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“Beto O’Rourke tem aquele estilo de Kennedy que este país almeja”

Beto O'Rourke, presidenciável segundo Obama

Adria Malcolm/REUTERS

Perdeu a disputa com o republicano Ted Cruz para o Senado por uma unha negra. Paradoxalmente, a derrota ampliou o seu capital político e subiu a pressão para que avance para a contenda democrata que tentará evitar um novo mandato de Trump. Passou pelo punk e foi preso duas vezes. Bateu-se pelos direitos LGBT e contra o êxodo de jovens da sua El Paso. Obama vê em Beto O’Rourke um presidenciável, mesmo que no passado recente este tenha desconsiderado o seu apoio. Afinal, “isto é o Texas”

Hélder Gomes

Hélder Gomes

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Jornalista

Disse que não seria candidato à presidência dos EUA em 2020, uma recusa que manteve antes, durante e pouco depois das eleições para o Congresso no mês passado. Acabou por perder a disputa com o senador republicano Ted Cruz no Texas por apenas 2,6%. Pelo caminho, angariou mais de 38 milhões de dólares no terceiro trimestre do ano, o máximo alguma vez angariado por uma campanha para o Senado em três meses. Desde então, tem crescido a especulação sobre se avança para tentar travar um segundo mandato de Donald Trump. Ele próprio já não parece ter tantas certezas. E, segundo avançou o jornal “The Washington Post” esta terça-feira, encontrou-se com Barack Obama em meados de novembro.

O antigo Presidente vê semelhanças entre uma eventual campanha de Beto O’Rourke e a sua própria campanha de 2008. Sobre a disputa nas intercalares, Obama disse: “O que eu mais gostei na corrida foi o facto de ele não parecer constantemente afetado pelas sondagens. Era como se ele sustentasse as suas declarações e as suas posições no que acreditava. E isso é normalmente como as coisas funcionam. Infelizmente, não foi.” Simultaneamente, O’Rourke está a ser pressionado para voltar a concorrer ao Senado, desafiando o senador John Cornyn, em 2020.

Na semana passada, O’Rourke concedeu que uma decisão final estaria dependente das conversas com a família. Um fator que poderá pesar são os três filhos, que já sentiram muito a ausência do pai durante a disputa para o Senado. Além de se ter encontrado com ele, Obama já se reuniu com outros potenciais candidatos democratas para as próximas presidenciais, como o senador independente Bernie Sanders, a senadora Elizabeth Warren e o antigo presidente da Câmara de Nova Orleães Mitch Landrieu.

“Se O’Rourke tem ou não boas hipóteses depende do resto do campo democrata. Com toda a especulação em torno de outros candidatos possíveis, o campo já parece lotado”, comenta ao Expresso a escritora e colaboradora do jornal “Huffington Post” Farrah Alexander. Um “campo lotado” preocupa-a porque teme que “um candidato realmente bom seja deixado para trás e a base democrata se torne fraturada”. “Como Obama, O’Rourke tem claramente o carisma e a paixão que galvaniza os democratas”, sublinha Alexander.

“E, NO ENTANTO, ISTO É O TEXAS”

Obama ofereceu-se várias vezes para ajudar na campanha para as eleições de 6 de novembro mas O’Rourke não gostava da ideia de ter vozes externas a dizerem aos texanos como votar. “Penso que não estamos interessados” numa manifestação de apoio do antigo Presidente, disse em outubro. “Estou-lhe muito grato pelo seu serviço, ele será considerado um dos melhores Presidentes. E, no entanto, isto é o Texas”, acrescentou. Ainda assim, Obama vê no congressista de 46 anos um dos raros políticos capazes de se ligarem a uma faixa ampla do eleitorado num país cada vez mais isolado.

Robert Francis “Beto” O’Rourke nasceu a 26 de setembro de 1972 em El Paso, no Texas. A sua família sempre lhe chamou “Beto”, inicialmente para o distinguir do seu avô homónimo. A mãe era dona de uma loja de móveis e enteada de Fred Korth, secretário da Marinha do Presidente John F. Kennedy. O pai foi comissário e depois juiz do condado. Entre o fim do liceu e o início da faculdade, O’Rourke foi estagiário de verão no escritório do congressista Ron Coleman, no Capitólio.

A proximidade com a constelação Kennedy não se esgota na mãe. Ainda hoje há quem detete em O’Rourke semelhanças com a família do 35.º Presidente dos EUA. É o caso do estudante universitário Chaz Nuttycombe, que, a partir de Richmond, na Virgínia, comenta ao Expresso: “Beto lembra-me o charme de John e a inteligência do irmão Robert. Ele é o que precisamos para derrubar Trump. 2016 foi uma eleição do ‘menor de dois males’, já que os dois candidatos [Trump e Hillary Clinton] não eram nada agradáveis. Mas O’Rourke tem aquele estilo de Kennedy que este país almeja.”

Beto O'Rourke com a sua esposa, Amy

Beto O'Rourke com a sua esposa, Amy

FOTO ADRIA MALCOLM/REUTERS

A MÚSICA PUNK E AS DUAS PRISÕES

O’Rourke desenvolveu uma paixão pelo punk depois de ouvir a música dos Bad Brains. Juntamente com dois amigos de El Paso, aprendeu a tocar instrumentos como o baixo e a bateria. Em 1991, quando estudava na Universidade de Columbia, o trio recrutou Cedric Bixler-Zavala e juntos formaram a banda Foss. No verão, fizeram digressões pelos EUA e Canadá, conhecendo a mulher que viria a assumir o nome artístico de Feist. Bixler-Zavala viria a tornar-se vocalista de bandas como At The Drive-In e The Mars Volta, dois nomes importantes na cena de El Paso no início do milénio.

Na faculdade, O’Rourke chegou a capitanear a equipa de canoagem e formou-se em 1995 com um diploma em literatura inglesa, sendo ainda fluente em espanhol. Em maio desse ano, ele e os amigos fizeram disparar um alarme quando se esgueiravam por baixo da cerca da unidade de física da Universidade do Texas, em El Paso, e foram presos sob acusações de assalto. Três anos mais tarde, voltou a ser preso na sequência de um acidente às três da madrugada por conduzir embriagado. O’Rourke reconheceu e assumiu a responsabilidade pelas duas prisões desde o início da sua vida pública.

A FUGA DE CÉREBROS E A GUERRA ÀS DROGAS

Depois da faculdade, trabalhou como empregado doméstico de uma família de Manhattan e como promotor de arte. Mais tarde, ajudou o tio numa pequena empresa que disponibilizava serviços de Internet, foi revisor de uma chancela editorial no Bronx e escreveu contos e canções no seu tempo livre. Em 1998, voltou a El Paso, onde se envolveu com organizações cívicas e grupos sem fins lucrativos com o intuito de travar o êxodo dos jovens que não encontravam oportunidades na cidade. Também fez parte dos conselhos de administração da Câmara Hispânica de Comércio e do Instituto de Política e Desenvolvimento Económico da universidade local.

Em meados de 2005, O’Rourke concorreu ao Conselho Municipal de El Paso numa plataforma que promovia o desenvolvimento da baixa da cidade e a reforma das fronteiras, derrotando o vereador Anthony Cobos e tornando-se um dos representantes mais jovens no Conselho. Dois anos depois, ganhou a reeleição para um segundo mandato. Em 2009, apoiou uma resolução que pedia um exame abrangente à “fracassada guerra às drogas” e a revogação de “leis ineficazes sobre a marijuana”. Prova do falhanço: as milhares de pessoas mortas na vizinha Ciudad Juárez, no México, sublinhou.

DIREITOS LGBT, MIGRAÇÕES E RETICÊNCIAS COM ISRAEL

Em 2012, iniciava-se em voos mais altos na política nacional ao vencer as primárias do Partido Democrata contra o veterano Silvestre Reyes, representando o 16.º distrito congressional do Texas. A campanha, marcada pela defesa dos direitos LGBT e pela liberalização das drogas, foi feita em grande parte a pé e terá batido a cerca de 16 mil portas. Enquanto congressista, foi um dos apoiantes de uma lei que permitia aos serviços de alfândega e proteção de fronteiras estabelecerem parcerias público-privadas com entidades locais. Na prática, financiava-se o pagamento de horas extraordinárias aos funcionários e reduzia-se o tempo de espera na fronteira.

Em 2014, foi reeleito e voltou a contestar práticas que normalmente não são objeto de contestação. O envio de largas somas de dinheiro para Israel sem debate nem discussão foi disso exemplo, defendendo que a política norte-americana de “apoio inequívoco” chega a ser prejudicial ao Estado judaico. No ano seguinte, anunciou a sua intenção de concorrer a um terceiro mandato em 2016, vencendo as primárias democratas e derrotando os seus opositores na eleição. No mesmo ano, apoiou a candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA.

Mas quando a liderança de Nancy Pelosi da minoria democrata na Câmara dos Representantes foi desafiada por Tim Ryan, O’Rourke apoiou Ryan. Na altura, afirmou acreditar na limitação de mandatos e, por isso, defendeu que estava na hora de uma nova liderança. Também definiu limites pessoais. O seu mandato termina a 3 de janeiro de 2019, sendo que já recusou concorrer à reeleição. Só os próximos tempos (e, já agora, os filhos) dirão se se está a guardar para disputar o nome democrata que terá Trump pela frente em 2020.