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“Os afroamericanos e os latinos são o coração e a alma do Partido Democrata”

Os afroamericanos e os latinos tendem a não votar tanto como os brancos nas eleições legislativas como nas presidenciais, o que pode influenciar os resultados dos democratas nas eleições de 6 de novembro para o Congresso

JEWEL SAMAD/ AFP / Getty Images

Os democratas “sempre tiveram dificuldades em estimular os votos latinos e afroamericanos nas eleições não-presidenciais”, como são as eleições da próxima semana para o Congresso. E, no entanto, os dois grupos demográficos são frequentemente decisivos. O Partido Democrata não pode confiar no discurso racista de Trump para mobilizar este eleitorado tão crucial, defende um analista político, no primeiro dos artigos sobre as eleições intercalares nos EUA que vamos publicar ao longo desta semana e que culminarão, na sexta-feira, com uma análise de Clara Ferreira Alves

A história é conhecida. Em 2016, a candidata democrata Hillary Clinton venceu o voto popular mas não se sentou na Sala Oval por várias razões. Há quem defenda que foi por não ter conseguido amealhar tantos votos afroamericanos e latinos como o antigo Presidente Barack Obama. A tese foi defendida ao Expresso pelo sociólogo e comentador político DaShanne Stokes, para quem “a importância destes votos não pode ser subestimada”.

Há um dado que importa acrescentar quando falta pouco mais de uma semana para as eleições de 6 de novembro para o Congresso: a taxa de participação tende a ser mais baixa nas eleições legislativas do que nas presidenciais. “E os afroamericanos e os latinos tendem a não votar tanto como os brancos”, acrescenta o sociólogo. Há dois anos, “a taxa de participação também beneficiou o candidato Donald Trump, com menos afroamericanos a saírem de casa para votar Clinton do que era necessário para a candidata vencer o colégio eleitoral”, recorda Stokes.

A escritora e colaboradora do jornal “Huffington Post” Farrah Alexander concorda que “os eleitores afroamericanos e latinos são uma parte extremamente importante do eleitorado”, algo que “ambos os partidos parecem reconhecer”. Por exemplo, “os eleitores afroamericanos, especialmente as mulheres negras, votaram contra homens acusados de conduta sexual imprópria como Donald Trump ou [o juiz do Supremo Tribunal do Alabama] Roy Moore, enquanto as mulheres brancas votaram a favor”, lembra Alexander.

“O INTERESSE DOS NEGROS E HISPÂNICOS NESTAS ELEIÇÕES NÃO TEM PRECEDENTES”

Os eleitores latinos constituem um eleitorado “enorme e em expansão”, que “tem influenciado grandes disputas”, como a corrida para o Senado entre o republicano Ted Cruz e o democrata Beto O’Rourke, exemplifica Alexander. Mas se defende que estes dois tipos de eleitores devem ser seriamente considerados nas eleições para o Congresso, a autora diz ao Expresso que “os políticos devem ter o cuidado de não os favorecer”. “Eles são extremamente críticos e diversos no seu pensamento e cuidado em relação a uma série de questões”, explica.

Ron DeSantis à chegada a uma ação de campanha na Florida. O candidato dos democratas tenta recuperar o atraso para o seu adversário conservador Andrew Gillum

Ron DeSantis à chegada a uma ação de campanha na Florida. O candidato dos democratas tenta recuperar o atraso para o seu adversário conservador Andrew Gillum

FOTO PAUL HENNESSY / NURPHOTO VIA GETTY IMAGES

Para o gestor de relações públicas Russell Schaffer, “os afroamericanos e os latinos são o coração e a alma do Partido Democrata”. “A menos que haja uma forte participação dos dois grupos, as hipóteses dos democratas em estados-chave como Florida, Nevada ou Geórgia, por exemplo, são mais baixas em 2018 [eleições legislativas] e 2020 [presidenciais]”, alerta. Apesar de o interesse nestas eleições a meio do mandato normalmente decair, Schaffer comenta ao Expresso que “o interesse dos negros e dos hispânicos nas eleições [de 6 de novembro] é extremamente alto”, até mesmo “sem precedentes”. “Os democratas sempre tiveram dificuldades em estimular estes dois grupos nas eleições não-presidenciais. Por outro lado, este ano há “um número recorde de negros e hispânicos a concorrer, quase todos democratas”, o que acaba por aumentar a taxa de participação dos grupos.

GEÓRGIA E FLORIDA TERÃO PRIMEIROS GOVERNADORES NEGROS?

Se vencerem, a candidata democrata Stacey Abrams e o também democrata Andrew Gillum serão os primeiros governadores negros dos estados a que concorrem, Geórgia e Florida, respetivamente. E de acordo com as mais recentes sondagens, ambos têm boas hipóteses de ganhar. Contudo, como lembra Schaffer, no Texas os democratas nomearam Lupe Valdez, ex-xerife do condado de Dallas e lésbica assumida, e é muito improvável que ela ganhe. “Os eleitores hispânicos do Texas tendem a ser um bocado mais conservadores do que os hispânicos da Califórnia, Nova Iorque ou Illinois”, justifica.

Apesar de reconhecer que “os afroamericanos e os latinos são tradicionalmente eleitores confiáveis dos democratas”, o advogado Richard Hornsby sublinha que o apoio destes grupos “nem sempre se traduz no ato de comparecer nas urnas para votar”. Por isso, quanto mais afroamericanos e latinos votarem “maior será a probabilidade de os candidatos democratas vencerem”, sendo que em estados como a Florida, a Geórgia ou o Mississípi, uma alta taxa de participação dos dois grupos “será provavelmente o fator determinante para os democratas triunfarem”, enfatiza ao Expresso.

Se há estados em que uma participação reduzida de afroamericanos e latinos pode comprometer a tão esperada “onda azul”, que levaria os democratas a conseguirem recuperar as maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, o que deve o partido fazer? “Trump defendeu neonazis, atacou a Liga de Futebol Americano por protestar contra o racismo, pressionou para a construção de um muro racista com o México e separou crianças migrantes das suas famílias”, recorda Stokes. Para o sociólogo, estes são apenas alguns exemplos de como Trump atacou afroamericanos e latinos que prometeu proteger. Mas “os democratas não se podem dar ao luxo de ficarem preguiçosos e assumirem que o racismo de Trump, a sua retórica de ódio e o incitamento à violência são suficientes para mobilizar as suas bases de apoio”, previne.

Alexander adota uma posição mais inclusiva para afirmar que os eleitores afroamericanos e latinos não devem ser apenas considerados para cálculos políticos. “Ambos os partidos devem elevá-los a posições de poder no interior do aparelho”, sugere.