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"Ainda tenho esperança de conseguir uma faena perfeita"

Este é um ano especial para o cavaleiro Paulo Caetano, que celebra 30 anos de alternativa.

Mafalda Ganhão (www.expresso.pt)

Há 30 anos no activo como profissional, Paulo Caetano tomou a alternativa em Santarém, a 15 de Junho de 1980, o que faz da presente temporada uma época para comemorar. Para o cavaleiro tauromáquico, não se trata apenas de festejar a carreira consolidada. A data merece um balanço e tem outro saldo positivo - o facto de já ter a tourear a seu lado o filho, João Moura Caetano, e de a paixão pelos cavalos ter passado também para a filha, Maria, cavaleira de dressage.

Já lá vão 30 anos desde a alternativa. O tempo passou muito depressa? Tenho lembranças que sinto muito próximas e outras que parecem ter acontecido noutro tempo, num universo distante. Em tudo o que, a meu ver, é verdadeiramente importante no âmbito profissional, tal como o domínio da técnica ou a expressão da personalidade através da nossa obra, o tempo parece-me escasso e, como tal, tenho a sensação de que tudo passa muito depressa. Por outro lado, em relação a acontecimentos que marcaram períodos importantes da minha vida, tais como a alternativa ou a corrida dos seis touros no Campo Pequeno, sinto que constituem metas que, apesar do esforço e coragem envolvidos para as atingir, uma vez alcançadas vão ficando para trás a uma velocidade vertiginosa.

Não vindo de uma família com tradições na festa brava, o que o fez querer ser cavaleiro tauromáquico?

Deve ser triste alguém ser cavaleiro tauromáquico pela simples razão de vir de uma família com tradições na área. O mesmo princípio pode ser aplicável a quase todas as profissões. No entanto, no caso do toureio a cavalo, estamos perante uma arte tão absorvente que só uma vocação inata, uma determinação inabalável e um amor inquestionável a estes dois magníficos animais, o cavalo e o touro bravo, torna compatível com uma carreira bem sucedida. Desde sempre desejei montar a cavalo e tourear. Surgiram-me boas oportunidades de aprendizagem e aproveitei-as. Acreditei no meu sonho e realizei-o.

E o que o faz continuar a usar a casaca e a entrar nas arenas?

Não se perdeu o encanto? Dou-lhe três razões: sentir por esta arte a mesma paixão que senti a primeira vez que pisei uma arena, o prazer que sinto por criar e ensinar cavalos e a esperança, que ainda tenho, de conseguir uma faena perfeita.

Fez carreira numa área muitas vezes notícia por ser contestada. É uma polémica antiga. Ao longo deste tempo alguma coisa foi mudando? Como vê o momento actual?

Para compreendermos uma arte tão complexa e profunda como o toureio, é fundamental que nos posicionemos, de forma a capturar o máximo de informação e apreender o máximo de emoções. Estamos a falar de um fenómeno que envolve uma infinidade de aspectos de elevado nível técnico, artístico e cultural. Não pode ser tratado levianamente ao sabor de impulsos, que, apesar de baseados em mais ou menos respeitáveis convicções, assumem, por vezes, atitudes irresponsáveis e despóticas. O momento actual do toureio é altamente dinâmico e promissor. A nível profissional está garantido por um vasto grupo de novos cavaleiros de grande qualidade. Quanto ao público, contamos com uma assistência cada vez mais jovem e numerosa.

Criou também uma coudelaria, uma ganadaria e tem dois livros publicados. São extensões naturais da sua profissão?

Julgo que sim. Em minha casa, não há um só dia em que não se discuta uma faena, um lance de equitação, uma nota de tenta de uma vaca brava, ou um poldro que nasceu. Tenho um grande orgulho nos cavalos que tenho criado. Sinto uma alegria enorme em ver que a minha quadra e a do meu filho João são, exclusivamente, formadas por cavalos do meu ferro. Tal como na dressage, disciplina olímpica de elevadíssima exigência, senti uma enorme alegria ao ver dois cavalos do meu ferro vencerem, no espaço de um mês, os mais importantes concursos internacionais dos países que representam. Quanto aos livros, escrever sobre cavalos e touros, equitação e toureio, é um prazer. É como conversar com amigos.

As corridas são espectáculos de Verão. Satisfaça a curiosidade de quem não conheça bem o universo tauromáquico. Como é a sua vida no Inverno?

A tauromaquia não se compadece com sazonalidade. Exige uma dedicação total e a tempo inteiro. É no campo que, durante o Inverno, o toureiro consegue atingir a concentração necessária a um treino disciplinado e rigoroso.

Neste mundo há grandes rivalidades artísticas?

O pundonor, a vontade de superação, a ambição de ser o melhor dentro da arena são características de quem quer ser figura de relevo. Os toureios competem entre si, o público cria a rivalidade entre os seus preferidos. É esta a seiva que alimenta a afición.

O que mais o orgulha nestes 30 anos?

Apesar do turbilhão emocional em que esta profissão nos envolve, consegui manter a minha família unida, alicerçada no amor, na solidariedade e na liberdade. Ensinei aos meus filhos aquilo que sei sobre equitação e toureio e, sobretudo, consegui transmitir-lhes o respeito, que deve estar sempre presente, pelo cavalo e pelo touro bravo. Também me orgulho dos cavalos que criei e treinei, que me proporcionaram momentos inesquecíveis de comunhão entre a minha maneira de sentir o toureio e o público.

E o que faria de diferente?

Evidentemente que, se soubesse o que sei hoje, faria muitas coisas, mais depressa e melhor.

Tem um momento definido para se retirar?

Tenho.

Não o quer revelar?

O toureiro nasce e morre toureiro. O tempo que está no activo tem a ver com as suas capacidades físicas, mas, principalmente, com a sua motivação. Não deixa de ser um assunto do foro íntimo. Há uma coisa da qual estou certo: não irei anunciar previamente a minha retirada. Será um dia, de surpresa.

Publicado na Revista Única de 19 de Junho de 2010