Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Morreu o ex-Presidente dos EUA George H.W. Bush

Jason Reed / Lusa

O antigo líder americano morreu na sua casa, em Houston, no Texas, ontem à noite. Tinha 94 anos e perdera há oito meses a mulher com quem foi casado 73 anos, Barbara Bush

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da secção Internacional

Editor da Secção Internacional

Morreu na sexta-feira à noite George Herbert Walker Bush, 41.º Presidente dos Estados Unidos da América (1989-1993), anunciou um porta-voz da família Bush. O político, pai do também ex-Presidente George W. Bush, tinha 94 anos e estava na sua casa de Houston, no Texas.

O republicano liderou os Estados Unidos no final da Guerra Fria, tendo o seu mandato de quatro anos ficado marcado pela primeira Guerra do Iraque, na sequência da invasão do Kuwait por este país, a mando do ditador Saddam Hussein. Eleito para suceder a Ronald Reagan em 1988, seria derrotado pelo democrata Bill Clinton quanto tentou a reeleição, em 1992.

Nascido no Estado de Massachusetts a 12 de junho de 1924, George H.W. Bush foi congressista, embaixador na China e diretor dos serviços de informações dos Estados Unidos. Veterano da II Guerra Mundial, Bush foi vice-presidente de Reagan durante os seus dois mandatos (1981-89). Tem o recorde de longevidade entre os 45 presidentes americanos, seguido por James Carter, agora o mais velho antigo líder dos Estados Unidos, também com 94 anos.

Sucessores elogiam legado

Bush partilhava com o segundo Presidente, John Adams, a particularidade de ter visto um filho ascender ao mesmo cargo. George W. Bush — cuja eleição em 2000 fez o mundo passar a incluir as iniciais do meio no nome porque o pai era conhecido — sublinhou o “altíssimo caráter” do progenitor, a quem considera “o melhor pai que um filho ou filha poderiam pedir”. Adams liderou o país entre 1797 e 1801; o filho John Quincy Adams foi o sexto no cargo, entre 1825 e 1829.

O atual ocupante da Casa Branca reagiu à notícia elogiando a “liderança imperturbável” de Bush. “Através da sua autenticidade essencial, presença de espírito desarmante e compromisso inabalável com a fé, a família e o país, o Presidente Bush inspirou gerações de compatriotas americanos a prestar serviço público”, afirmou Donald Trump num comunicado conjunto com a sua mulher, Melania. O casal está em Buenos Aires devido à reunião do G20.

Também o antecessor de Trump, Barack Obama (que foi Presidente a seguir a Bush filho), destacou a dedicação de Bush, sublinhando a sua “noção de que o serviço público é um chamamento nobre e alegre”. Obama e a sua mulher, Michelle, recordaram que Bush “alargou a promessa da América a novos imigrantes e pessoas com incapacidades” e “reduziu o flagelo das armas nucleares”, além de ter gerido com “mão estável e diplomática” o período do final do século XX em que a União Soviética se desmembrou e “revoluções democráticas floresceram na Europa de Este”. Só assim foi possível, diz o 44.º Presidente dos EUA, “terminar a Guerra Fria sem disparar um tiro”.

“Nunca parou de servir”, afirmaram Bill e Hillary Clinton. O homem que arrebatou a Casa Branca a George H.W. Bush lembrou o tempo em que, após deixarem o poder, ambos colaboraram no apoio às vítimas do furacão Katrina, no Estado da Luisiana, em 2005. “A sua liderança notável e o seu enorme coração estiveram sempre patentes.”

Herói de guerra

Bush era filho do banqueiro senador Prescott Bush e de Dorothy Walker. Em criança, conhecido em casa como “Poppy”, mudou-se com os pais para o Connecticut. Frequentou um liceu fino de Massachusetts, a academia Phillips, onde se envolveu na vida académica, no jornal da escola e nas equipas de basebol e futebol.

A ida para a faculdade seria adiada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, no Havai, a 7 de dezembro de 1941, que ditou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial. Aos 18 anos o jovem Bush — a quem os companheiros chamavam “Skin” (Pele) por ser muito magro — alistou-se na Marinha, tendo combatido os nipónicos em batalhas no Oceano Pacífico. Em 58 missões de combate, o seu avião foi abatido, tendo Bush escapado de paraquedas e sido resgatado por um submarino após horas numa jangada, cercado pelo inimigo.

Ainda durante o serviço militar casou com Barbara Pierce, sua mulher durante 73 anos, falecida há meses. Tiveram seis filhos: George, Robin (que morreu na infância), Jeb (que concorreu sem êxito às eleições primárias de 2016), Neil, Marvin e Dorothy. O neto George P. Bush, filho de Jeb, também está envolvido na política, tendo sido eleito comissário do Registo Predial texano em 2014.

Do petróleo à política

Formado em Economia por Yale, Bush foi para o Texas e dedicou-se ao negócio do petróleo. Aos 40 anos era milionário e deu o salto para a política. Primeiro republicano a representar Houston na Câmara dos Representantes, em 1966, após uma candidatura falhada a senador dois anos antes. Tentaria de novo em vão o Senado, em 1970. No Congresso votou a favor da lei de direitos cívicos (contra o racismo) de Lyndon Johnson e foi um apoiante da guerra do Vietname, dos contracetivos e do fim do recrutamento militar obrigatório.

Após a derrota nas urnas, o Presidente Richard Nixon nomeou-o embaixador perante as Nações Unidas. Passados quatro anos, Gerald Ford (que ponderou o seu nome para vice-presidente mas acabou por preferir Nelson Rockefeller em 1974 e Bob Dole nas presidenciais de 1976) colocou-o em Pequim como chefe do Gabinete de Ligação americano, uma proto-embaixada. Nesta década de 70 Bush também foi presidente do Partido Republicano. Em 1976 tornou-se e diretor da CIA, num período em que os serviços de informações dos Estados Unidos apoiaram ditadores militares na América Latina.

Bush aspirou à Casa Branca mas a primeira tentativa, em 1980, fracassou: perdeu as primárias para Reagan, da ala mais conservadora do Partido Republicano, que depois o escolheria para candidato a vice-presidente. Discreto, dedicou-se a forjar uma rede de relações internacionais (estabelecendo contactos, não raro, em funerais de Estado em que representava Reagan) e a assegurar a ligação entre presidência e Congresso.

Dos anos 80 há a destacar o combate ao comunismo no mundo, a par com uma relação mais aberta com os soviéticos, favorecida pela ascensão de Mikhail Gorbachev, a desregulamentação da economia e o combate ao narcotráfico. Em 1985 Bush foi o primeiro vice-presidente a ocupar a presidência interinamente, durante oito horas, quando Reagan se submeteu a uma cirurgia ao cólon.

Pragmatismo, Iraque e Guerra Fria

Eleito para suceder a Reagan, contra o democrata Michael Dukakis (governador do Estado natal de Bush), George H.W. foi o centrista das primárias de 1988, face a rivais mais conservadores como Bob Dole. Bush foi o primeiro a saltar diretamente da vice-presidência para a chefia do Estado desde Martin van Buren, em 1836.

Os anos de Bush na presidência foram marcados pelas convulsões no planeta, incluindo intervenções militares no Panamá (contra o presidente Manuel Noriega), Somália (em guerra civil) e Iraque, na sequência da invasão do Kuwait, em agosto de 1990.

O líder americano conseguiu congregar 32 países aliados para uma guerra que teve início a 17 de janeiro de 1991, por via aérea, tendo a invasão terrestre começado a 24 de fevereiro. Bush foi criticado por muitos por não ter derrubado Saddam Hussein após assegurar a libertação do Kuwait — algo que o seu filho viria a fazer em 2003 — mas explicou que tal teria acarretado “custos políticos e humanos incalculáveis”, pois os americanos seriam “forçados a ocupar Bagdade e, efetivamente, governar o Iraque”. Palavras que se revelariam proféticas.

A guerra trouxe popularidade a Bush, que procurou utilizar esse prestígio para acelerar o processo de paz israelo-árabe. Quando concorreu à reeleição, porém, já a crise económica pesava mais na opinião pública americana do que as glórias do Médio Oriente.

A maior transformação do seu mandato resultou, porém, da queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria e da URSS. A cimeira Bush-Gorbachev de 1989, em Malta, é considerada um passo importante para o fim da escalada militar que ocupou grande parte da segunda metade do século XX. Em 1991 encontraram-se em Moscovo e assinaram o tratado START, de redução de armas estratégicas.

A nível doméstico, é obra sua o Acordo de Comércio Livre Americano (conhecido pela sigla inglesa NAFTA), com o Canadá e o México, que Trump substituiu há meses. Na Casa Branca a crise económica e os défices herdados de Reagan fizeram-no violar a notória promessa que fizera em campanha — “Leiam os meus lábios, não haverá mais impostos” —, o que terá contribuído para a derrota face a Clinton.

Desejou que astronautas americanos voltassem à Lua e chegassem a Marte, mas a sua obra neste campo ficou-se pelo lançamento da construção da Estação Espacial Internacional, ainda em órbita. Apoiante do direito ao porte de arma, entrou em conflito com a poderosa associação do sector, NRA, ao proibir a importação de certas espingardas semiautomáticas.

Popular na pós-presidência

Expulso da Casa Branca pelo eleitorado, Bush construiu a sua biblioteca (uma tradição de ex-presidentes americanos), no campus da Universidade do Texas (onde será sepultado, junto da filha Robin), e viu os filhos singrar na política. Jeb foi governador da Florida, George do Texas. Este foi presidente entre 2001 e 2009, altura em que o pai, até então conhecido como George Bush, passou a ser designado com as iniciais dos seus nomes do meio, H.W., ao passo que ao filho chamavam George W. Bush. Em certas ocasiões eram diferenciados pelo número de ordem que ocupam na lista de inquilinos da Casa Branca, Bush 41 e Bush 43. O filho pediu frequentemente conselhos ao pai durante os seus dois mandatos.

Quando fez 90 anos, em 2014, Bush cumpriu a promessa de saltar de paraquedas, perto da sua casa de férias no Maine, como fizera nos 75.º, 80.º e 85.º aniversários. Nas presidenciais de 2016 recusou-se a apoiar Trump e admitiu mais tarde ter votado em Hillary Clinton. O filho Jeb, candidato à nomeação republicana, fora muito mal tratado por Trump, tal como George W. Acresce que a mundivisão do atual Presidente não condiz com o pragmatismo exibido por Bush pai.

No ano passado, com os também ex-presidentes Carter, Clinton, Bush filho e Obama, angariou fundos para apoiar as vítimas do furacão Harvey, no golfo do Texas. Destacara-se, com Clinton, na ajuda aos afetados pelo tsunami asiático (2004), furacão Katrina (2005) e terramoto no Haiti (2010). Ainda que sofresse da doença de Parkinson e utilizasse cadeira de rodas desde 2012, eram frequentes as suas aparições públicas e a sua popularidade cresceu, sendo a sua prestação na Casa Branca, muitas vezes, favoravelmente comparado com as do filho e de Trump.