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Arqº Frederico Valsassina: "Gosto de fazer coisas boas, não de luxo"

Uma obra no Parque das Nações valeu a Frederico Valsassina o mais recente Prémio Valmor

Cândida Santos Silva (www.expresso.pt)

Nasceu numa família de arquitectos e, talvez por isso, nada lhe tenha parecido mais natural do que fazer desta profissão a paixão da sua vida. Acaba de ganhar o Prémio Valmor, com o projecto Art's Business e Hotel Centre, no Parque das Nações, em Lisboa.

Ganhou o prémio Valmor. Qual o significado que tem para si? É um prémio muito importante, que distingue a boa arquitectura da cidade de Lisboa. É bom sermos reconhecidos pelos nossos pares. No meu caso ainda é mais interessante porque ganhei no mesmo ano em que foi premiado também o arquitecto Álvaro Siza (o prémio foi atribuído ex aequo aos dois arquitectos).

Quais pensa que foram as qualidades do projecto que cativaram o júri? A arquitectura é tanto mais interessante quanto mais próxima for do cidadão e mais aberta à comunidade e ao passante. Já em 2002 tinha recebido o mesmo prémio, com o projecto de Alcântara Rio, em que todo o espaço privado é um espaço público. A Inland, a promotora do projecto, foi muito generosa ao incorporar aqui arte pública.

Refere-se ao painel que está no exterior? Ao importante painel de arte pop, da autoria do islandês Erró - o último discípulo vivo de Roy Lichtenstein, que cedeu os direitos de autor à Viúva Lamego -, mas também ao conjunto de esculturas que estão no primeiro piso.

Não gosta do conceito de condomínio fechado e até evita fazê-los. Porque é que prefere construir espaços voltados para o exterior? Detesto condomínios fechados. Vivo no bairro das Amoreiras, em Lisboa, e a segurança do meu bairro é feita pelos nossos vizinhos. Os edifícios têm que ser bons para a cidade, agradáveis, ser espaços vivos que promovam as zonas de estar e de lazer.

No Parque das Nações conseguiu-se isso? Pela primeira vez nos últimos 30 anos pensou-se na recuperação de uma grande zona da cidade, e pela primeira vez esse trabalho foi feito por arquitectos.

Temos uma arquitectura moderna, arrojada, ou somos também aí muito conservadores? A arquitectura portuguesa está de óptima saúde. Veja-se a quantidade de arquitectos portugueses que trabalham no estrangeiro. Há imensas exposições lá fora com arquitectos portugueses. Tudo isto é uma grande dádiva dos arquitectos Siza Vieira e Souto Moura. Hoje em dia vê-se boa arquitectura em Portugal.

Apesar da crise. Apesar da crise.

Sente-a no seu ateliê? Tenho uma grande diversidade de trabalhos, desde equipamentos a moradias unifamiliares. Claro que há menos procura a nível do imobiliário, mas há mais ao nível da moradia unifamiliar.

É uma nova moda? As pessoas gostam de fazer casas desenhadas por arquitectos. Já lá vai o tempo em que as casas eram feitas por engenheiros.

Como é que define a sua arquitectura? Gosto de linhas simples. Ando à procura da maior simplicidade.

Em termos de materiais o que prefere? O mínimo possível. Gosto de casas convidativas, aprazíveis, de muito fácil apreensão. Uso muito o betão e a madeira.

Qual é a sua cor? O branco e também a cor do betão.

A sua arquitectura é cara? Não. Uso poucos materiais. (risos)

É um arquitecto de elites? A arquitectura com pouco desenho tem que ser muito bem feita. E isso fica caro. Tento não o ser. Uso poucos materiais, pouca pedra, e quando a uso não é polida. Gosto de fazer coisas boas, não de luxo.

Prefere os projectos unifamiliares ou habitação colectiva? Empenho-me tanto em fazer uma casa para um amigo como num prédio em altura.

Qual é o projecto que mais gostou de fazer? Gosto imenso de fazer projectos de recuperação. Adorei o projecto de recuperação do Palácio de Porto Covo, na Lapa, o Museu da Numismática. Estou a adorar fazer o projecto da cobertura da ETAR de Alcântara, em co-co-autoria com o Manuel Aires Mateus.

Gosta de acompanhar a obra, de ir ao terreno? Sinto imenso prazer em ir às obras, de ter os pés cheios de lama. O arquitecto é um artesão. O meu avô, o arquitecto Raul Tojal, fez o hotel Estoril Sol e chegou a mudar o ateliê para o sítio da obra. Dizia que era lá que aconteciam as coisas. Eu ia para lá com ele. É no terreno que as coisas acontecem.

Diz que, para fazer uma casa, um arquitecto deveria viver com a família para conhecer os seus hábitos... Quando combino um projecto com alguém que não conheço muito bem digo que quando acabar o estudo prévio fazemos um ponto de ordem para decidirmos se continuamos ou não. É uma espécie de casamento. Temos que nos dar bem e identificarmo-nos. Gosto de perceber como é que as pessoas gozam a casa, usufruem os espaços.

É fácil impor a sua arquitectura ao dono da obra? Escolher um arquitecto é como ir ao médico. Quando vêm ter comigo gostam da minha arquitectura, da minha maneira de ser, da forma prática de actuar e já sabem o que os pode esperar. Hoje os promotores já têm muita cultura, sabem muito bem o que querem.

Qual é a obra que gostava de fazer? Estou a fazer pela primeira vez um hospital e gostava de fazer uma obra pública como uma estação de metro ou de comboio.

Apesar de ser arquitecto, não vive numa casa desenhada por si... Vivo no centro de Lisboa. A minha casa é de 1904, mas foi toda reformulada por mim. Tenho uma casa de fim-de-semana em Colares desenhada por mim. É uma casa de um piso só, de cobertura plana, feita há 15 anos, mas muito actual.

Gosta de desportos motorizados e até tem uma colecção de motos. Adoro motos. É o meu hobby. Gosto imenso de recuperar motos antigas e de passar tempo a soldar. Todas as minhas motos têm uma história. Tive que fazer uma casa para as guardar.

Vai para o trabalho de moto? Raramente. As minhas motos são tão giras que as pessoas tentam roubá-las. Só ando de moto ao fim-de-semana.

(Texto original publicado na Revista Única  da edição do Expresso de 07 de Novembro de 2009)