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Família

À espera do sucesso dos filhos

Investem horas dos seus dias nas actividades dos filhos, dão tudo por tudo para que eles sejam os melhores. Mas do apoio à pressão vai um pulo. São muitos os pais que criam expectativas exageradas acerca do futuro dos seus filhos, projectando neles o que sonharam para si

Alexandra Simões de Abreu (www.expresso.pt)

Chegam com o penteado à Cristiano Ronaldo, as golas levantadas como Cantona, as botas iguais às de Liedson, ou com o número e nome do ídolo estampado na camisola. São centenas e centenas de miúdos que todos os anos esperam horas para mostrar os seus dotes de futebolista nos treinos de captação dos grandes clubes.

Empurrados por sonhos muitas vezes alimentados ou até criados pelos próprios pais, muitos acabam por viver grandes desilusões, que podem levar a situações de stresse pessoal e familiar. Consciente ou inconscientemente, os pais exercem uma grande influência na formação desportiva dos filhos. Muitas vezes são os primeiros a incentivá-los a dedicarem-se a uma carreira desportiva. Apoiam financeiramente, dedicam bastante tempo para os acompanhar aos treinos e competições e às vezes fazem um sacrifício económico brutal. Tudo isto à espera de ter um campeão dentro de casa. Nalguns casos, os pais foram mesmo os primeiros técnicos a ensinar os primeiros passos aos seus filhos, como é o exemplo do pai das irmãs Williams ou da mãe de Martina Hingis, no ténis. Só que essa influência tanto pode revelar-se benéfica como negativa na vida dos filhos, dependendo da forma como é exercida.

Telmo e Dulce Franco nunca falharam um único treino ou jogo do filho, mas garantem não estar obcecados com a ideia de ver André vingar no mundo da bola. Com um discurso cauteloso, dizem querer "sobretudo que se divirta". Mas por mais que tentem não conseguem esconder que as expectativas têm vindo a aumentar. Percebe-se porquê. André tem 12 anos, foi pela primeira vez às captações do Sporting com seis, e foi o único a ficar, de entre mais de 300 miúdos. Todos os anos o clube tem renovado contrato com ele, dando com isso a entender que aposta nas suas qualidades.

O pai garante que, ao início, o filho fazia "lembrar o João Vieira Pinto", apesar de André ser canhoto. E confessa também que no primeiro ano do filho no Sporting tinha dificuldade em controlar-se e "gritava para dentro de campo". "Vai André, vai por ali, faz isto, faz aquilo, era o mais comum", afirma, "enquanto fumava um maço de tabaco por treino". Uma chamada de atenção por parte do técnico foi suficiente para lhe acalmar os ânimos, mas nem por isso consegue ficar calado nos jogos. "Só que nos jogos ele não me ouve, e ainda bem."

A tradição das escolas de formação do Sporting, com grandes resultados à vista, como Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma ou Simão Sabrosa, entre outros, e o acompanhamento psicológico que o clube proporciona, acaba por influenciar o comportamento dos pais. "Vamos sendo educados. Aqui há uma grande preocupação com os valores, a atitude, com a escola, eles telefonam para a escola para saber como está o aproveitamento escolar", adianta Telmo, de 33 anos.

Quando os pais querem ser treinadores

O casal garante que até se tem preparado para a desilusão, se ela vier a acontecer. "Há muitas variáveis. O que é um talento hoje pode não o ser amanhã. Ele pode lesionar-se. Pode chegar aos 15 anos e não querer abdicar de sair à noite com os amigos por causa do futebol." Por enquanto vão continuar a apoiá-lo, significando isso "fazer a vida em função do André", já que há treinos três vezes por semana e pelo menos um jogo ao sábado. São mais de 150 euros por mês em gasóleo e estacionamento, sem contar com despesas de estadias e viagens em jogos fora, se necessário.

Para Dulce, técnica de laboratório, e Telmo, impressor de artes gráficas, até agora o sacrifício tem sido compensador. André assume querer ser futebolista profissional, mas também médico. Aluno de cincos, é figura assídua no quadro de honra da escola. E salienta, orgulhoso, que entrou também "no quadro de mérito do Sporting", por causa das notas e do comportamento.

Mas existem pais que interferem de forma negativa na vida dos filhos, por exemplo criando expectativas exageradas, pressionando-os para ter sucesso, valorizando o princípio de que "vencer é tudo". Esses pais podem atrapalhar o desenvolvimento desportivo e psico-social dos seus filhos e prejudicar psicologicamente o seu desenvolvimento.

Duarte Nunes de Almeida acompanha todos os jogos e treinos do filho, Salvador

Duarte Nunes de Almeida acompanha todos os jogos e treinos do filho, Salvador

ANA BAIÃO

"Ó mister, olhe que ele faz aquela finta do Ronaldo". "Mister, olhe que ele joga bem é a lateral esquerdo"... Frases como estas é o que mais se ouve da boca dos pais nos primeiros treinos. Ana Vieira, psicóloga ao serviços das escolas do Sporting, conhece bem as manhas de alguns que "chegam a contornar a rede toda à volta do campo atrás do filho, dando indicações de onde se deve colocar, quando deve rematar". Os técnicos e a psicóloga têm truques para essas situações. "Se o miúdo costuma jogar a lateral e o pai não larga um lado ou outro da rede, colocamo-lo a jogar no meio para ele já não o ouvir", explica.

Há casos em que são os próprios miúdos que vão ter com o treinador queixando-se que o pai não os larga. Pedro Moreira, treinador de André, afirma que "há miúdos que sentem mais pressão na presença constante dos pais e no modo como os pais intervêm do que outros. Quando vemos que é necessário, encaminhamo-los para o gabinete psico-pedagógico". Se a mensagem não for entendida, persistindo o comportamento, "o jogador é castigado com um ou dois dias sem treinar, ou mais".

Pressão psicológica e falta de apoio emocional por parte dos pais podem produzir filhos stressados, ansiosos, emocionalmente desequilibrados, inseguros, com problemas de auto-estima e autoconfiança, entre outros. Esses estados psicológicos negativos acabam por influenciar de igual forma a performance dos atletas, deixando-os frustrados e infelizes.

Talento precoce

A primeira vez que Rita disse ao pai que queria andar no kart dele, Vítor Teixeira não lhe ligou. Mas a miúda tanto insistiu que ele lá acabou por ceder. "A Rita tinha quatro anos. Disse para comigo: 'Ai queres experimentar? Então, está bem. Ao fim de umas voltas vais ficar farta e não voltas a andar'." A verdade é que não só não desistiu como, "logo na primeira curva, quando sentiu o carro a fugir, contrabrecou, segurou o kart e seguiu", garante o pai, babado. "Aquilo saiu-lhe por intuição, nunca a ensinei." A paixão deste engenheiro mecânico, de 39 anos, pelo desporto motorizado foi de tal modo absorvida pela filha que ela nunca mais parou de andar de kart. Parou ele.

A família Teixeira com o mecânico Raúl. Todos os fins-de-semana o kart de Rita é afinado, para garantir as melhores prestações à jovem piloto de 11 anos

A família Teixeira com o mecânico Raúl. Todos os fins-de-semana o kart de Rita é afinado, para garantir as melhores prestações à jovem piloto de 11 anos

ANA BAIÃO

Os fins-de-semana da família Teixeira são feitos em função dos treinos e das corridas de Rita, agora com 11 anos. E, enquanto o pai e a jovem piloto andam sempre de volta do kart e dos mecânicos da equipa de Raul Silva, a mãe, Ana Paula, educadora de infância, e a outra filha do casal, Filipa, de sete anos, vão-se dividindo entre a zona do paddock, o bar e as bancadas. Rita começou a competir com sete anos, no Open de Portugal, onde terminou em 2º lugar. "Ainda nem sequer tinha dentes", conta Vítor a rir. "E era a única menina no paddock", acentua orgulhoso. Rita nunca se deu mal com isso. Gosta de vencer os rapazes. "Eles é que não acham muita piada. Há alguns que até choram de raiva por ficarem atrás dela", garante o pai.

O ano passado foi correr para Espanha. Em 79 participantes ficou em 28º. "Mais uma vez era a única rapariga. O presidente da Federação espanhola deu-lhe pessoalmente os parabéns e pediu-lhe para ela participar este ano outra vez", explica o pai.

Dispostos a fazer todos os sacrifícios para que a filha continue a correr, a verdade é que o poder monetário da família não permitiu nova aventura em terras vizinhas. Rita compete este ano pela primeira vez no Rotax MiniMax, com um investimento dos pais que ronda os 25 mil euros por ano.

"A minha frustração quase diária é saber que ela tem um potencial muito maior do que aquilo que lhe posso oferecer. Tenho convites para ela ir correr para Itália também. Mas não tenho dinheiro. Só consigo 25 a 30% das verbas de que ela necessita, o resto é do nosso bolso", confessa Vítor Teixeira, acrescentando: "Se tivesse dinheiro e arranjasse patrocínios à altura não tenho dúvidas de que ela chegava à F1". O chefe da equipa de Rita, Raul Silva, reconhece-lhe o talento, assegura que "a miúda tem potencial para ganhar e em nada perde para os outros miúdos da categoria dela", mas tal como o pai atira as culpas de um futuro a prazo para a "falta de apoios".

E a Rita, o que pensa disto tudo? A jovem piloto prepara-se para se fazer à pista de Palmela. Antes, confessa que ainda não sabe o que quer ser quando for crescida, mas que adora conduzir o kart. Pressão? Não sabe o que isso é. Conduz "por prazer" e adora "ultrapassar os outros". Tem consciência das dificuldades financeiras e, talvez por isso, não alimenta grandes sonhos, preferindo dizer ao pai que, se tiver de deixar de correr, só quer que ele compre um kart para ela poder continuar a andar. Essa promessa Vítor já lha fez.

Três filhos, aposta só num

De acordo com um estudo feito por Geneviève Mageau, da Universidade de Montreal, no Canadá, o apoio dos pais pode levar ao desenvolvimento obsessivo dos filhos por uma actividade específica. Publicado recentemente no "Journal of Personality", o estudo foi feito em conjunto com a Universidade de Quebec e a Universidade McGill, ambas canadianas. "Observamos que o controlo dos adultos pode levar a uma paixão obsessiva dos jovens por alguma actividade, pois ao ensiná-los que é possível encontrar uma aprovação social por meio da excelência em alguma área, isso torna-se altamente importante para a criança, que passa a sentir-se mais protegida e mais aceite. Entretanto, isso não corresponde necessariamente aos desejos desses jovens", diz Mageau. A pesquisa sugere que os jovens podem não querer desenvolver determinada capacidade a longo prazo (como realmente tornar-se atleta profissional), e os pais devem entender isso, apoiando as suas decisões.

Psicoterapeuta e criador de cães, Duarte Nunes de Almeida não esconde que se não fosse um acidente de moto provavelmente teria ido mais longe no ténis. Não foi, mas o seu filho mais velho, Salvador, "tem talento para vir a ser tenista profissional". A julgar pelas horas que ambos passam nos courts, não será por falta de trabalho que deixarão de concretizar o sonho. Sonho de ambos, diga-se. O adolescente, de 13 anos, confirma que quer ser tenista profissional e que está disposto a fazer sacrifícios para isso.

"Se eu deixasse, o Salvador até dormia dentro do court", garante Duarte, revelando que foi ele quem lhe deu as primeiras bases e que até tirou um curso de treinador. Duarte reconhece que dá "mais atenção ao Salvador do que aos outros dois filhos", e que isso se deve à paixão pelo ténis e ao facto de reconhecer no filho "o jogador mais talentoso de Portugal". Estudante do 7º ano nos Salesianos do Estoril, Salvador tem tido bom aproveitamento escolar, apesar de treinar pelo menos três horas por dia.

Dono dos seus horários de trabalho, Duarte consegue sempre acompanhar o filho aos torneios e revela que uma semana para os dois numa prova europeia lhe custa "à volta de 2500 euros". Apesar de todas as esperanças que deposita no filho, sabe que um dia "ele pode acordar e dizer: 'não quero mais isto, quero divertir-me, sair à noite...'". O que, a acontecer, confessa, o "aliviaria um bocadinho, porque há muitas expectativas. Tenho o sonho de ver o Salvador como profissional de ténis, mas só faz sentido se ele o desejar também". Exigente, reconhece que lhe dá muito na cabeça quando perde. "Mas é uma prova de amor", diz a sorrir.

Os pais são importantes e essenciais na vida desportiva dos seus filhos. São fundamentais para criar boas oportunidades de treino, seleccionar um bom técnico e apoiar financeira e emocionalmente o filho. Um bom relacionamento dos pais com o técnico do filho é também de grande importância para o sucesso na carreira desportiva do atleta. Mas devem evitar criar expectativas, pressionar os filhos, criar dependência emocional e mostrar um comportamento emocionalmente desequilibrado. Devem antes ser modelos positivos de comportamento, revelar confiança e respeito, ter disciplina e assumir compromissos e responsabilidades.

Publicado na Revista Única de 15 de Maio de 2010