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Referendo numas ilhas mais Falkland do que Malvinas

Apesar do voto ser secreto, um votante não esconde a sua opção no momento de meter o boletim na urna

Javier Lizon/EPA

Arquipélago que o Reino Unido e a Argentina disputam termina hoje uma consulta apoiada por Londres mas rejeitada por Buenos Aires. A fação pró-britânica vai triunfar.

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O arquipélago das Falkland ou Malvinas conclui hoje (segundo dia de votação) uma das consultas democráticas mais previsíveis de sempre. Espera-se que os seus habitantes votem a favor da manutenção da soberania britânica, em percentagens mais próprias de um plebiscito num qualquer país totalitário, da ordem dos 90 e muitos por cento.

Os habitantes das ilhas, conhecidos por kelpers, têm até às 18h de hoje (21h em Portugal) para responder à seguinte pergunta: "Deseja que as ilhas Falkland mantenham o seu estatuto político atual, como território ultramarino do Reino Unido?". Se, contra todas as expectativas, dissessem que não, teria de haver novo referendo sobre alternativas à soberania britânica. As ilhas, de clima agreste, ficam a 400 km da costa argentina e a 13 mil km de Londres.

Têm direto a votar 1672 eleitores, ou seja, os habitantes das ilhas que lá estão há mais de sete anos. A maioria esmagadora é de origem britânica, o que certamente contribuirá para o resultado esperado. Destes, 80% vivem na capital das ilhas, Stanley, estando os demais votantes espalhados por propriedades rurais. Haverá, por isso, quatro mesas de voto fixas e várias estações móveis, transportadas por avião ou por estrada.

Apesar das dificuldades logísticas, Barry Elsby, deputado no parlamento das ilhas, ouvido pela agência France Presse, considera que no domingo, primeiro dia da votação, houve uma "participação extraordinária".

Uma longa disputa

O referendo insere-se no contexto da longa disputa entre o Reino Unido e a Argentina pela posse destas ilhas, chamadas Falkland em inglês e Malvinas nas línguas latinas. Londres exerce a soberania de facto desde 1833, baseando-se no facto de ter sido britânico o primeiro desembarque de que há registo naquele território, em 1690. A Argentina diz tê-lo recebido de Espanha em 1816, pelo que fala de "ocupação".

As conversações diplomáticas nunca deram frutos, embora seja inegável que a maioria dos habitantes do arquipélago, de origem britânica, deseja manter os vínculos a Londres. Para a história ficou, em 1982, a Guerra das Malvinas, causada por uma invasão por parte da Argentina - então sob ditadura militar -, mas vencida pelos britânicos, ao fim de 74 dias de combate e cerca de 900 mortos, dois terços argentinos e um terço britânicos.

Uma consulta promovida por Londres em 1986 revelou que 96,45% dos votantes eram a favor da soberania britânica. Em 1994, foi a vez de a Argentina conduzir uma sondagem, em que 87% se declararam pró-Londres.

Aniversário reacendeu rastilho 

No ano passado, em que se assinalou o 30.º aniversário da guerra, a disputa ressuscitou. O motivo principal foi a descoberta de petróleo nas águas territoriais das Falkland/Malvinas, que o Governo local afirmou querer explorar. Ato contínuo, Buenos Aires baniu os navios do arquipélago dos portos argentinos.

O ministro da Defesa argentino, Arturo Puricelli, disse a este respeito que os habitantes das ilhas são "reféns" e que só as forças armadas britânicas "mantêm a usurpação" daquele que considera território legalmente argentino. O governador do arquipélago, Nigel Haywood, explica que o referendo é uma tentativa de "resolver de uma vez por todas" o diferendo.

É pouco provável que tal suceda. A Argentina já afirmou que ignorará a consulta, convocada em junho passado. "Não tem qualquer valor", afirmou Guillermo Carmona, presidente da comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento argentino. "O resultado previsível não põe fim à dispura nem afeta os direitos inquestionáveis da Argentina", reforça a embaixadora daquele país no Reino Unido, Alicia Castro.

É que, se Londres aceita a autodeterminação do povo das Falkland/Malvinas (incluída na Constituição do arquipélago), Buenos Aires nega tal direito por considerar que os habitantes das ilhas foram "implantados" pelo Reino Unido. Para o ministro dos Negócios Estrangeiros argentino, Hector Timerman, "não existe" um povo das ilhas, cuja soberania se possa invocar.

O primeiro-ministro britânico apoia a consulta, cujo resultado já prometeu "respeitar e defender". Em junho passado, na cimeira do G20 no México, David Cameron pediu à Presidente da Argentina que aceitasse a vontade dos habitantes das ilhas. Cristina Fernández de Kirchner respondeu-lhe com uma resolução das Nações Unidas, de 1960, que ordena o "fim do colonialismo em todas as suas formas e manifestações".

Buenos Aires quer debater formalmente a posse das ilhas, mas Londres já disse que só o fará caso os habitantes locais lho peçam expressamente.

Union Jack por toda a parte

A cidade de Stanley cobriu-se de Union Jacks (bandeiras do Reino Unido) e de bandeiras das Falkland, que por acaso incluem também, num canto, o Union Jack. Há até quem vá votar vestido com aqueles símbolos. "A Argentina ignora-nos por completo, mas o resto do mundo verá o que isto é: a vontade democrática do povo", considera o deputado local Elsby, um médico inglês que vive no arquipélago desde 1990.

Os organizadores da consulta convidaram observadores internacionais para verificarem a autenticidade do resultado. O presidente do Parlamento argentino, Julián Domínguez, já criticou o deputado uruguaio Jaime Trobo por ter aceitado fazer parte dessa missão. "É uma traição a toda a América Latina", acusou.

Quando os resultados forem anunciados, espera-se uma festa perto da catedral de Stanley. Nos últimos dias, os kelpers organizaram ações como um desfile de jipes, cavalos e motos a favor da soberania britânica, conta o jornal argentino "Clarín". Um cartaz garantia que a única posse da Argentina no arquipélago são as minas terrestres deixadas durante a guerra de 1982.

Embora não se veja fim para a questão Falkland/Malvinas, ela promete durar. Prova da sua delicadeza é o facto de países tão amigos do Reino Unido como os Estados Unidos da América nunca terem assumido uma posição clara.

Uma deputada local, Sukey Cameron, frisou, em entrevista à Sky News, que mesmo os escassos votos "não" que possa haver não são, automaticamente, apoios à soberania argentina. A seu ver esses eleitores podem desejar terceiras vias, como a independência. "Até pode acontecer, dentro de 50, 70 ou 100 anos, mas para já estamos muito contentes com a nossa relação com o Reino Unido, tal como está", acrescentou.