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Enrico Letta nomeado primeiro-ministro de Itália

O Presidente escolheu o n.º2 do centro-esquerda para formar o novo Governo. Berlusconi e Monti apoiam Enrico Letta, cuja tarefa nada terá de fácil.

Pedro Cordeiro com agências

Enrico Letta, vice-presidente do Partido Democrático (PD, centro-esquerda), é o próximo primeiro-ministro de Itália. O Presidente da República, Giorgio Napolitano, pediu-lhe esta manhã que formasse Governo, passados exatamente dois meses sobre as eleições legislativas. O nomeado prometeu começar as conversações com os demais partidos amanhã e pede-lhes cooperação, pois uma aliança de governo não se consegue "a qualquer custo", informa a agência Reuters.

Letta, de 46 anos, já foi deputado, eurodeputado e ministro de vários governos. É visto como moderado e até foi líder da Juventude Democrata-Cristã, o que poderá favorecer o difícil desafio de conseguir uma plataforma de medidas e nomes para o seu Governo, que outros partidos apoiem. A aliança liderada pelo PD venceu as eleições de fevereiro, mas sem maioria nas duas câmaras do Parlamento, imprescindível para formar um novo Executivo. Ajudar as pequenas e médias empresas e reformar as instituições políticas são as prioridades que Letta indicou, para um país que considera estar em situação "difícil e frágil".

A escolha do novo primeiro-ministro resulta da demissão do líder do PD, Pierluigi Bersani, causada pelas divisões no partido. Quando se realizou a eleição do Presidente, na semana passada (na qual participaram deputados, senadores e delegados regionais), um quarto dos representantes do PD negou-se a votar nos candidatos indicados por Bersani: o ex-presidente do Senado Franco Marini e o ex-primeiro-ministro Romano Prodi. O desentendimento com os demais partidos levou a um bloqueio resolvido apenas quando Napolitano, de 87 anos, aceitou ser Chefe de Estado por mais um mandato - situação inédita em Itália.

As divergências internas do PD não se limitam à escolha do Presidente. Muitos militantes discordam da solução anunciada de formar um Governo de coligação com o Povo da Liberdade (Pdl, direita), partido de Silvio Berlusconi. Um tio de Enrico Letta, Gianni Letta, foi chefe de gabinete do antigo primeiro-ministro durante anos.

Cinco estrelas fica na oposição

Há no PD quem preferisse "puxar" para o arco da governação o Movimento Cinco Estrelas (M5S), do cómico Beppe Grillo. Por isso muitos dos representantes do PD apoiaram, nas presidenciais, o candidato do M5S. Grillo chegou a admitir que, caso Stefano Rodotà fosse Presidente com o apoio do PD, o M5S poderia aliar-se àquele no Governo. "Um Governo de grande coligação (PD+PdL) é uma pílula amarga para o PD", considera Stefano Folli, colunista do diário económico "Il Sole-24 Ore".

Espera-se de Letta que troque as disputas ideológicas por pragmatismo e diálogo, aproximando a política do cidadão comum. "A Itália não se pode dar ao luxo de um conflito permanente. O Governo terá de ser de pacificação nacional", afirmou o colunista Massimo Franco, do jornal "Corriere della Sera", citado pela agência France Presse.

O impasse político preocupa os dirigentes europeus e os investidores, pois Itália é a terceira maior economia da Zona Euro e está mergulhada na recessão desde 2011. As medidas de austeridade do Governo cessante, liderado por Mario Monti, tiveram custos políticos: a sua lista centrista, Escolha Cívica, obteve apenas 9% nas legislativas. Nos últimos dias, empresários, sindicalistas e até a Igreja Católica pediram rapidez aos políticos.

Berlusconi e Monti já prometeram apoiar a nomeação de Letta, o que significa, ironicamente, que a base de apoio do futuro Executivo será quase a mesma do cessante. "Dada a crise em que o país se encontra, precisamos de um Governo forte e duradouro que possa tomar decisões importantes", afirmou Berlusconi.

Para este consenso terão contribuído as críticas do Presidente reeleito. Napolitano acusou os partidos de serem "surdos" à vontade popular e, no próprio ato de posse, ameaçou demitir-se caso não formassem um Governo "sem demora". O M5S recusou-se de imediato. Prefere ficar na oposição, embora admita apoiar medidas avulsas.

O novo Governo deve tomar posse nos próximos dias. Letta prometeu, antes de ser nomeado, que o seu partido promoveria reformas e alteraria a lei eleitoral, cuja complexidade muitos responsabilizam pelo impasse que agora parece terminar. O mesmo farão o partido Esquerda Ecologia Liberdade, aliado do PD nas eleições, e a Liga do Norte, companheira do PdL.