Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Histórias de salvação e de angústia pelos desaparecidos no maior incêndio da Califórnia

Marcus Yam/ Getty Images

As chamas ainda não queimaram tudo o que têm para queimar, preveem as autoridades. Pelo menos por mais 11 dias, Paradise deve continuar a arder: 76 pessoas morreram, perto de dez mil casas foram destruídas. Mais de mil estão desaparecidas

Kevin McKay é condutor de um autocarro escolar há poucos meses na escola básica de Ponderosa, em Paradise, no norte da Califórnia. Durante cinco horas, conduziu pelas estradas cheias de fumo, pelas paisagens totalmente queimadas, pelo calor das chamas. McKay é um dos heróis deste drama: levou 22 alunos para fora da zona de perigo do Camp Fire, o grande incêndio que tem deflagrado na região. Quando o fumo chegou ao interior do autocarro, tirou a t-shirt e rasgou-a em pedaços, que ensopou em água e distribuiu pelos miúdos. Todos eles estão bem e em segurança.

A família Allen teve de se separar: num carro foi Whitney com a filha de oito meses; noutro foi Joe e a filha mais velha, Olivia, de três anos. Num vídeo partilhado nas redes sociais, o céu é vermelho – pode ser noite ou dia, não se percebe ao certo. No carro, Joe canta para acalmar Olivia: “Baby it' will be alright”. Todos eles estão bem e em segurança.

David William Marbury tinha uma casa em Paradise. Ninguém sabe o que lhe aconteceu. A sobrinha, Sadia Quint, procura-o: “Já sabemos que a casa ficou totalmente destruída e que o carro estava na garagem. Agora, esperamos apenas que as autoridades vão ver se o corpo está lá ou não”. Mantém-se paciente porque sabe que, tal como ela, muitas pessoas na cidade aguardam pelo trabalho das equipas de salvamento e resgate para confirmarem as vítimas mortais. Sadia está preparada para o pior, assegurou. O tio tinha problemas respiratórios e, desde que o incêndio começou, não recebeu qualquer notícia.

Casos como estes replicam-se nos meios de comunicação norte-americanos (a de McKay e de Marbury na CNN, a de Olivia e do pai na FOX). Há várias histórias de salvação a serem tornadas públicas, mas parecem ser cada vez mais aquelas que dão conta de pessoas desaparecidas.

Há dez dias que o Camp Fire arde. Deve continuar por pelo menos mais 11, prevê a Cal Fire, agência estatal para a floresta e proteção contra o fogo. O incêndio começou em Butte County (nos arredores de Sacramento) a 8 de novembro. Já fez 76 mortos, queimou 600 km2 e destruiu 12.794 estruturas. Até ao momento, só 65% do incêndio está controlado.

A este, junta-se mais outro fogo no sul da Califórnia: o Woolsey, que já fez três mortos, queimou 390 km2 e destruiu perto de 1500 estruturas. Deve estar controlado dentro de três dias.

1000 desaparecidos?

As autoridades estimam que as chamas do Camp Fire tenham estado na origem do desaparecimento de 1300 pessoas, segundo a lista de nomes divulgada no sábado. O número é invulgarmente grande. Entretanto, no domingo o número foi fixado em 993.

“É uma lista dinâmica. Oscilará para cima e para baixo cada dia”, disse aos jornalistas, o responsável do condado, Kory Honea, citado pelo diário Los Angeles Times. Não foi esclarecido o motivo de uma diferença de quase 300 pessoas. No entanto, um dos maiores problemas, explicou a polícia local, é a duplicação de nomes.

Neste momento, há milhares pessoas a serem retiradas de casa, outras já estão em abrigos ou residências temporárias e tem sido complicado seguir o rasto de cada uma delas.

A complicar os trabalhos de resgate, há o facto de Paradise ser uma região maioritariamente habitada por pessoas com mais de 65 anos. “Temos muita gente de idade e alguns já não conduzem”, sublinhou Eric Reinbold, chefe da polícia local, citado pela BBC. É também provável que estas pessoas não tenham acesso a Internet ou telemóvel, o que dificulta o contacto com familiares.

Alguns nem sabem que estão à procura deles, disse o Sheriff Honea, que na sexta-feira defendeu a publicação da lista total desaparecidos, apesar de todos os possíveis erros. “Não posso deixar que a perfeição interfira no progresso. Para nós, é importante que a informação saia para que se consiga começar a identificar este sem número de pessoas.”

O Camp Fire praticamente devastou Paradise, uma vila de 27 mil habitantes, e destruiu parcialmente as localidades vizinhas de Magalia e Concow. Este é o incêndio mais mortífero da história da Califórnia desde que existem registos.

Texto atualizado às 14h41