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Eleições nos EUA. Onda democrata? Sim. Avassaladora? Nem por isso

ALEX HOFFORD

Os americanos elegeram, ontem, um Congresso mais diverso e mais repartido. O Partido Democrata recuperou a maioria na Câmara dos Representantes, o que os reforça na oposição a Donald Trump, mas os republicanos continuarão a dominar o Senado. Com mais mulheres eleitas do que nunca, os votantes escolheram também representantes de minorias étnicas e sexuais numa proporção inédita

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Numa noite sem surpresas, o Partido Democrata retomou o controlo da Câmara dos Representantes, a Câmara Baixa do Congresso dos Estados Unidos da América, que lhe fugia há oito anos. No Senado, de que apenas se renovava um terço e onde os democratas tinham mais lugares a defender do que os republicanos, a tarefa era praticamente impossível e a contagem de votos veio a confirmar a maioria para o partido de Donald Trump, provavelmente reforçada (à hora a que escrevo o escrutínio ainda decorre).

Quase sempre vistas como barómetro da popularidade do Presidente, as eleições de meio do mandato (midterms) de 2018 não foram exceção, com o próprio Trump a afirmar que um voto nos seus companheiros de partido seria como um voto em si. O veredicto do eleitorado é ambíguo, reflexo talvez da polarização em torno do chefe de Estado, como sugeriu a CNN, mas a noite foi de dano controlado para a Casa Branca. Para tal terá contribuído, entre outros fatores, a boa evolução económica dos EUA desde a tomada de posse de Trump.

O eleitorado “quer um contrapeso ao Presidente”, analisa “The New York Times”. A maioria democrata na Câmara dos Representantes era esperada (e são frequentes os recuos da força política no poder neste tipo de eleições, havendo apenas três exceções no último século e meio: 1934, 1998 e 2002). A nova relação de forças na câmara baixa permitirá à oposição travar projetos polémicos de Trump e investigar casos que o envolvem e dá força ao procurador Robert S. Mueller, que averigua as ligações entre a campanha do milionário em 2016 e as interferências do regime russo no processo eleitoral. A composição do Senado desencoraja, contudo, a tentação de falar já em destituição do Presidente.

Para derrotar Trump em 2020, os democratas terão de fazer mais do que dois anos de oposição pela negativa. Deverão mostrar aos americanos que voltaram a ser dignos de confiança, que sabem ouvir e que a sua bancada se distingue não apenas pela maior diversidade (já lá vamos) mas por perceber que assuntos como o custo dos cuidados de saúde, as infraestruturas que precisam de renovação ou o combate à corrupção dizem tanto ou mais ao cidadão comum do que justíssimas causas centradas em minorias, que há que proteger. Falta ao partido, diz a CNN, um lema tão claro como o “Make America Great Again” de Trump, o qual, embora podendo significar o que cada um quiser, teve eco suficiente entre os votantes.

Outro aspeto das midterms é que servem muitas vezes de rampa de lançamento para as presidenciais. As próximas são dentro de dois anos e não há um favorito, do lado democrata, para desafiar Trump. Estrelas ascendentes como Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke foram batidas nas urnas e perderam gás (a derrota deste último para o ultraconservador Ted Cruz selou a maioria republicana no Senado), a favor de nomes como o dos senadores Sherrod Brown, Kirsten Gillibrand e Amy Klobuchar ou da representante Alexandria Ocasio Cortez (esta, a mais longo prazo). Brown e Klobuchar têm o mérito de ganhar em Estados (Ohio e Minnesota, respetivamente) vencidos por Trump em 2016. No Ohio e na Florida, decisivos em qualquer corrida à Casa Branca, a vitória para governador sorriu aos republicanos.

Maior diversidade

Esta vaga (que não maremoto) do Partido Demorata desenhou-se muito no feminino. O sexo que Trump trata com desdém esteve mais representado do que nunca entre os candidatos e houve vitórias históricas em nome da diversidade: Rashida Tlaib (Michigan) e Ilhan Omar (Minnesota) serão as primeiras representantes muçulmanas no Congresso, sendo de notar que Omar chegou aos EUA há mais de 20 anos na qualidade de refugiada vinda da Somália; Ayanna Pressley, a primeira negra eleita pelo Massachusetts; Sharice Davids (Kansas, também a primeira homossexual eleita por este Estado) e Deb Haaland (Novo México) são as primeiras nativas americanas no Congresso. O conservador Tennessee manda pela primeira vez uma mulher para o Senado, a republicana Marsha Blackburn, e o Colorado terá em Jared Polis o primeiro governador homossexual de sempre nos Estados Unidos.

A nível dos governadores (ontem havia eleições para este cargo em 36 dos 50 estados), nomes como Gretchem Whitmer (Michigan), Laura Kelly (Kansas) e Michelle Grisham (Novo México) ou Kristi Noem (Dacota do Sul) fazem história num país onde só há seis governadoras e 22 estados nunca tiveram uma mulher à frente do executivo. À hora a que escrevo Stacey Abrams ainda tem hipóteses (ainda que estreitas) de ser a primeira governadora negra da Geórgia. No Congresso, é provável que a veterana Nancy Pelosi volte a ser eleita speaker da Câmara dos Representantes, cargo que ocupou nos tempos de Barack Obama.

A eleição de mais mulheres ou de legisladores de minorias religiosas, étnicas ou sexuais não garante, por si só, melhor trabalho no Congresso. Mas é inegável que leva a que este espelhe de forma mais fiel a diversidade de que se constrói o grande país que ontem foi a votos. Caberá aos eleitos dar provas de que isso se traduz em legislação e medidas em prol da cidadania. Dito isto, é claro que um Senado e uma Casa Branca dominadas por homens conservadores aconselham sobriedade na celebração destes feitos.