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Internacional

A guerra fria de Nicolás Maduro

Nicolás Maduro e Vladimir Putin

MAXIM SHEMETOV/Getty

Enquanto promove manobras militares com a Rússia, Presidente contestado acusa EUA e Colômbia de golpes

DANIEL LOZANO CORRESPONDENTE EM CARACAS

A

aterragem de dois bombardeiros russos Tupolev 160 em Caracas e as acusações do Presidente Nicolás Maduro contra John Bolton, assessor de segurança dos EUA, despertaram memórias da Guerra Fria.

A cooperação militar com os russos agravara o confronto com Washington mas, horas depois de Maduro ter dito que os EUA queriam destituí-lo e assassiná-lo, as suas palavras explodiram como “bombas mediáticas” de dimensão semelhante às transportadas pelos famosos “cisnes brancos” das Forças Armadas de Vladimir Putin, os aviões supersónicos capazes de carregar mísseis nucleares de curto alcance e veteranos da guerra da Síria.

A ofensiva diplomática venezuelana inclui uma exibição militar a 10 de janeiro. “Os governos que quiserem mandar regressar os embaixadores que o façam. Nenhum embaixadorzeco me vai fazer má cara. Ou me respeita ou vai-se embora!”, ameaçou o chefe de Estado, que deve tomar posse para o segundo mandato em janeiro.

A cerimónia será ignorada pela maioria dos países da região, EUA, Canadá e UE. A viagem de Maduro a Moscovo, o apoio de Cuba ao regime venezuelano, a visita a Caracas do Presidente turco Erdogan e os abraços a autoridades iranianas e norte-coreanas definem as suas alianças visíveis.

“Preparamo-nos para defender a Venezuela e vamos fazê-lo com os nossos amigos”, anunciou o ministro da Defesa, general Vladimir López Padrino, orgulhoso de dispor por umas horas dos bombardeiros russos. Segundo o Parlamento — onde a oposição tem maioria —, violaram o espaço aéreo venezuelano ao não pedirem permissão para aterrar na capital.

“A Rússia envia bombardeiros para a Venezuela e nós mandamos um navio-hospital”, proclamou o coronel Robert Manning, porta-voz do Departamento da Defesa, recordando a ação humanitária do navio “USNS Comfort” em prol dos migrantes venezuelanos. “Dois governos corruptos desperdiçam fundos públicos e esmagam a liberdade, enquanto os povos sofrem”, criticou Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA (equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros).

O Kremlin e o regime bolivariano refutaram as acusações. “Inapropriadas” e “pouco diplomáticas”, resumiu Dmitry Peskov, porta-voz de Putin. “Estes comentários não são próprios de um país que, com metade do seu orçamento de Defesa, poderia alimentar toda a África.” O MNE venezuelano, Jorge Arreaza, garantiu que os EUA têm 800 bases militares em 70 países.

A Colômbia, que tem 200 quilómetros de fronteira tensa com a Venezuela, foi “convidada” para a contenda. A resposta comedida do Presidente Iván Duque foi acolhida com nova censura de Maduro: “Ouve-me bem, carinha de anjo e alma de diabo: inamistoso é ter acampamentos de mercenários como os que há na Colômbia”. Caracas acusa o antecessor de Duque, Juan Manuel Santos, de estar por trás de um alegado atentado com drones no verão passado.

“É uma pantomima que queriam encenar há muito. Por fim convenceram os russos a uma coisa limitada. A pergunta mais relevante é ‘em troca de quê’. Atrevo-me a supor que irá sair caro ao país, se tivermos em conta o destaque que Putin dá às trocas comerciais, que têm sido menores nos últimos anos”, resumiu ao Expresso o especialista em direito internacional Mariano de Alba, radicado em Washington.

“Farsante”, reagiu o major-general Herbert García Plaza, exilado nos EUA depois de ter rompido com Maduro. Este ex-ministro defende que é “contraditório denunciar planos de conspiração e, em vez de reforçar a segurança, mandar de licença, até 27 de dezembro, metade do pessoal militar”.