dexter", "Mad Man", "Perdidos"... Acha-se à altura? Não estava à espera. Mas fez-se justiça. Além de mim, foram nomeados os meus colegas Cristina Carvalhal, Pedro Laginha e Albano Jerónimo. Por ser um festival com enorme credibilidade e importância, vem confirmar a qualidade do trabalho de uma equipa que se empenhou e arriscou a fazer algo diferente, além do banal. Há nomeações que são como prémios. Que não haja dúvidas que a ficção portuguesa passou para outro patamar. Talvez esta novidade reponha alguma auto-estima ao país. No meu caso pessoal, dá-me ânimo para continuar. Mas não fico deslumbrada. Sei o que sou, onde estou e para onde quero ir.

Aparece com olheiras, sangue, arranhões, menos penteada, menos polida, menos estrela... Foi difícil abdicar da vaidade?

Não. Abdiquei desse meu lado mais glamouroso, que é conhecido publicamente, para poder dar uma dimensão mais humana e real à minha personagem. Menos produzida, menos inacessível. O que poderá ajudar as pessoas (se quiserem) a esquecerem-se que eu também faço outras coisas na vida.

Foi usada alguma dupla nas cenas perigosas?

Apenas em situações pontuais trabalhei com uma dupla, do grupo do mestre David Chan. Mas houve planos pensados para a dupla que acabaram por ser feitos por mim, porque não os achei arriscados. Refiro-me, por exemplo, a momentos em que me atiro violentamente contra o capô de um carro. Ou a uma cena de perseguição num armazém, onde fui arrastada pelos pés num chão imundo de terra e lama. Fiquei arranhada, encharcada, mas quis dar tudo, sentir no corpo o frio e o dramatismo da cena para a sentir verdadeira.

Acha que o público a consegue descolar da imagem de super-estrela do entretenimento?

Esse é um exercício acrescentado para quem vê a série "Cidade Despida". É necessário disponibilidade para se ver além de uma certa imagem criada sobre mim. À minha frente vai sempre a imagem da apresentadora. É algo que eu carrego comigo e que me exige duas vezes mais esforço do que a outro actor. Mas só se distancia disso quem quer.

O crítico de televisão do "Público" Jorge Mourinha, a propósito da exibição do primeiro episódio da série, referiu-se a si como "um erro de casting, que mais parecia estar a explicar a mecânica de um concurso do que a interrogar suspeitos, afectando imediatamente a credibilidade da série". Como vê esta crítica?

Evidentemente que não concordo. Felizmente, estamos num país em que se pode escrever tudo com liberdade nos meios de comunicação social. Não tenho qualquer problema com isso. Porém, acho injusto que os comentários acabem por recair no produto total e numa equipa que tanto se empenhou. E, sinceramente, não acredito nada que, pelo facto de um crítico escrever o que quer que seja, passe a haver menos ou mais espectadores a gostar de uma série ou de um filme. Pode escrever o que lhe digo: esta série ainda vai ganhar muitos prémios lá fora.

Está mesmo convencida que a crítica de um jornalista sobre determinada obra de ficção não tem peso sobre a opinião pública?

Estou. As pessoas têm a sua opinião feita. E devem mantê-la. Não devem ser vulneráveis às críticas dos outros. Os críticos fazem o seu papel, que é porem os outros a pensar. Mas não acredito minimamente que tenham um poder.

Na imprensa internacional, há críticas de cinema e de televisão que ajudam a lançar carreiras de artistas e outras que as destroem ou que, pelo menos, fazem grandes mossas.

Claro que existem críticos lá fora com um enorme poder. Mas cá em Portugal (baixa a voz)... não (risos). É uma constatação.

Não acredito que estas críticas negativas não belisquem a sua segurança e auto-estima.

Mexem comigo, sim. Mas não lhes dou importância, acho-as injustas. E pode ter a certeza que reverto essas críticas em força.

Essa é uma resposta muito certinha.

Falo a sério. Eu respondo a essas críticas injustas com trabalho. Continuarei o combate. Vamos ver quem é que fica cá para contar a história depois da peneira.

Não tem medo de falhar?

Não tenho nada a perder. Quero fazer mais séries e filmes, testar-me, perceber até onde posso ir. Estou quase com 40 anos. As críticas vão-me fazer o quê? Vou pensar: "Ai, meu Deus! Não posso fazer isto ou aquilo porque vão dizer que o que eu sou é apresentadora." Não! Sou actriz, para todos os efeitos.

Começa a dizer isso com mais convicção e segurança. Acha que tem evoluído enquanto actriz?

Tenho evoluído imenso. Nos últimos anos, subi várias vezes aos palcos do teatro, o que é importante, porque isso constitui a base e a formação para qualquer actor. Hoje, sinto o respeito dos meus colegas actores.

Sempre sentiu isso?

No início, não.

O que é ter talento?

É uma massa abstracta. É ser-se convincente, carismático, apelativo e ter-se uma luz e energia qualquer que se projecte para os outros.

Encontra um pouco disso tudo em si?

Acho que sou carismática. Para algumas pessoas terei um pouco disso tudo, para outras não.

Nunca a criticaram tanto enquanto apresentadora como a criticam pelos seus desempenhos na representação.

Também já recebi críticas à minha forma de apresentar. A verdade é que não é fácil, num país tão pequeno como o nosso, ter o tipo de carreira que eu tenho: diversificada. É como se não fosse possível.

Mas é possível fazer-se bem tudo?

Ser apresentadora, actriz, entrevistadora, documentarista? Para se atingir um nível de qualidade profissional, não é necessário fazerem-se escolhas na vida? Não concordo com a ideia de que não se pode ser bom em várias áreas. Não falando de mim, há inúmeros exemplos de pessoas lá fora, nomeadamente no meio artístico americano e inglês, que fazem tudo e bem. Coisas que eu um dia gostaria de vir a fazer. Falo de apresentadores como a Ellen DeGeneres, que têm talk-shows onde representam, cantam, dançam, fazem documentários e são ainda júris em concursos.

Mas para representar bem não é preciso tempo, dedicação, exclusividade? Claro que sim. É evidente que, pelo facto de estar há tantos anos em antena a apresentar programas na SIC e na RTP, tenho tido menos tempo para a representação. E, por vezes, a carreira de actriz ficou um bocadinho para trás.

Exacto...

Que não haja dúvidas que levo a representação muito a sério e que sou muito criteriosa. Quando represento, entrego-me por completo. Sou muito empenhada, dedicada, perfeccionista. Nesta série concentrei-me na minha personagem 14 horas por dia durante dois meses. Chegava a casa, contava uma história aos meus filhos Maria Beatriz, de 4 anos, e João Maria, de 2 anos e meio e ia dormir. Pedi inclusive à RTP para não me chamar para mais programa nenhum durante este período. Mas sabe o que acho? Se eu tivesse começado a carreira na representação e mais tarde tivesse ingressado na apresentação, se calhar os preconceitos eram menores. Há tantos exemplos assim. Ninguém questiona se a Alexandra Lencastre é convincente a representar, pois não? Porém, além de ela ser uma grande actriz, já apresentou inúmeros programas na TV. Mas a vida é tão curtinha que não me importo que o verbo "convencer" seja aquele que mais se aplica a mim.

Não se arrepende de certas escolhas na sua carreira, como "Pesadelo Cor-de-Rosa", que foi tão fustigado pela crítica?

Não. Claro que recusaria voltar a fazê-lo agora. Mas naquele momento da minha vida fez sentido. Foi aí que conheci o Diogo Infante, com quem contracenei. Mais do que um amigo, ganhei um irmão para o resto da vida. Apesar de nos termos cruzado naquele filme estranho, o Diogo percebeu logo que eu tinha qualidades como actriz. Foi das primeiras pessoas que me disse: "Tens de continuar." E, de facto, para eu continuar a dizer e a sentir que sou actriz tenho de experimentar, arriscar...

Estreou-se nestas andanças ainda adolescente, num filme de Manoel de Oliveira, "Non ou a Vã Glória de Mandar" (1990).

Sim, aparecia a dar uvas ao Vasco da Gama Paulo Matos. Eu estava no último ano do Conservatório de Dança, no Bairro Alto, e um dos produtores do filme cruzou-se comigo e achou que eu tinha ar de ninfa (risos). Nas filmagens, as ninfas foram divididas em dois grupos. De um lado ficaram aquelas que aceitavam ser ninfas ao léu e do outro ficaram as outras. Eu estava do lado das outras.

Essa é uma questão interessante. Nunca até hoje participou em nenhuma cena de nudez, seja em teatro, televisão ou cinema. Chegou mesmo a recusar o papel de protagonista no filme "Tentação" (1997), de Joaquim Leitão, porque tinha de aparecer despida em determinada cena.

Pois é. O Joaquim Leitão e o produtor Tino Navarro nunca mais gostaram de mim (risos). Quando o Tino me convidou, eu estava em Nova Iorque. Ele não parava de me ligar, para me convencer a aceitar, porque gostaram da minha actuação no casting. Mas eu insistia que não, só se cortassem a dita cena. Acabaram por me substituir pela Cristina Câmara, que é hoje a mulher do Tino Navarro. Portanto, eu sou uma generosa, porque os juntei. Que sejam felizes (risos).

Não o fez por pudor?

Juro que não. Eu estudei no Conservatório, um espaço onde nos apalpamos uns aos outros, rapazes e raparigas despem-se à frente uns dos outros. Não tenho qualquer pudor com o meu corpo. Agora, ponham-se no meu lugar. Eu tinha acabado de fazer o "Chuva de Estrelas", se aparecesse logo num filme a fazer uma cena de nu, quem é que se iria dar ao trabalho de considerar se tinha feito um bom trabalho ou se era boa actriz? Provavelmente, lembrar-se-iam apenas da apresentadora que tinha aparecido com as maminhas ao léu. E eu respeito muito o meu trabalho.

A Cristina Câmara ganhou um Globo de Ouro com esse papel.

Pois, não sei (pausa). Eu não tive dúvidas. Faz-me confusão a forma como algumas mulheres se projectam.

Tem esse discurso por viver em Portugal?

Nos filmes americanos, a nudez não tem esse peso. Se eu fosse uma actriz americana, se calhar não teria de estar a dizer constantemente às pessoas que quero trabalhar a sério como actriz. Lá fora é tudo visto de uma maneira tão natural que, provavelmente, aceitaria fazer determinadas cenas de nu, se justificadas. Mas estou em Portugal e conheço bem a forma de pensar dos portugueses.

Chegou a dizer que a dança foi o seu único verdadeiro sonho.

Foi a única carreira que projectei para o meu futuro. Na minha adolescência queria ser bailarina e coreógrafa e estudei para isso. Esse sonho acabou no dia em que tive um acidente no ensaio geral da minha coreografia. Caí em cima do cenário e fiz um traumatismo lombar. E, nessa noite, sedada com anestésicos, tive de ensinar a uma das minhas melhores amigas os movimentos que eu iria dançar. Foi uma lição de vida duríssima e vital. Lembro-me que as lágrimas escorriam-me da cara por irritação e raiva enquanto lhe passava os movimentos. Percebi que tudo é volátil e passageiro. Somos completamente substituíveis (pausa). Mas acredito que com o meu trajecto posso deixar alguma marca.

Formou-se no Cenjor e experimentou fugazmente o jornalismo, no Correio da Manhã Rádio. Acha que daria uma boa jornalista?

(Franze a cara) Agora acho que não. Mas quando comecei acho que sim. Aliás, no arranque da SIC, fui integrada na turma de jornalistas que fizeram formação para pivô de telejornal. Era a mais nova do naipe. Estava ao lado de figuras como José Alberto Carvalho Rodrigo Guedes de Carvalho, Alberta Marques Fernandes, Cláudia Borges, Conceição Lino, Júlia Pinheiro. Lembro-me perfeitamente que o formador Guibert, na época um dos grandes crânios do jornalismo francês, disse ao Rangel que devia apostar em mim enquanto jornalista. Felizmente, o Rangel não o ouviu, porque talvez eu não fosse tão feliz. E não nos esqueçamos que seria sempre a segunda da família, sendo filha de quem sou o jornalista Joaquim Furtado.

Pouco depois de se estrear na TV apresentou o concurso "Chuva de Estrelas", em 1993, com o qual atingiu o estatuto de estrela do entretenimento da SIC. O seu nome e a sua imagem passaram a ser uma marca. Como explica o fenómeno?

Em terra de cegos, quem tem olho é rei. Ou seja, no início dos anos 90 existiam poucas caras novas na televisão. Os grandes apresentadores eram o Carlos Cruz, o Fialho Gouveia, o Júlio Isidro. Não havia muitos mais. E eu fui uma das primeiras miúdas a aparecer frente às câmaras. Contou também o facto de o "Chuva" ser um formato novo em Portugal, uma grande produção, cheia de brilho, que veio tocar nos sonhos dos portugueses. Ainda hoje é o que está a dar na TV.

Aos 23 anos, quando começa a ser um caso sério de popularidade, decide abandonar tudo e partir para Londres, para estudar representação no London International School of Acting. O que é que lhe deu?

Quis sair daqui, estudar, testar-me, pôr-me à prova, ter medo, despir-me de uma certa imagem. Após tanta exposição, quis voltar a estar a sós comigo num sítio onde ninguém me conhecesse ou tivesse uma pré-imagem de mim. O que estava a fazer era pouco. Não queria ser a eterna menina do "Chuva de Estrelas".

Como recorda a experiência em Londres?

Foi duro. Estive sozinha durante três anos a estudar e a fazer testes e castings. Mal cheguei à escola comecei a fazer Shakespeare naquele inglês do Shakespeare... Hoje em dia, todas as actrizes portuguesas vão para Nova Iorque e para Londres fazer cursos curtinhos.

É verdade que acabou por se desvincular da SIC porque Emídio Rangel, ex-director de programas, se fartou das suas sucessivas negas às propostas de programas que ele lhe fazia?

De facto, o Rangel não estava muito contente comigo nem foi muito apologista da minha ida para Londres...

Porque é que saiu da SIC? Não se revia nos produtos que escolhiam para si?

Exacto. Foi por altura do "Catarina.com", quando o Manuel Fonseca estava na direcção de programas. Eu nunca quis o meu nome num programa. Não aguento. Muito mau.

Desde 2001 que é embaixadora do Fundo das Nações Unidas de Actividades para a População (FNUAP), cargo igual ao de Angelina Jolie. Aceitou logo o convite do ex-secretário das Nações Unidas Kofi Annan? Nem me passou pela cabeça recusar. Era uma oportunidade única. Passei a dar um sentido mais palpável, interessante e útil à condição de figura pública. Obrigou-me a estudar as situações económicas e sociais de outros países. Mais concretamente, a realidade dos países lusófonos perante os quais Portugal tem responsabilidades históricas.

Convenhamos que este cargo lhe dá estatuto, fica bem no currículo... Claro que este cargo (vitalício) me orgulha. Mas a mim interessa-me ver resultados, não me interessam promoções. Nem preciso delas. Estou há mais de 15 anos a fazer televisão em horário nobre. Recuso ser embaixadora apenas para andar com um crachá das Nações Unidas. Para quê? Não tenho passaporte diplomático, não tenho ordenado, apenas tenho voluntariado para dar. É lógico que fico contente por ter sido, por exemplo, convidada pelo actual secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a representar em Nova Iorque os embaixadores na Cimeira sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. A minha missão não consiste em andar a entregar pontualmente roupas ou biberões aos mais carenciados...

O que faz uma embaixadora?

Usa a voz como um altifalante. É a porta-voz de quem não tem voz. Não é fazer caridade. É criar estruturas e projectos que sejam auto-sustentados e que se prolonguem na vida. É partir para o terreno de países mais desfavorecidos e usar a força mediática para denunciar determinadas realidades e condições desumanas, em particular no que diz respeito às mulheres e às crianças. Quando vou à Guiné, São Tomé, Cabo Verde, Timor, Indonésia, Moçambique, vivo as emoções no local, coloco nos olhos a realidade que antes apenas lia e ouvia. E quando regresso tento ter a capacidade de comover tanto os directores de empresas como os portugueses para as minhas causas. Tem sido uma dura batalha, com o apoio cúmplice de Alice Frade, da Associação para o Planeamento da Família, e é necessário imensa imaginação para conseguir resultados positivos.

No ano passado, numa gala do "Dança Comigo" (RTP), reuniu 250 mil euros em chamadas de valor acrescentado. Para onde foi o dinheiro?

O dinheiro serviu para construir uma maternidade em Gabú e equipar o hospital de Mansoa, na Guiné, com ambulâncias, painéis solares, kits e formação de pessoal médico. A Guiné é um país que tem das maiores taxas de mortalidade materna e neonatal do mundo, e o povo português respondeu a este apelo de uma forma absolutamente comovente. Consegui envolver também o secretário de Estado José Gomes Cravinho, que através do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento se juntou ao projecto e deu outros 250 mil euros.

Nessas viagens deve assistir a realidades chocantes.

As condições dos hospitais e dos centros de saúde que visitei na Guiné eram deploráveis. Vi mulheres e bebés a morrer à minha frente e isso não vou esquecer nunca mais... (pausa) Outras davam à luz, eram cosidas a frio com uma linha e, logo em seguida, com o bebé às costas, tinham de carregar um balde com água da fonte para se lavarem. Ali, a dignidade humana é apenas imaginária. E eu tive de mostrar um bocadinho desse lado chocante nos documentários que realizei, sem revelar tudo, para que as pessoas se sensibilizassem e decidissem telefonar para ajudar. Eu sei que se não mostrar uma irmã da Caritas a chorar abraçada a bebés subnutridos o telefone não toca (pausa). Em breve regressarei à Guiné para realizar o terceiro documentário, "Dar a Vida sem Morrer", para a RTP, onde vou poder divulgar quantas mulheres e bebés não morreram por causa do contributo dos portugueses.

Não sente algum desconforto quando regressa ao conforto em que vive? Inevitavelmente. Por isso, sempre que volto, actuo de forma mais dura com os meus filhos. Mais brinquedos para quê? Eu também não tive tudo o que pedi na infância. E não fiquei traumatizada, porque tive o mais importante dos meus pais: mimo e confiança. A única coisa que espero dos meus filhos é que tenham a auto-estima bem regada. Porque, perante o estado das coisas, prevejo o piorzinho para o futuro deles.

No ano passado, os leitores da "Caras" consideraram-na a mulher mais elegante de Portugal. O que representa esse título para si?

(Pausa) O título é agradável, e sei que faço por isso. Tenho uma equipa fantástica que me trabalha a imagem desde o início da minha carreira: o estilista Nuno Baltazar, a maquilhadora Cristina Gomes e a cabeleireira Marina Cruz. Porém acredito, ou quero acreditar, que não é só pela minha aparência física que me consideram elegante, mas também pelo meu trabalho, percurso e atitude na vida. Agradeço à "Caras", mas devo dizer que recebo essas distinções como recebo as críticas negativas: valorizando q.b. e desvalorizando muito mais.

Aparece em público sempre impecavelmente maquilhada e vestida. Há quem diga que nunca desmancha "o boneco", a pose. Leva a sua imagem pública muito a sério?

Levo. É muito mais fascinante e divertido fazer televisão assim. Com glamour. O glamour deve existir nas nossas vidas. Qual é a graça de estarmos iguais a como eu estou agora aqui a dar esta entrevista?

Mas até agora está bem vestida e maquilhada!

Sou vaidosa desde que me conheço. Nunca saio de casa sem maquilhagem. Gosto de andar arranjada. As minhas amigas mais freaks do teatro costumam pedir-me vestidos emprestados para irem às festas. E eu aconselho-as sobre maquilhagem ou depilação. Mas já era assim antes de começar a fazer televisão. Sou um bocado "O Sexo e a Cidade". E a minha filha está a ir pelo mesmo caminho.

Como é quando chega a casa e tira a maquilhagem?

Troco a roupa por pantufas, calções, t-shirt e cabelo apanhado e sou mel e boa disposição. São momentos feitos de abraços, beijos e toques.

Com dois filhos tão pequenos, não tem momentos de stresse em que perde a cabeça? Uma papa que é derramada no chão...

Claro. Apesar de ter uma paciência elástica. O que mais me enerva é o tempo que levam a comer. Como tenho a vida muito bem organizada e o tempo contado, tenho de insistir com eles e ajudá-los para que comam depressa.

Não lhes levanta a voz?

Levanto-lhes a voz, mas não a mão. E às vezes são eles que me chamam a atenção: "Não é preciso gritar!" A minha mãe dava-me palmadas no rabo, e eu nunca gostei disso. Lembro-me de ser muito pequena e de lhe ter menos respeito que ao meu pai, porque ela me batia e ele não.

Parece muito certinha, controlada. Não comete excessos?

Tenho pavor dos descontrolos provocados por substâncias como o álcool e as drogas. Fujo disso. Gosto de me deixar ir, de me descontrolar em privado, sem a ajuda de substâncias. Não preciso de químicos. Sou uma mulher avassaladoramente apaixonada.

Nunca apanhou uma bebedeira?

Já. Na adolescência. Achei muito aborrecido e desde aí nunca mais aconteceu.

Já fumou um charro?

Também já. Fiquei tão maldisposta que não voltei a fazê-lo.

Quando estudava dança, era a betinha entre os artistas?

As betinhas eram as meninas da linha. Eu era a coquete do Bairro Alto. Sempre sedutora e um bocado maternal.

Continua a ser perseguida por paparazzi?

Agora menos. Mas se voltar a ter um filho eles tornarão a chatear-me...

Já processou vários. Chegou a desmascarar um deles à porta de sua casa disfarçado de mendigo. Até o seu casamento com o actor João Reis foi perturbado por eles...

É verdade. Actuo sempre judicialmente. Não tenho qualquer respeito pelos paparazzi. No dia do meu casamento, eles sobrevoaram de helicóptero o espaço aéreo da quinta, em Santarém. O barulho do helicóptero era tal que o padre teve de elevar o tom de voz, porque não se ouvia nada na capela. E eu chorava de comoção. Mas não estragaram o casamento. Prejudicaram ligeiramente.

Como são os vossos fins-de-semana?

Acordamos cedo, pelas 8h30. Faço as papas para os miúdos. Vemos todos juntos - o João Reis, os meus filhos e enteados - alguns desenhos animados na cama. Depois dou banho aos meus filhos. Costumo até tomar banho em conjunto com eles. Enquanto são pequeninos, é uma diversão e importante para desmistificar as questões do corpo. No fim da manhã, vamos para o jardim. As crianças brincam, os adultos lêem os jornais. É um normal programa em família.

Como olha para o estado do país?

Com enorme preocupação. Há muita gente a viver acima das suas possibilidades. Observo isso mesmo no meu círculo social mais próximo. É aflitivo. São valores básicos que estão mal. Para muita gente, é mais importante ter um bom carro do que ser honesto. E isso é condenável e preocupante.

Considera-se uma mulher de esquerda ou de direita?

De um modo geral, os meus valores são de esquerda. Mas hoje as cores políticas estão todas misturadas. Há uma grande indefinição. Mas faço questão de votar. Mesmo que já tenha votado em branco ou sem convicção. Acho até que, actualmente, só os filiados nos partidos votam por convicção (risos).

Quem é que gostava de ver no lugar de Presidente da República?

(Pausa) É complicado. Estou mais preocupada com o primeiro-ministro do que com o Presidente da República. A desconfiança é enorme. Mas enquanto embaixadora não devo falar de política nem revelar cor partidária.

O Presidente da República promulgou há dias a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Concorda?

Claro. Ninguém deve ter a presunção de interferir na felicidade e liberdade de outros.

Os críticos do casamento entre homossexuais alegam o desvirtuamento dos valores da família...

E então? A minha família é composta também por pessoas homossexuais. Os valores da família são baseados no amor, na compreensão, na tolerância. Não vejo qualquer diferença entre um homossexual e um heterossexual, a não ser numa determinada questão de gosto. Por isso, vou mais longe e defendo a adopção por parte de casais gay, mantendo-se o mesmo rigor na selecção dos pais ou mães adoptantes - e sei bem que perco popularidade ao afirmá-lo.

O que mais gosta de fazer quando se quer desligar do mundo?

Ler poesia. É fundamental para mim. As palavras dos poetas embalam-me a noite, transportam-me para outra dimensão. Como as de Ruy Belo, Sofia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Luiza Neto Jorge ou Adília Lopes.

Como encara o envelhecimento? Imagina-se a envelhecer na TV?

Não costumo projectar-me no futuro. Quando as rugas aumentarem, talvez invista mais na representação, nos documentários e nas entrevistas. O que importa é que estou muito equilibrada. Conquistei o que queria sem saber o que queria...

De que é que tem medo?

Assusta-me pensar na morte das pessoas de quem gosto. Penso nisso permanentemente. Tenho pesadelos constantes. Vou ter de resolver esta questão. Por outro lado, a ideia da minha morte apaziguou-se desde que os meus filhos nasceram. Descentrei-me. O meu umbigo ficou menos luminoso.

Publicado na Única de 29 de Maio de 2010