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O ‘day after’ de Trump e a agenda dos republicanos

JONATHAN ERNST / Reuters

Ao considerar os resultados eleitorais de terça-feira uma “tremenda vitória”, o Presidente dos Estadios Unidos parece indicar que não se deixará afetar pelo entusiasmo na ala democrata do Congresso, agora em maioria na Câmara de Representantes, nem deverá alterar a sua estratégia política

Ricardo Jorge Pinto, da agência Lusa

O Presidente dos EUA, Donald Trump, desvaloriza os resultados das eleições intercalares de terça-feira e aposta em não mudar de estratégia política, mesmo com um Congresso hostil. Um dito dos antigos cowboys do oeste americano dizia que "não se muda de cavalo a meio do rio". Mas a tradição política americana diz que, a meio do seu primeiro mandato, os Presidentes dos EUA tendem a confrontar-se com perdas de popularidade e resultados de eleições intercalares desaforáveis – assim tem acontecido nas últimas décadas e Donald Trump não foi exceção.

Nessa situação, a reação generalizada dos Presidentes nestes momentos é refugiar-se na política externa, onde a Casa Branca goza de alguma autonomia e onde os ataques dos adversários políticos costumam ser mais brandos.

E não faltam palcos externos para Donald Trump: desde o incremento de pressão junto do governo do Irão à revisão de tratados comerciais internacionais, há muito terreno politicamente favorável ao Presidente para adiar os confrontos com o Congresso nas questões internas.

Ao considerar os resultados eleitorais de terça-feira uma "tremenda vitória", Trump parece indicar que não se deixará afetar pelo entusiasmo na ala democrata do Congresso, agora em maioria na Câmara de Representantes, nem deverá alterar a sua estratégia política.

"Depois de Trump ter assumido que esta eleição era sobre ele, vai dizer que a derrota não foi por culpa dele. E irá culpar terceiros: os media com as suas mentiras, os candidatos republicanos que não seguiram a sua agenda ou Paul Ryan (líder republicano da Câmara de Representantes), por estar mais preocupado em criticar o Presidente", explica Nuno Gouveia, especialista em política americana.

Também Jeff Lisk, politólogo da Universidade de Georgetown, acredita que Trump não introduzirá grandes alterações na sua agenda e nas suas prioridades: "Há algumas semanas que ele tinha percebido que iria perder a Câmara de Representantes, por isso se dedicou a fazer campanha nos Estados onde eram as corridas para o Senado que estavam em causa. Para preservar a sua margem política e não ter de mudar muito".

Segunda-feira, véspera das eleições intercalares, numa declaração num aeroporto de Indiana, Trump dava sinais de adivinhar uma alteração na relação de forças no Congresso: "Vamos ter de trabalhar de forma um pouco diferente. Mas resolveremos isso".

Em contramão com esta posição do Presidente, Nancy Pelosi, líder democrata na Câmara de Representantes, no discurso de anúncio da recuperação da maioria na câmara baixa do Congresso dizia: "Amanhã é um novo dia".

Mas Pelosi teve a resposta minutos depois, pela boca de Sarah Sanders, a porta-voz da Casa Branca: "O Presidente trabalhará com quem lhe aparecer no escritório. Temos muita coisa na nossa agenda e queremos cumpri-la".

Agendas desencontradas

O problema de Donald Trump é que a sua agenda não coincide em nada com a agenda democrata e vários congressistas eleitos na noite de terça-feira já anunciaram que tencionam escrutinar a vida pessoal e profissional do Presidente.

A intenção de iniciar um processo de 'impeachment' [destituição] a Trump, por suspeita de conluio com uma alegada interferência do governo russo nas eleições presidenciais de 2016, foi já anunciada pelos democratas, como foi deixada em vários comícios a ameaça de obrigar o Presidente a revelar antigas declarações fiscais.

"Talvez o queiram tentar, mas ele vai manter-se fiel à sua própria agenda", respondeu, domingo, Kelly Conway, uma das mais próximas conselheiras políticas do Presidente, que o acompanhou em alguns dos comícios da recente campanha, repetindo uma mesma mensagem: "Temos uma agenda de reformas e uma oportunidade única de as realizar".

Nessa agenda presidencial e republicana está um plano de cortes fiscais que ainda apenas se iniciou e que terá agora obstáculos mais difíceis, numa Câmara de Representantes de maioria democrata e onde vários novos congressistas republicanos, mais moderados (sobretudo os eleitos pela região da Nova Inglaterra), não estarão muito entusiasmados com essa medida de Trump.

"No fundamental, o Partido Republicano não lida bem com algumas das ideias mais radicais do Presidente", explicava, na passada semana, num debate televisivo, Tom Friedman, colunista, lembrando que recentemente esse mesmo partido já tinha introduzido várias atenuantes ao plano de cortes nos impostos, da mesma forma que já tinha recuado relativamente à tentativa de reverter o programa de ajuda de saúde Obamacare.

De resto, durante a campanha eleitoral, Trump já tinha moderado as suas críticas ao Obamacare, depois de ter visto vários candidatos a governadores pelo Partido Republicano a garantir que, se fossem eleitos, procurariam soluções de segurança social diferentes daquelas defendidas pela Casa Branca.

Por outro lado, num Congresso bem mais diversificado na sua composição (por exemplo, com vários congressistas oriundos de minorias e de uma faixa etária mais jovem), Trump também terá dificuldade em negociar medidas radicais na área da imigração ou do controlo de armas.

O Presidente, que acompanhou o dia eleitoral a partir de uma "sala de guerra" na Casa Branca, teve certamente acesso às sondagens à boca da urna que iam sendo divulgadas e que diziam que os eleitores confiam mais no Partido Democrata em temas na área da segurança e da imigração e que, maioritariamente, estão a favor de medidas mais restritivas para a venda e uso de armas (à revelia das promessas eleitorais de Trump).

Contudo, nem estes sinais poderão demover o Presidente do seu rumo. "Acredito que Trump irá manter o seu estilo, porque ele acredita que se foi assim que ganhou em 2016, será assim que irá vencer em 2020", explica Nuno Gouveia, mencionando que a forma divisiva de fazer política pode ser o seu melhor trunfo.

E, até hoje, o movimento de apoio a Trump não anunciou o cancelamento de nenhuma das iniciativas para angariar dinheiro para a sua reeleição em 2020.

Contudo, com os governos de mais oito estados nas mãos dos democratas (que já tinham uma vantagem de 16 relativamente aos republicanos), com autoridade para mexer nos círculos eleitorais para a próxima década (uma vantagem que tem sido aproveitada no passado para conseguir melhores resultados), esta ambição de Trump pode ficar um pouco mais dificultada.