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Jonestown. Maior suicídio coletivo da história aconteceu há 40 anos

Em 1978, mais de 900 pessoas numa comunidade na Guiana beberam uma mistura com cianeto, instigadas por Jim Jones, o líder do culto Templo do Povo. O que começou por ser um movimento religioso, de inspiração socialista e preocupações com a igualdade, acabou em tragédia. Os seus contornos estão ainda por explicar

Ficou para a história como o maior suicídio coletivo alguma vez ocorrido, mas 40 anos depois Jonestown é ainda um mistério, sendo difícil avaliar quantas das 918 pessoas encontradas mortas na selva de Guiana, na América do Sul, se suicidaram de facto, e quantas foram assassinadas. O homem que o podia esclarecer, Jim Jones, um carismático pastor evangélico norte-americano que fundou a Comunidade Templo do Povo, morreu também nesse dia 18 de novembro de 1978, depois de comandar a tragédia, servida em copos de sumo com cianeto: “Acabemos com isto já. Acabemos com esta agonia”.

Aquilo que começou anos antes como um culto de inspiração religiosa/socialista terminou assim como um ato de loucura, resultado do delírio de um mentor fanático e prepotente, à imagem dos que costumam lidererar as mais duvidosas seitas.

A história de Jonestown parte de um contexto político favorável aos ideais que a fermentaram. Em 1955, em plena psicose nuclear, resultado da Guerra Fria, Jim Jones lança o Templo do Povo, em Indianápolis, nos EUA. A notoriedade conquistada como defensor dos direitos dos homossexuais e como membro ativo na luta contra o racismo valeram-lhe seguidores de imediato.

Dava o exemplo. Com a mulher, Madeleine, adotou seis crianças de diferentes etnias e fez da sua ‘igreja’ um meio para espalhar uma mensagem que unia princípios do cristianismo com a utopia do modelo de sociedade socialista, insistindo na defesa da igualdade racial. O grupo cresceu, acabando a sede do movimento por ser transferida para São Francisco, na Califórnia, na década de 1970. Em todo o estado foram abertos locais de culto, a certa altura com o Templo a somar quase 20 mil membros.

Com um discurso sedutor, Jones doutrinava sobre o iminente apocalipse nuclear e, em 1974, começa a delinear uma alternativa para os seus seguidores escaparem a um mundo condenado, atordoado pelas drogas e pelo álcool. Era o tempo das comunas ‘hippies’ e o líder espiritual deseja encontrar um lugar tranquilo onde viver em comunidade, respeitando os ideais da igualdade e da justiça.

Esse paraíso remoto acabou por ser fundado na Guiana, uma ex-colónia britânica situada ao lado da Venezuela, em 1977. Jones atraíu para este ‘mundo melhor’ perto de mil pessoas que, apesar da dureza das condições em plena selva, com um calor imenso que os fazia trabalhar sob temperaturas de 38 graus, cultivavam alegremente os seus próprios alimentos e educavam os filhos em conjunto.

Mas a passagem do tempo foi mudando o entusiasmo inicial. Na mesma proporção com que faltavam mantimentos - a base das refeições pouco mais seria que arroz e legumes - e que o encanto da utopia esmorecia para muitos dos seguidores, foi crescendo o autoritarismo do mentor de Jonestown.

Geria a comunidade com mão de ferro, castigava quem a queria abandonar ou não cumpria o que ordenava, dando inclusivamente mostras de o seu estado mental se estar a deteriorar. Isso indicavam as “noites brancas”, rituais por si criados, autênticos processos de ‘lavagem ao cérebro’, em que apregoava supostas ameaças contra o paraíso onde viviam, ataques vindos de “traidores” e “porcos capitalistas”, alguns dirigidos mesmo pela CIA. Nessas noites simulavam-se suicídios com cianeto e outras substâncias, como prova de lealdade.

Eram apresentadas quatro opções: fugir para a União Soviética, cometer um “suicídio revolucionário”, ficar em Jonestown e combater os inimigos, ou fugir para a selva.

Visita de congressista precipitou o desfecho

Laura Johnston Kohl, uma das poucas pessoas a escapar da tragédia, tem boas recordações. “O meu trabalho era significativo e satisfatório”. Na comunidade encontrou um sentido para a vida, depois de um casamento falhado e um percurso marcado pelo ativismo, e não vê esta passagem como “uma parte infeliz da minha vida”.

Reconhece, porém, que Jonestown “não estava preparado para tanta gente” e o seu líder começou a não aguentar “a pressão”. Em especial quando foi anunciada a visita de um congressista, Leo Ryan, preocupado pelas denúncias crescentes nos Estados Unidos de familiares preocupados com relatos de abusos chegados da Guiana. Havia gente retida contra a sua vontade, diziam, e era preciso perceber bem o que por lá se passava.

Ryan resolveu fazer a deslocação, levando consigo uma comitiva, incluindo alguns jornalistas. Aproximidade da sua chegada tornou Jones mais nervoso. Ainda assim, em novembro de 1978 quando o congressista chegou, foi-lhe reservada uma receção amigável, onde a comunidade se mostrou organizada e feliz.

Ao certo não é possível descrever o que precipitou a reviravolta seguinte. Sabe-se que cerca de uma dezena de seguidores manifestaram o desejo de regressar aos Estados Unidos e que, quando se preparavam todos para o voo de regresso, vários homens armados, oriundos do Templo do Povo, atacaram o grupo, matando cinco pessoas. Leo Ryan foi um deles.

Foi na sequência desta emboscada que Jim Jones ordenou o suicídio coletivo, dizendo que os militares voltariam para vingar o ocorrido e que levariam as crianças. Como tantas vezes simulou nas “noites brancas”, reuniu todos e deu-lhes a beber uma mistura. desta vez realmente envenenada.

Laura Kohl recorda que havia saído do edifício do Templo do Povo em Georgetown - onde tinha sido colocada entretanto - e que, por isso, não ouviu a mensagem que chegou via rádio. A partir da comunidade na Guiana, o líder instruiu os seus seguidores a cometer o tão falado “suicídio revolucionário”. Até hoje não sabe o que poderia ter acontecido se a tivesse escutado. Sabe que, ao voltar, encontrou agentes policiais a recolher os corpos da secretária e dos filhos. “Tínhamos poucas opções. Não sei o que teria feito se lá estivesse também”.

A notícia das outras mortes chegou depois. Mais de 900 pessoas, incluíndo várias crianças. Há quem fale em massacre, e não em suicídio coletivo para descrever o que aconteceu. Porque os bebés não tomam bebem sumo com cianeto de livre vontade e sobre os outros, os adultos, é firme convicção de quem investigou este episódio que muitos terão sido coagidos.

Jim Jones morreu também nesse dia, mas preferiu um tiro de caçadeira, que o impediu de sofrer a agonia dolorosa reservada aos demais.