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António Victorino de Almeida e a filha Anne

Anne, 30 anos, é a filha mais nova do maestro António Victorino de Almeida. E a única das três que segue as pisadas do pai na música. Uma conversa entre os dois, com o Expresso pelo meio

Hugo Franco (www.expresso.pt)

Aos 4 anos, Anne Victorino d'Almeida tocava piano em Viena. Aos 7 aprendia violino, instrumento com que hoje brilha em concertos e bandas sonoras de filmes. O pai, António Victorino d'Almeida, assegura que nunca a ajudou a compor uma só música. E é um crítico feroz.

Anne Victorino d'Almeida - Escrevo música há muitos anos. Por razões diversas, a minha escrita ficou dentro da gaveta. Tudo mudou em Junho. Estreei a minha peça para cordas, na Orquestra Sinffonieta de Lisboa. Em breve, irei estrear um concerto para saxofone, na Madeira. Tenho feito também algumas bandas sonoras: uma para um documentário, outras para uma longa-metragem...

António Victorino d'Almeida - ... Mais propriamente para o filme 'As Cartas a Uma Ditadura', realizado em 2006 pela irmã, Inês de Medeiros.

Anne - Sou como uma esponja: absorvo tudo o que oiço. Tenho aprendido o máximo com o meu pai, faço-lhe todas as perguntas. Podem não acreditar mas ele não me ajuda na composição.

António - É verdade. Ela tem uma capacidade melódica fora do comum e um conhecimento de orquestração que não sei onde foi aprender... (risos)

Anne - O meu pai deu-me, a mim e às minhas irmãs, muita cultura musical. A diferença é que elas se dedicaram ao cinema e eu sempre quis enveredar pela música. Contra a vontade dele. Sempre lhe disse que queria ser violinista e ele só me respondia: "Olha que é difícil."

António - Como músico, fico feliz que enverede por esta área. Mas como pai, aconselhei-a a mudar de profissão, porque teria a vida mais facilitada noutro meio.

Anne - As minhas irmãs estão muito atentas ao meu trabalho. Inês é muito exigente, mais dura do que a Maria. Sabe dizer que gosta de algo mas é como o meu pai: não faz elogios por fazer. A Maria enche-me de mimos. Gostava um dia de trabalhar com ela.

António - A Anne vive em Portugal, senão seria rapidamente tão conhecida do grande público como as duas irmãs. Se a Maria e a Inês trabalhassem por cá, não teriam a mesma projecção internacional.

Anne - Embora tenha muitas crises, e só me apeteça ir para fora do país para poder pertencer a uma orquestra, não tenciono ir trabalhar no estrangeiro. Gosto do nosso país, com todos os seus defeitos.

António - Eu também gosto muito deste país, por isso é que digo tão mal dele. Da Finlândia ninguém me ouve fazer críticas.

Anne - Como professora no Conservatório, vejo que há muitos alunos de música com grande talento. Mas o futuro deles é uma incógnita. Sinto que estou a formar desempregados. Em Portugal não há orquestras e começa a não haver escolas para dar aulas. Por comparação, só na Alemanha, há neste momento 50 concursos abertos para violinistas até Novembro. Em Portugal há um. E a Alemanha não é 50 vezes maior do que Portugal.

António - Por contradição, os concertos em Portugal estão cheios de gente com vontade de ouvir música. Principalmente na província. Temos bom público e bons músicos. Não há é vontade política.