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Biografia de Gorbachev detalha cimeira de Reiquiavique e a retirada de Cabul

A extensa biografia retrata com detalhe os primeiros anos da vida de Mikhail Gorbachev, nascido em 1931, numa aldeia do norte do Cáucaso, os estudos em Moscovo e o trabalho como dirigente político em Stavropol, nos anos de 1960, antes da ascensão pela mão de Yuri Andropov (ex-líder do KGB e secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, entre 1982 e 1984)

O académico norte-americano William Taubman, autor da biografia de Mikhail Gorbachev, disse à Lusa que continuam por esclarecer muitos aspetos relacionados com o fim da União Soviética, nomeadamente, a retirada militar do Afeganistão.

“O que me perturba sobre o Afeganistão é que quando Gorbachev chega ao poder, em março de 1985, ele tinha uma lista sobre as coisas que precisava de fazer e um dos primeiros pontos é: ‘Sair do Afeganistão’, mas eles só saíram até 1989. Passaram-se quatro anos. O que aconteceu?”, questiona o historiador que enumera várias explicações para o adiamento.

“Creio que foi um pouco como os Estados Unidos na Guerra do Vietname. Havia compromissos com aliados locais. Estavam preocupados com a perceção mundial. Militares, serviços secretos e mesmo o ministro dos Negócios Estrangeiros defendiam que a União Soviética tinha de ficar na guerra. Gorbachev com o Afeganistão enfrenta o mundo real e todas as suas complexidades”, sublinha Taubman.

Dos vários momentos da política internacional o historiador considera a cimeira com os Estados Unidos sobre armas nucleares, em 1986, na Islândia, um momento que considera singular do legado político do ex-líder soviético

“Os momentos mais extraordinários estão relacionados com a Cimeira de Reiquiavique. A grande surpresa está relacionada com os motivos que fazem com que o líder comunista e o conservador Ronald Reagen se relacionem tão bem? Parte da resposta é que ambos acreditavam que era possível abolir as armas nucleares”, acrescenta, sublinhando que os dois líderes mundiais acreditavam na mudança em relação ao armamento.

“Margareth Thatcher era contra, muitos norte-americanos eram contra, assim como a ala dura dos militares soviéticos. Mas os dois líderes eram utópicos em relação a esta matéria: queriam abolir as armas nucleares e, mais do que isso, davam-se bem, havia uma química pessoal e eu tento desmontar isso mesmo mostrando as similitudes em ambos os homens. Em Genebra decidem que podem negociar e, em Reiquiavique, ficaram a um passo muito pequeno da abolição das armas nucleares”, refere o historiador que destaca o desastre nuclear de Chernobyl (1986) como um momento crucial sobre a dramática realidade soviética.

“Chernobyl foi um momento muito importante. Ele [Gorbachev] já sabia que muitas coisas não funcionavam, mas esse foi um momento crucial de todo o sistema porque se tratava da ciência atómica e nuclear. Era o setor mais avançado onde estavam aqueles que ele mais respeitava e admirava, mas mesmo eles não lhe disseram a verdade sobre o que se estava a passar”, indica o autor da biografia do antigo líder soviético, referindo-se às tentativas de encobrimento sobre o estado da central nuclear.

“Tentaram encobrir os factos e o que estavam a encobrir era um acidente nuclear e isso mostrou-lhe que até o melhor setor do regime estava apodrecido, mas também lhe deu a noção sobre os efeitos da eventual utilização de uma bomba nuclear”, considera Taubman.

A extensa biografia retrata com detalhe os primeiros anos da vida de Gorbachev, nascido em 1931, numa aldeia do norte do Cáucaso, os estudos em Moscovo e o trabalho como dirigente político em Stavropol, nos anos de 1960, antes da ascensão pela mão de Yuri Andropov (ex-lider do KGB e secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética entre 1982 e 1984).

“Para gente como Andropov, Gorbachev era o homem novo soviético, o produto perfeito do comunismo. Era inteligente, tinha estudos académicos, era honesto, incorruptível. Era uma espécie de modelo. Não bebia e tratava bem a mulher. Ele próprio chegou a perguntar à mulher [Raisa] qual foi o ponto de viragem, e ela respondeu: foi o ‘fator Andropov’”, relata o historiador que, ao longo da obra, levanta questões diretas não só apenas sobre Gorbachev mas também sobre momentos políticos especificos, dando muitas vezes várias respostas que ajudam a compreender a situação investigada.

“Estas são questões que eu faço a mim próprio. Não é uma técnica, mas sim uma reação natural em relação ao material em estudo”, explica.

William Taubman, 78 anos, professor de Ciência Política, é autor do livro "Krushchev: The Man and his Era", prémio Pulitzer para biografia em 2003.

O livro “Gorbachov – A Biografia”, de William Taubman (Edições Desassossego, 862 páginas), incluiu fotografias e vai ser apresentado hoje em Lisboa.