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As senhoras da selecção

Não chutam para golo mas podem levar um cartão vermelho. Atraem os paparazzi mesmo quando ainda não têm, ou já perderam, o estatuto de oficiais. As mulheres dos jogadores são o lado cor-de-rosa, mas não menos lucrativo, do futebol.

Christiana Martins (www.expresso.pt)

São as primeiras-damas da Selecção: Filipa, Andreia, Soraia, Mónica, Bruna, Jéssica. E mesmo aquelas que já não são - e que na verdade nunca chegaram a sê-lo - ainda continuam a ocupar espaço nas páginas das revistas: Jaciara, Nereida, Merche. Porque neste universo paralelo, ser 'ex' assegura estatuto mediático. São as mulheres dos jogadores de futebol, os rapazes que vestem as cores da bandeira para defender o orgulho nacional, pelo menos para quem acredita que é no relvado que brilha a honra do país.

Para elas, a tarefa é importante. Levam o seu papel muito a sério. Não chutam para golo, não fazem cruzamentos, mas podem marcar faltas e até grandes penalidades. E, de cada vez que fazem declarações públicas mais ousadas, levanta-se um cartão vermelho, que poderá manchar a reputação do jogador. É por isso que elas costumam ser tão cuidadosas quando aparecem nos media. É que sabem que as suas declarações dão títulos gordos e fotografias generosas. E, para um jornal generalista, como o Expresso, marcar entrevistas com as senhoras do futebol, revela-se mais difícil do que chegar a um ministro ou ao presidente de uma grande empresa nacional. Os seus telemóveis não são de circulação ampla e, quando se consegue o número, fazê-las atender é a próxima tarefa. Toca, toca, e nada. Conquistaram o direito de só falarem do que querem e com quem querem. E não querem chatices.

A ideia pré-concebida era de que umas conhecem as outras, avisam as amigas e o contacto vai passando, fácil e suavemente de boca em boca. Nada mais errado. São poucas as que têm amizades neste grupo restrito. Em geral, encontram-se nos grandes eventos, nos camarotes VIP dos jogos, e, nestas alturas, a competição extravasa do campo para as bancadas.

Holofotes e publicidade

Jéssica Augusto

Jéssica Augusto

Rui Duarte Silva

Já se sabe que Portugal não é a Inglaterra, também no futebol, e que aqui tudo se passa à dimensão nacional. Mas, mesmo no campo lusitano, as páginas da imprensa cor-de-rosa vão-se enchendo com fotografias e breves depoimentos das mulheres dos jogadores da Selecção. As luzes dos holofotes do Mundial aquecem as imagens das namoradas, mulheres e 'ex' dos jogadores. Em termos mundiais, contudo, a situação é bastante amplificada.

Um mês antes do torneio arrancar na África do Sul, já as mulheres dos futebolistas internacionais se encarregavam de aquecer a competição. A marca de material desportivo Umbro foi buscar algumas das mais bonitas para posarem de T-shirt e meiões. Susana Werner, 'ex' de Ronaldo e actual namorada de Júlio César, o guarda-redes da selecção brasileira. Abbey Clancy, mulher do britânico Peter Crouch, são alguns dos rostos desta campanha. Elas foram mais rápidas do que eles, pois o resultado foi algo ao estilo do que estrelas como Drogba ou Cristiano Ronaldo, de cuecas, fizeram na capa da "Vanity Fair". No fundo, tudo em nome do marketing. Pessoal ou nacional.

Em Portugal, talvez a mais conhecida no papel de primeira-dama da Selecção é Filipa Sabrosa. É a veterana, afinal Simão é, actualmente, o mais internacional dos jogadores de Carlos Queiroz, Filipa tanto aparece nas páginas da "Caras" por frequentar festas como os Globos de Ouro ou por ter ido com a filha ao Rock in Rio, como por ter lançado um livro infantil, associado a um projecto beneficente. Já amargou ao ver a sua vida privada estampada nas revistas cor-de-rosa quando o seu relacionamento com o jogador parecia não correr às mil maravilhas. Sim, porque há sempre um outro lado da moeda. Não basta serem giras, convém que também sejam boas esposas e tenham preocupações mais meritórias do que apenas comparecer aos lançamentos das últimas marcas.

Mulher de Simão e mãe de Mariana e Martim, Filipa já joga há muito tempo neste campeonato que transborda dos campos para as revistas. Em declarações públicas, já disse que o "protótipo de mulher de jogador de futebol não (lhe) faz a mínima sombra". Mas, desafiada pela Única para falar do papel das mulheres dos jogadores como torcedoras número um da Selecção Nacional, Filipa preferiu não participar. Disse que é sempre ela a aparecer... Também confessou alguma superstição, recordando o que já aconteceu: ela aparecer a falar da Selecção e depois o Simão ficar lesionado e não poder jogar.

Ver de perto é ver melhor

Conhecer

Andreia Coentrão

Andreia Coentrão

Rui Duarte SIlva

algumas destas mulheres mais de perto permite intuir que elas são mais do que uma peça decorativa. Estão conscientes do seu papel, das expectativas que geram, do eco que as suas palavras alcançam. São, quase sempre, mães e se já não são, estão para ser, têm ambições e sonhos, independentes do futebol.

Algumas, mais experientes, permitem-se desenvolver raciocínios sobre a atenção que os seus modos de vida atraem. As outras, mais frescas neste meio, vão calando e respondem às perguntas dos jornalistas com cuidadosos monossílabos. Afinal, em boca fechada não entra mosca. Nem dali conseguem sair bobagens ou polémicas.

Andreia Santos, recém-casada com Fábio Coentrão, integra esta equipa das tímidas e cautelosas. Grávida de oito meses de Vitória, que será primogénita do casal, é muito discreta sobre o que sente realmente e pouco revela além do ar simpático e extremamente delicado. De sorriso fácil, recebe o Expresso na casa de férias, com uma varanda ampla sobre a praia da Póvoa de Varzim, onde assume que não gosta de aparecer nos media. Mas as fotografias do seu casamento - na véspera da convocatória de Fábio para a África do Sul e logo a seguir à conquista do Campeonato Nacional pelo Benfica - ficarão na história da campanha mediática deste Mundial. Sobretudo porque o marido não foi nada parco em elogios: "Andreia é uma mulher extraordinária, que me apoia e me dá muita estabilidade".

Quatro anos mais velha do que ele, Andreia envia sempre a Fábio, pelo telemóvel, uma mensagem escrita, antes dos jogos. Até porque, diz, "ele é ansioso". Ela não. Calma, apesar da proximidade em ser mãe pela primeira vez, Andreia garante que a gravidez não a vai impedir de ver os jogos. Sempre em família. Estudante do curso de Terapia da Fala. abraçou a vida conjugal, colocando a sua própria vida profissional em regime de espera. "Gostava de trabalhar. De não ser só mulher de jogador. Tenho intenção de voltar aos estudos", vai falando, enquanto diz que fica confusa ao ver a sua vida nas páginas das revistas. Terá de se acostumar.

Apoiar sem abrir mão de si

Quem certamente foge aos esterótipos e aos preconceitos é Jéssica Augusto. Atleta olímpica de alto nível e mulher de Eduardo, guarda-redes da Selecção Nacional, não estará em África do Sul para gritar pelo marido. Estará em estágio a treinar, a aperfeiçoar-se na sua modalidade. Corredora de meio-fundo, recordista europeia dos cinco mil metros, Jéssica conheceu Eduardo ainda os dois eram miúdos e andavam na escola. Cresceu o companheirismo, na certeza de que marido não empata mulher e vice-versa. Os jogos do Mundial serão acompanhados pela televisão ou pela internet. Momentos antes, trocarão "mensagens de coragem e ânimo", como explicou a atleta ao Expresso. "Falamos sempre no dia dos jogos, mas não temos qualquer ritual ou superstição", garante. Quanto ao seu papel na vida do marido, é clara: "É exactamente o mesmo que o de uma mulher de outro profissional qualquer. Devemos apoiar-nos e incentivar mutuamente". E explica: "Apoiar, incentivar e estar ao lado dele, principalmente nos momentos menos bons". E nestes, garante, "não faltam palavras bonitas e palmadas nas costas".

Quanto aos preconceitos face às mulheres dos jogadores de futebol, Jéssica não se deixa intimidar: "Sim, existem, mas tenho o meu emprego e sou independente, faço o que gosto há muitos anos e sempre tive o apoio dele para continuar a fazê-lo". Por isso mesmo sublinha que nunca aceitaria abrir mão da sua vida profissional para assumir o papel exclusivo de apoiante de Eduardo. "Tal como ele, tenho sonhos de carreira, ambiciono continuar a ser das melhores do mundo no meu emprego", conclui. E, quanto às amigas neste meio: "Não tenho nenhuma".

Sem papas na língua

Andreia Almeida

Andreia Almeida

Rui Duarte Silva

A outra Andreia desta selecção é muito mais experiente do que a primeira. Mulher de Hugo Almeida, tem pêlo na venta e com ela ninguém faz farinha. Com as ideias muito claras, assume como papel fundamental o acompanhamento de perto das filhas Mariana e Matilde e, sobretudo, o de incentivadora número um da carreira do marido. Diz mesmo que o Hugo não é capaz de começar um jogo sem lhe telefonar e ela faz o que lhe compete: "Não lhe dou preocupações. Quero que ele só se ocupe do trabalho e sei que a minha voz o tranquiliza."

"A nossa vida não é só, como algumas pessoas pensam, cabeleireiro e compras", garante Andreia. E, mesmo nos bastidores, fala da existência de uma competição nunca verbalizada. "É claro que existe uma rivalidade entre as mulheres. Senti isso quando saí de Portugal. Olham-nos de cima abaixo. Nota-se perfeitamente, principalmente quando há dois jogadores a concorrerem pela mesma posição. Bastam ver os olhares delas", afirma.

Antes de conhecer Hugo, Andreia andava em Educação Física e acabou por ser mais uma das mulheres de jogadores que deixou a carreira pelo caminho. "Adorava dar seguimento à minha vida profissional, voltar a estudar", afirma. Mas, pragmática, reconhece que "uma das coisas que mais agradeço ao Hugo é poder criar as minhas filhas".

O casal foi para a Alemanha há quatro anos e sublinha a importância do seu apoio no sucesso de Hugo, pois, frisa, "a carreira no futebol é curta". Diz que as crianças sentem muito a falta do pai, que acaba por ser mais ausente do que o que se desejaria. E é à mulher que cabe "gerir tudo: as crianças, a casa, as finanças". Só consegue, diz, porque tem a ajuda da família, sobretudo do irmão gémeo que se mudou com eles para a Alemanha, onde Hugo joga no Werder Bremen. Andreia não abre, contudo, mão de fazer a sua parte e a sua parte é quase tudo. "Eu tento ser uma supermulher, mas não é fácil". E, num momento de algum desabafo, confessa: "Quando o Hugo regressa, sinto uma espécie de aconchego...".

Publicado na Revista Única de 12 de Junho de 2010