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Não há almoços grátis na rede social

Protesto pela cobrança de um imposto europeu a gigantes digitais como o Facebook, esta semana em Bruxelas

FOTO STÉPHANIE LECOCQ/ EPA

A rede social mais conhecida do mundo serve-se dos dados dos utilizadores numa lógica de ‘toma lá, dá cá’

Foi mais um abalo na credibilidade do Facebook mas já não teve o efeito surpresa do caso Cambridge Analytica. Soube-se esta semana que a maior e mais famosa rede social do mundo partilhou os dados dos seus utilizadores com empresas escolhidas a dedo e puniu outras que poderiam representar uma ameaça. A plataforma digital de séries e filmes Netflix e a aplicação de alojamento local Airbnb foram duas das empresas contempladas com o manancial de informações. Já a rede social Twitter viu vedado o acesso à base de dados do Facebook.

Esta lógica de porteiro de discoteca — sem que o utilizador tenha uma palavra a dizer — tornou-se pública quando uma comissão do Parlamento britânico, que está a investigar a proliferação de notícias falsas na internet, divulgou 250 páginas de correio eletrónico interno do Facebook trocado entre 2012 e 2015. O deputado conservador Damian Collins, que preside à comissão, justificou a divulgação, dizendo que “há considerável interesse público” e que a documentação “levanta questões importantes sobre a forma como o Facebook trata os dados dos utilizadores e exerce a sua posição dominante no mercado das redes sociais”.

Não há redes sociais grátis

A eurodeputada portuguesa Ana Gomes afirma ao Expresso não ter ficado surpreendida com as revelações. “Não é propriamente uma novidade para mim. Desde que, no Parlamento Europeu, escrevi um relatório sobre big data [grandes volumes de dados pessoais], percebi que o modelo de negócio das grandes plataformas digitais como o Facebook é recolher e dispor dos dados pessoais. Que façam uma triagem não me admira”, concretiza a socialista. E recorda: “Não há serviços prestados de graça pelas empresas digitais. São pagas em dados”.

Da análise da extensa documentação tornada pública resulta a ideia de que os dados dos utilizadores são mesmo o recurso mais valioso para o Facebook, que naqueles três anos se serviu deles, muitas vezes, para conseguir vantagens estratégicas. Na linha da frente da tomada de decisões estão o diretor executivo, Mark Zuckerberg, e a diretora de operações, Sheryl Sandberg. É a eles que cabe decidir o que fazer para beneficiar a rede social acima de tudo e manter os utilizadores ligados.

Numa troca de e-mails de 2012, Zuckerberg discutia o modo mais eficaz de cobrar aos criadores de aplicações pelo acesso aos dados e persuadi-los a partilharem os seus próprios dados com o Facebook. “Não é bom para nós, a menos que também partilhem connosco e que o conteúdo aumente o valor da nossa empresa”, escreveu então Zuckerberg. Em comunicado, o Facebook diz agora que os documentos revelados foram escolhidos de forma seletiva e enganadora para causarem embaraços à empresa. “Como em qualquer outra atividade, tivemos muitas conversas internas sobre as várias maneiras através das quais podíamos construir um modelo de negócio sustentável. Mas os factos são claros: nunca vendemos os dados das pessoas”, garante o Facebook.

“Dependemos deles!”

A revelação da documentação privada chega numa altura em que o Facebook está a braços com questões delicadas, como a alegada permissividade na disseminação de desinformação e ineficácia na salvaguarda dos dados dos utilizadores. A dupla de executivos já reconheceu que foi lenta a dar resposta a alguns dos problemas apontados. Zuckerberg explicou que a empresa limitou o acesso de certas aplicações e fez mudanças para evitar abusos, não deixando de sinalizar o “grande escrutínio” de que o Facebook é alvo.

O caso recente da empresa de consultoria política Cambridge Analytica, que abusou das informações fornecidas pelo Facebook, despertou algumas consciências que já se questionam mais, mas continuam a ter uma atitude passiva face à disponibilização de dados pessoais. “Os riscos da sua utilização por qualquer empresa, por qualquer departamento do Estado, são mais do que reais. Isto está a acontecer”, alerta Ana Gomes. Ainda está por apurar com exatidão o papel que a empresa de consultoria desempenhou, em 2016, no referendo do ‘Brexit’ e na eleição de Donald Trump.

Há um ponto, no entanto, em que a eurodeputada não tem dúvidas. “O Facebook sabia bem que negócios favorecia com uma empresa como a Cambridge Analytica. Mas há de haver mais... Não tenhamos ilusões! As plataformas digitais como o Facebook beneficiam de não haver regulação global”, alerta.

Em maio, entrou em vigor no espaço europeu o Regulamento Geral de Proteção de Dados, mas ele está “ainda a ser testado”, lembra Ana Gomes. Já nos EUA, “a vontade de regular não tem sido nenhuma”, até porque “muitos congressistas estão capturados por estas empresas”. A parlamentar espera para ver “o que se vai passar com o próximo Congresso americano, em janeiro”. Para já, e com as novas informações vindas a lume, alguns congressistas questionam-se sobre se Zuckerberg lhes disse a verdade quando testemunhou perante eles em abril.
“Temos de ter consciência de que só conhecemos a ponta do icebergue. Não sabemos tudo o que está a acontecer, o que está a ser feito com os nossos dados. Vivemos num mundo muito perigoso porque já dependemos destas empresas para tudo”, conclui a eurodeputada.