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Sai Merkel, entra... A eleição desta sexta-feira é uma estreia em mais de meio século

Adeus! Deixo-vos bem entregues a AKK, diria Merkel se pudesse

Ralph Orlowski / Reuters

Mil e um delegados escolhem esta sexta-feira o novo líder dos democratas-cristãos, no 31º congresso do partido, em Hamburgo. Após quase duas décadas de orientação ditada por Angela Merkel, a CDU vai poder optar entre uma via mais radical - defendida, à sua maneira, pelos candidatos Friedrich Merz e Jens Spahn - ou manter o ADN da continuidade, com Annegret Kramp-Karrenbauer. Nenhum destes nomes lhe sugere grande coisa? Há 18 anos também ninguém apostava alto na escolha do chanceler Helmut Kohl, a “sua menina” Merkel

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

É o fim de uma era. Sinal dos tempos, a União Democrata Cristã, CDU, elege o seu presidente pela primeira vez em mais de 50 anos. Acaba, assim, com as nomeações diretas, que fizeram tradição, mas que reduziram até agora drasticamente a participação direta dos membros do partido.

Num mundo cuja velocidade é ditada por comentários na “praça pública” e o impacto das redes sociais acontece ao segundo, a CDU chamou 1001 delegados representantes dos 16 estados federados a eleger o líder partidário que sucede a Angela Merkel.

Por inerência do cargo que preside ao partido até hoje mais votado nas eleições gerais, a/o herdeira/o de Merkel será o candidato a chanceler com maior probabilidade de vir a ser eleito nas legislativas de 2021.

É assunto sério e é o momento de os pesos-pesados da CDU se posicionarem. Foi o que fez o ex-ministro das Finanças e atual presidente do Parlamento Federal, Wolfgang Schäuble, o apoiar Friedrich Merz, ex-opositor frontal de Angela Merkel, que se retirou há dez anos da primeira linha da política partidária para seguir carreira na alta finança.

Friedrich Merz, Annegret Kramp-Karrenbauer e Jens Spahn à frente na candidatura

Friedrich Merz, Annegret Kramp-Karrenbauer e Jens Spahn à frente na candidatura

FOTO THILO SCHMUELGEN / REUTERS

Merz tem 63 anos, é advogado e foi líder parlamentar da CDU de 2000 a 2002, ano em que Merkel o afastou, e saiu do Parlamento em 2009. É um “speaker” hábil, pertence à fação mais conservadora e pró-mercado livre. Falta-lhe experiência governamental, mas transforma esse traço nas vantagens dadas pelo mundo dos investimentos, que lhe permitiu “observar a partir de fora” o mundo da “política e das decisões”.

Passaram 13 anos desde que Merkel foi eleita chanceler pela primeira vez, em 2005, e o seu legado dificilmente será posto em causa de um dia para o outro. No entanto, são muitos os que perguntam se as políticas que mais fortemente caracterizaram os seus mandatos, a austeridade económica e o acolhimento de migrantes e refugiados, não terão sido responsáveis pela capacitação das forças que tentam desfazer a Europa, como lembra um texto de análise do “New York Times”.

AKK manteria atributos também atribuídos à chanceler: trabalhadora, profissional, ponderada

AKK manteria atributos também atribuídos à chanceler: trabalhadora, profissional, ponderada

FOTO FABRIZIO BENSCH / REUTERS

Annegret Kramp-Karrenbauer não é propriamente a “protegida” de Angela Merkel, mas é sua aliada convicta e foi por ela nomeada, em fevereiro deste ano, para secretária-geral da CDU. AKK - nome por que é frequentemente referida - tem mantido o primeiro lugar nas sondagens de voto a este 31º Congresso. Aos 56 anos, abdicou do cargo de ministra-presidente do Sarre, eleição que venceu com claro aumento de votos, para estar “ao serviço da CDU”. Ainda que defenda uma política de centro na linha da da chanceler, nos tempos mais recentes tem afirmado a sua discordância em assuntos como migrantes, defendendo uma proibição definitiva de entrada na Europa a candidatos a asilo condenados por crimes sérios.

Jens Spahn é o terceiro na corrida à liderança da CDU, lugar para o qual foi remetido com a entrada em jogo de Friedrich Merz. Atual ministro da Saúde, Spahn tem 38 anos, é assumidamente gay e defende que a CDU tem de fazer “uma verdadeira mudança de geração” representa uma ala mais conservadora do partido.

Spahn tem poucas hipóteses de vir a ser eleito em Hamburgo, mas sairá da contenda em melhor posição para vir a liderar a proposta mudança de geração.

Há um assunto perante o qual os três candidatos têm uma posição coincidente, a Europa. Estão igualmente interessados em fazer que a Alemanha marque um caminho na Europa.

Apesar de deixar a liderança do partido, Angela Merkel tem legitimidade para terminar o mandato de chanceler para que foi eleita até 2021. Até lá, e apesar dos que acreditam na tensão que se desenvolveria entre ela e o presidente do partido, caso Friedrich Merz seja eleito, a chefe de Governo afirma: “Não tenho dúvida de que, se for esse o resultado, trabalharei bem com Friedrich Merz como com qualquer outro candidato.”