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As eleições da “identidade americana” para Trump

CARLOS BARRIA / Reuters

As eleições midterm costumam ter uma reduzida taxa de participação mas as desta terça-feira podem ser diferentes. Não costumam contar com o envolvimento direto do Presidente mas Trump fez campanha em vários sítios. O partido no poder costuma perder votos e, desta vez, não deverá ser diferente. Mesmo sem uma “blue wave”, os democratas deverão sair destas eleições com a possibilidade de “exercer uma supervisão mais rígida sobre a Administração”, defendem politólogos americanos

Esta terça-feira será a primeira vez que Donald Trump vai a eleições (sem verdadeiramente ir) desde que a 8 de novembro de 2016 foi eleito Presidente dos EUA. “As eleições midterm [para o Congresso] são quase sempre, em parte, um referendo ao desempenho do Presidente em exercício”, comenta ao Expresso o professor John Aldrich, da Universidade Duke, na Carolina do Norte.

“Alguns distritos, especialmente os suburbanos brancos e relativamente ricos, deverão votar contra Trump e podem custar votos aos republicanos que, de outro modo, obteriam”, prognostica. “Por outro lado, o Presidente tem ido a um número razoavelmente grande de distritos para fazer campanha pessoalmente”, acrescenta. A caça ao voto protagonizada por figuras de relevo também se fez do lado democrata: no último fim de semana, o ex-Presidente Barack Obama apontou o dedo à política “mentirosa” e “desagregadora” de Trump, sem nunca referir o seu nome.

O professor de Ciência Política da Universidade de Tulsa, Robert Donaldson, lembra que as midterm “têm tipicamente uma taxa de participação menor do que as presidenciais” para, em seguida, contrapor: “Estas podem ser diferentes, devido à forte oposição ao Presidente e à crescente convicção, entre a maioria dos eleitores que não aprovam a sua conduta, de que esta eleição é a única oportunidade para colocar limites ao seu poder.” O nome de Trump não consta dos boletins de voto mas, como o próprio afirmou, até poderia constar. Para o editor-chefe de política do jornal “The Washington Post”, Peter Wallsten, “estas eleições são muito sobre o Presidente”.

O que está em jogo?

Uma vitória para os republicanos será a manutenção das maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado

Uma vitória para os republicanos será a manutenção das maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado

JONATHAN ERNST / Reuters

“Para os democratas, as eleições representam a primeira oportunidade para recuperarem pelo menos alguma capacidade de frustrar a agenda de Trump. Se conseguirem a maioria em pelo menos uma câmara do Congresso, os democratas terão o poder de investigar a Administração, o que poderá mudar a dinâmica em vários assuntos controversos, desde a investigação sobre a alegada ingerência russa [nas eleições de 2016] até aos pagamentos de Trump para silenciar mulheres”, diz Wallsten ao Expresso.

Uma vitória para os republicanos será a manutenção das maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado. Esse cenário “encorajará o Presidente e o seu partido numa série de questões, incluindo os esforços da Administração para limitar a imigração e reduzir os impostos”, continua. “Se o Partido Republicano mantiver o controlo do Senado, como muitos analistas dizem ser provável, manterá o poder de continuar a confirmar juízes conservadores nomeados por Trump”, sublinha.

A sombra de Kavanaugh

A polémica eleição do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal, um mês antes destas eleições, mostrou uma câmara partida ao meio

A polémica eleição do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal, um mês antes destas eleições, mostrou uma câmara partida ao meio

SHAWN THEW / EPA

Exatamente um mês antes destas eleições, o juiz Brett Kavanaugh foi confirmado para o Supremo Tribunal dos EUA, após semanas de alegações de conduta sexual imprópria nos anos 1980 e 1990. A primeira mulher que o acusou, Christine Blasey Ford, foi ouvida, tal como ele, no comité judiciário do Senado. Os depoimentos mostraram uma câmara partida ao meio, com acusações de aproveitamento vindas de ambos os lados do espetro político. Na sexta-feira, a quatro dias das eleições, uma das mulheres que acusaram Kavanaugh de abuso sexual, Judy Munro-Leighton, disse que assumiu falsamente a autoria de uma carta incriminatória enviada ao Senado. Fê-lo porque estava “furiosa” e queria evitar a confirmação do juiz, reconheceu.

O caso, que já iria pesar na votação, ganha agora renovada importância. Trump apressou-se a perguntar no Twitter: “Podem imaginar se ele não se tivesse tornado juiz do Supremo Tribunal por causa das declarações falsas e repugnantes [da mulher]? E quanto às outras? Onde estão os democratas nesta questão?” Ainda antes dos mais recentes desenvolvimentos, Aldrich reconhecia que Kavanaugh seria “simultaneamente um trunfo e um empecilho para ambos os partidos”.

O editor-chefe do “Post” diz que o caso “parece ter estimulado ainda mais as bases” de um lado e do outro. “Há indícios de que possa estar a ajudar os democratas em disputas renhidas para a Câmara dos Representantes, que estão a ser travadas, em grande parte, em áreas suburbanas centristas, enquanto reforça candidatos republicanos ao Senado em estados conservadores”, refere Wallsten.

Mulheres candidatas

A democrata Stacey Abrams está bem colocada para se tornar governadora do estado da Georgia

A democrata Stacey Abrams está bem colocada para se tornar governadora do estado da Georgia

TAMI CHAPPELL / EPA

Paralelamente, há nestas eleições um número sem precedentes de mulheres candidatas, sobretudo do Partido Democrata, o que representa “um sinal do ativismo que surgiu em resposta à ascensão de Trump”, destaca o jornalista. O professor e diretor do centro de estudos de eleições da Universidade do Wisconsin-Madison, Barry Burden, refere que estas midterm são consideradas “o segundo ano da mulher” e surgem mais de duas décadas e meia depois das eleições de 1992, nas quais “o número de mulheres em posições de relevo aumentou consideravelmente”. Mas “este ano concorrem muito mais mulheres e o sucesso das candidatas será também o sucesso dos democratas”, defende ao Expresso.

Um sucesso estrondoso para os democratas seria a tão propalada “blue wave”, uma onda democrata que iria varrer o Congresso americano, levando-os a conquistar não apenas a maioria na Câmara dos Representantes mas também no Senado. “Os ganhos podem ser substanciais mas não será uma vitória democrata completa. Provavelmente ganharão o controlo da Câmara dos Representantes e de muitos governos locais mas o controlo firme do Senado deverá ficar fora do seu alcance”, prevê Burden.

O politólogo John Aldrich também não antevê uma “blue wave”. “A tendência geral têm sido eleições cada vez mais renhidas entre os candidatos ao Congresso, o que também tem sido verdade nos últimos anos para os candidatos presidenciais. Isto tenderá a silenciar o efeito de uma onda em qualquer das direções”, explica. Contudo, o cenário em que os democratas reconquistam a maioria na Câmara dos Representantes já é capaz de fazer mossa porque “permitirá exercer uma supervisão mais rígida sobre a Administração”, lembra Robert Donaldson ao Expresso.

As ‘ameaças’ na fronteira

Trump disse que a caravana de migrantes está cheia de “criminosos e desconhecidos vindos do Médio Oriente” mas depois reconheceu não ter provas capazes de sustentar essa declaração

Trump disse que a caravana de migrantes está cheia de “criminosos e desconhecidos vindos do Médio Oriente” mas depois reconheceu não ter provas capazes de sustentar essa declaração

CARLOS GARCIA RAWLINS / Reuters

“Trump está a tentar amedrontar a sua base de apoio através de alegações sobre as ameaças na fronteira sul dos EUA mas é provável que isto só tenha efeitos limitados sobre o resultado”, relativiza. Nas últimas semanas, o Presidente tem diabolizado uma caravana de cerca de sete mil pessoas que percorrem a pé muitas centenas de quilómetros e cruzam as fronteiras de vários países da América Central com o objetivo de chegar aos Estados Unidos. Trump já disse que a caravana está cheia de “criminosos e desconhecidos vindos do Médio Oriente” mas depois reconheceu não ter provas capazes de sustentar essa declaração.

Entretanto, admitiu enviar até 15 mil militares para a fronteira e autorizou-os a dispararem sobre os migrantes se estes atirarem pedras – mais tarde, Trump disse que já não ia ser bem assim. “O Presidente está a tentar transformar estas eleições numa questão de identidade americana. Agora define-se como um ‘nacionalista’, tem feito repetidas advertências sobre a caravana e, na semana passada, fez a promessa constitucionalmente duvidosa de acabar com a cidadania como direito de nascimento para filhos de imigrantes sem documentos. Tudo com vista a agradar a sua base maioritariamente branca”, confirma o editor-chefe de política do “Post”.

Entre as disputas que seguirá com maior interesse, Peter Wallsten chama a atenção para o Senado, onde “grande parte da ação acontece em estados que Trump venceu em 2016 mas que os democratas tentarão recuperar, como Florida, Indiana, Missouri, Virgínia Ocidental e Dakota do Norte”. “A disputa no Texas está a ser seguida de perto porque o candidato democrata que desafia o senador Ted Cruz, Beto O’Rourke, tem mobilizado grandes multidões e angariado muito dinheiro”, destaca.

E “há duas corridas para governador especialmente interessantes de acompanhar, na Florida e na Geórgia, onde os estados podem vir a eleger afro-americanos para os seus mais altos cargos [Andrew Gillum e Stacey Abrams, respetivamente]”, acrescenta o jornalista. Também Aldrich estará atento às possíveis eleições de candidatos negros. Ao olhar para o mapa do sul da América e perante a possibilidade de o Mississípi eleger um homem negro e de a Geórgia uma mulher negra, o politólogo exclama: “Meu Deus, isso seria qualquer coisa!”.

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  • O New York Times criou um chat para um jornalista e ele foi obrigado a ser “brutalmente honesto” acerca do que não sabe

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