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Annegret Kramp-Karrenbauer pode até ser “AKK” para os amigos, mas nunca “mini Merkel”

AKK, 55 anos, metade deles na política

Foto Ralph Orlowski / Reuters

Os democratas-cristãos da Alemanha têm uma nova líder, a advogada de 56 anos Annegret Kramp-Karrenbauer, aliada de Merkel, mas que se recusa a “deixar as coisas como estão se os factos vão mudando”.

Ana França

Ana França

Jornalista

Era a escolha de Angela Merkel para o seu próprio lugar e foi a ela que o partido escolheu - ainda que por curta margem. Annegret Kramp-Karrenbauer, com 56 anos, antiga chefe do governo do estado federado do Sarre, é a nova líder da CDU (União Democrata-Cristã), o partido que a atual chanceler alemã, Angela Merkel, levou até aos maiores sucessos eleitorais da sua história. É possível que seja ela a liderar a maior economia europeia a partir de 2019 - isto se a ala direita do partido não lhe der problemas. Um ponto para a bancada dos moderados.

Por um lado, Kramp-Karrenbauer reforça a importância da continuidade - Merkel enfrentou duras críticas, mas milhões de alemães continuam a confiar na sua visão para o país - mas, por outro, assume-se como uma mulher com as suas próprias ambições e que não aprecia aparecer na imprensa descrita como a “mini-Merkel”.

“Tenho lido muita coisa sobre quem eu sou e sobre o que eu sou: uma ‘mini’, uma cópia, a continuidade do status quo. Caros delegados, estou aqui como sou, mãe de três filhos, ex-ministra do Interior, líder de um estado, dedicada a este país há 18 anos e com uma grande noção daquilo que é liderar. Sou o que a minha vida fez de mim e estou muito orgulhosa disso”, disse no discurso que antecedeu o voto. Para abreviaturas já basta o diminutivo “AKK”. É que o seu nome até para a extensa grafia alemã é longo.

Mais ouvidos

Em vez de andar em digressão com as suas ideias pela Alemanha, e tentando assim agradar a quem, dentro do partido, se queixava de que Merkel ouvia pouco as pessoas, Kramp-Karrenbauer percorreu os 16 estados do país anotando as exigências das pessoas e de representantes locais da CDU. Até chegou a visitar, nos Estados Unidos, trabalhadores de uma fábrica da BMW.

A sua posição conservadora, porém, não é sinónimo de “estagnação”. Durante a campanha, muitas vezes utilizou a estranha expressão “o poder normativo dos factos” que depois explicava com “estou pouco inclinada para deixar as coisas como estão quando os dados são outros”. Pragmática e sóbria como a sua antecessora, fez questão de dizer que a liderança tem “mais a ver com a força interior do que com o volume a que colocamos a voz”.

Kramp-Karrenbauer passou quase toda a sua vida adulta na política. Em 1981 começa a trabalhar para a divisão local da CDU na sua terra natal, Püttlingen. Depois de uma década como vice-presidente da importante ala feminina dos democratas-cristãos, acabou por entrar no comité nacional do partido em 2010. Foi, porém, já perto da crise da CDU que ela ganhou todo o capital político que lhe garantiu esta vitória. Meses antes da mais pesada derrota da CDU desde 1949 (o partido conseguiu apenas 32,9% do voto nacional nas legislativas de 2017), ela consegue 40% dos votos no estado Sarre: uma luz quando todas as outras pareciam ter-se apagado no caminho dos centristas.

Mais conservadorismo

Kramp-Karrenbauer é mais conservadora que Merkel, apesar de, nas suas intervenções públicas, a nova líder nunca se ter oposto à política mais controversa de Merkel: as “portas abertas” aos refugiados. Porém, Kramp-Karrenbauer já disse que “foram cometidos erros graves” na forma como a Alemanha lidou com a situação e defende uma selecção mais criteriosa das pessoas que entram no país, nomeadamente vedando a entrada a quem tenha registo criminal.

Também nas políticas de reinserção social, como por exemplo na atribuição de subsídios e de casas do Estado, Kramp-Karrenbauer é mais conservadora. Muito católica, e sendo-o mais abertamente do que Merkel e do que os seus opositores nesta luta pela liderança da CDU, Kramp-Karrenbauer é contra a publicidade a clínicas que ofereçam serviços de interrupção voluntária da gravidez e tem reservas quanto ao “casamento para todos”, o nome dado à lei que, há cerca de um ano, passou a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em outras coisas, como na defesa de um salário mínimo, está até mais perto do SDP, os sociais-democratas que são atualmente parceiros de governo da CDU.

A advogada, casada e com três filhos, tem uma história de grande fidelidade ao partido: há 18 anos que faz parte da estrutura e quase sempre esteve em cargos de responsabilidade. Foi ministra do interior do estado de Sarre antes de se tornar sua “primeira-ministra” e, este ano, foi conduzida ao cargo de secretária-geral da CDU com 99% dos votos. Nesta corrida pelo lugar de Merkel os números não foram tão esmagadores: AKK foi escolhida na segunda volta da votação do congresso do partido em Hamburgo, com 517 votos contra 482 de Friedrich Merz. Este resultado, tão próximo, antecipa um primeiro momento complicado para a nova líder que, a julgar pela votação, terá que convencer quase metade do seu partido.

Ao diário britânico “The Telegraph”, o analista político Dan Hough, professor de Política na Universidade de Sussex especializado em política interna alemã, disse que seria “uma luta por uma estrada íngreme”, mas mostrou-se otimista: “Ela é uma integradora e essa tendência natural que sempre demonstrou será muito útil. Ela até pode ter ganho a corrida, mas vai tentar que os seus oponentes não pensem que perderam”.

O poder de se ser “terra a terra”

O seu carácter, descrito pelos seus apoiantes como “humilde” e “acessível” é apontado como uma das razões que a levaram a vencer estas eleições. A ligação à pequena cidade de Püttlingen, no oeste alemão, onde nasceu e onde ainda vive e o facto de ser parte de uma família numerosa (é a quinta de seis irmãos) são outros dois fatores que podem ter levado a CDU a confiar na advogada para liderar o país na era “pós-Merkel”, uma era que durou quase 20 anos. Nesse tempo, e particularmente nos últimos cinco anos, em que a Europa foi palco de uma grande luta ideológica centrada sobretudo na imigração, Merkel assumiu-se como uma das maiores defensoras da União Europeia. Um já célebre cartoon da “Economist”, publicado quando Merkel visitou a Casa Branca tinha a seguinte legenda: “Líder do Mundo Livre encontra-se com Donald Trump”.

No discurso que fez antes da eleição da nova líder, Merkel alertou para um “futuro cheio de grandes desafios” focando principalmente os nacionalismos, a proliferação de notícias falsas, o ciberterrorismo e o Brexit.