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Samuel Little. Matou mais de 90 mulheres e por vezes até se ri disso

Al Seib/ Getty Images

Escolhia as vítimas pela vulnerabilidade. Estrangulava-as até à morte no banco de trás do carro. Samuel Little precisou de semanas para contar tudo aquilo que fez. Lembra-se de tudo e, às vezes, ao recordar, ri-se. Diz ter matado pelo menos 90 mulheres

A prática era quase sempre a mesma: procurava mulheres junto de bares ou discotecas. Se estivessem sob o efeito do álcool ou de drogas, melhor. Raptava-as e, no banco de trás do seu carro, batia-lhes. Por vezes, tinha relações sexuais com as vítimas. Por fim, estrangulava-as até à morte. Samuel Little é, possivelmente, um dos maiores serial killers da história dos EUA, ao ter matado mais de 90 mulheres. No entanto, foi ele que teve de confessar todos os crimes.

Não mostrou qualquer sinal de remorso. Por vezes, ria-se, até, enquanto contava os crimes que cometeu. Durante semanas, o homem que atualmente tem 78 anos, de cabelos brancos e cadeira de rodas foi levado quase diariamente para uma sala onde relatava ao detalhe o que fez: como escolhia cada uma das mulheres, o que lhes fazia e onde deixava os corpos. Lembrava-se dos nomes e das caras de cada uma delas.

“Acreditem ou não, vi malvadez poucas vezes ao longo da minha carreira. Ao olhá-lo nos olhos, diria que é pura malvadez”, disse Tim Marcia, detetive da polícia de Los Angeles, em declarações ao jornal norte-americano “The New York Times”.

Bob Chamberlin/ Getty Images

Samuel já cumpria prisão perpétua pelos homicídios de três mulheres algures nos anos 1980, em Los Angeles, quando decidiu confessar o envolvimento em dezenas de outros casos. Até agora, as autoridades encontraram ligações a pelo menos 30 assassinatos, em pelo menos 14 estados norte-americanos. E é por isso que a sua confissão é levada tão a sério pela polícia, porque não há nada que a faça duvidar da responsabilidade de Samuel Little na morte de tantas mulheres.

“Quando terminarmos a investigação, acreditamos que Samuel Little será um dos mais prolíficos serial killers da história americana”, sublinhou Bobby Bland, advogado de Ector County, no Texas, onde este verão Samuel foi acusado de um homicídio acontecido em 1994.

Até agora, Gary Ridgway era o homem com mais condenações por homicídio: 49. Matou durante os anos 80 e 90. As autoridades acreditam que, caso a confissão seja verdadeira, Samuel vai ser o serial killer com mais crimes provados na história recente dos EUA.

Os crimes agora confessados por Samuel têm cerca de 50 anos. Aconteceram uns anos antes dos três homicídios pelos quais foi entretanto condenado e pelos quais está a cumprir pena.

Como se passou tanto tempo sem que a polícia desconfiasse? Primeiro, explica o “New York Times”, os crimes foram cometidos em locais muito distantes e, depois, há ainda a variante de que todos os anos uma série de homicídios ficam por resolver. Por fim, há o facto de quase todas as vítimas de Samuel serem mulheres pobres, com vícios de droga e álcool, ou seja, um perfil de pessoa que raramente era dada como desaparecida e em que, à época, eram investidos poucos recursos.

“Um psicopata carismático”

É possível que o leitor se esteja a questionar sobre as razões que levaram este homem a admitir a autoria de dezenas de mortes tantos anos depois. Primeiro, já estava condenado a passar o resto dos seus dias atrás das grades. Segundo, queria mudar de prisão. Queria deixar a penitenciária de Los Angeles, na Califórnia, para ir para a prisão de Ector County, no Texas. E terá também sido essa negociação que o fez admitir a culpa.

Bob Chamberlin/ Getty Images

Foi no começo de 2018 que James Holland, um agente texano, conseguiu a confissão de Samuel Little. Segundo os vários investigadores que interrogaram o homem ao longo dos últimos meses, Samuel gostava da atenção e da oportunidade de discutir ao detalhe cada uma das opções que tomou ao matar cada uma das suas vítimas. A cada entrevista, dava mais pormenores e mais nomes de mulheres mortas.

“É assustadora a clareza com que se lembra de alguns detalhes daquela altura. Recorda-se dos rostos e dos nomes”, controu Michael Mongeluzzo, um dos detetives que interrogou Samuel. Encontrou-o em outubro e, nesse dia, o homem confessou a morte de Rosie Hill, uma jovem de 20 anos.

As autoridades acreditam que eram motivações sexuais que moviam Samuel Little. “O estrangulamento era a forma como conseguia gratificação sexual”, apontou um dos investigadores. No entanto, confrontado com esta teoria, Samuel Little negou ser um violador - apesar de vestígios do seu sémen terem sido encontrados nos cadáveres da vítima.

Quem interrogou Samuel, falou num “psicopata carismático”, um antigo lutador de boxe do qual muito pouco se sabe sobre o seu passado. Em alguns interrogatórios disse ser filho “de uma mulher da vida” e que terá nascido na prisão, durante um dos muitos períodos que a mãe passou detida. Foi criado no Ohio pelas avós.

Perguntaram-lhe como passou tanto tempo sem ser apanhado. “Posso ir ao meu mundo e fazer aquilo que quero. Não vou ao vosso mundo”, terá respondido Samuel Little, referindo-se aos bairros onde cresceu e viveu toda a vida, onde a pobreza, a dependência de droga e os crimes por resolver são comuns.