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Bolsonaro muda de eixo e preocupa vizinhos

PILAR OLIVARES / reuters

Ainda sem MNE, Bolsonaro dá prioridade aos EUA e a Israel, ameaça o Mercosul e apregoa uma espécie de ‘Brasil First’

DANIEL LOZANO EM CARACAS, LUÍS NOVAIS EM LIMA E MÁRCIO RESENDE EM BUENOS AIRES

As primeiras 24 horas foram suficientes para deixar os principais aliados do Brasil preocupados. A primeira viagem de Bolsonaro ao estrangeiro, ainda sem data, será ao Chile, estabelecido como modelo de referência para o novo Governo.

A decisão do Presidente-eleito não só quebra a tradição brasileira de visitar primeiro a Argentina, até agora principal parceiro estratégico em cuja relação se baseia o eixo da integração regional, como também aponta por onde passará a prioridade do próximo governo brasileiro.

No Chile, está o modelo que o futuro ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, quer aplicar no Brasil. O modelo ultraliberal chileno faz parte do legado do antigo ditador Augusto Pinochet (1973-1990), que seguiu a linha defendida por economistas chilenos, os chamados “Chicago Boys”, defensores da escola de Milton Friedman. O próprio Paulo Guedes chegou a dar aulas na Universidade do Chile durante o período de Pinochet. O Chile também permite ligação com os mercados do Pacífico, como a China, além de ser governado pelo direitista Sebastián Piñera, que, acompanhado por senadores da União Democrática Independente — o partido mais à direita da coligação de governo e “herdeiro” de Pinochet — teceu grandes elogios ao plano económico de Bolsonaro.

“Nem a Argentina nem o Mercosul são prioridades para o novo Governo. A prioridade é comercializar com o mundo, através de acordos bilaterais ”, definiu Paulo Guedes, no mesmo domingo depois da eleição. Bolsonaro confirmou, no dia seguinte, que “não implodiria o Mercosul, mas que retiraria as amarras do bloco”. As declarações causaram surpresa e preocupação entre os países integrantes do Mercosul, Argentina, Uruguai e Paraguai. O Mercosul, plataforma de inserção comercial brasileira durante os últimos 27 anos, é uma União Alfandegária. Com uma tarifa externa comum entre os membros, qualquer negociação comercial com o mundo só pode ser em bloco e por consenso de todos os membros.

O EIXO TRUMP-BOLSONARO

Um novo eixo político, formado por Donald Trump e Jair Bolsonaro, nasceu na América Latina. “Acordámos que o Brasil e os EUA trabalharão juntos no comércio, nos assuntos militares e em tudo o resto”, adiantou com entusiasmo o Presidente dos Estados Unidos após falar com o vencedor da segunda volta das eleições no gigante sul-americano. “Mais estreitamente”, sublinhou.

“À partida, Trump será o aliado de Bolsonaro na região”, aposta o especialista em Relações Internacionais Mariano de Alba a partir de Washington, e confirma Steve Bannon, ex-assessor de Trump, numa entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, onde só encontra semelhanças entre ambos. “São especialistas em se ligarem às massas”, resume. A investida de Bolsonaro contra a imprensa crítica veio confirmar outra grande coincidência com Trump.

Começou assim uma nova partida sobre o tabuleiro latino-americano. Como reagirão os países vizinhos? “Ao princípio a Argentina, o Chile, a Colômbia e o Paraguai serão cautelosos e conforme virem o que convém ao seu governo poderão formar alianças interessantes, embora a aliança política seja potencialmente tóxica”, acrescenta De Alba, com um matiz: “Macri será o mais cauteloso, porque sabe que uma associação muito próxima o poderá prejudicar nas eleições de 2019”.

Piero Trepiccione, vinculado ao think tank dos jesuítas na Venezuela, adianta até os efeitos da nova aliança: abrir-se-ão novos conflitos com a China e a Rússia. “Os chineses já arreganharam os dentes aos EUA além do sector comercial”, continua Trepiccione. “A mensagem para Washington é clara: já não competimos apenas pela economia, eu também posso influir na tua área de domínio. A China passa agora da economia para a política”, conclui.

“Não há razões para que o ‘Trump tropical’ (Bolsonaro) interrompa as relações com a China”, advertiu em editorial o “China Daily”, jornal do Partido Comunista da China. O Governo asiático espera que as declarações eleitorais de Bolsonaro (“A China comprou o Brasil”) não afetem as milionárias relações comerciais da última década.

Quase todos os peritos consultados concordam em que a chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto supõe uma maior pressão contra o grande aliado da Rússia e da China no continente: a Venezuela. “Ganharia inclusivamente terreno o cenário militar”, complementa Trepiccione. “Ninguém quer entrar em guerra com ninguém”, declarou não obstante o capitão na reserva e defensor da ditadura militar durante a campanha, ao longo da qual contou com o apoio dos grupúsculos mais radicais da resistência antichavista.

“Nas relações com o Brasil as que irão predominar serão as económicas”, prevê De Alba, “marcadas pela visão de abertura em matéria de comércio, que contrasta com os critérios dos seus antecessores”, resume Michel Leví, coordenador da Cátedra Brasil-Comunidade Andina da Universidade Andina Simón Bolívar do Equador.

A QUESTÃO DA AMAZÓNIA

O Presidente peruano, Martin Vizcarra, foi um dos primeiros a enviar uma mensagem de felicitações. O Expresso esteve com Vizcarra no dia seguinte, que denotou o diplomático mal-estar de um político da direita moderada e grande defensor do diálogo. “Obviamente, como país vizinho saudámo-lo”. Lembrou também que “temos a nossa maior fronteira com o Brasil, projetos de interligação e devemos fazer esforços para manter a relação”. A concluir, procurou desdramatizar: “As mudanças políticas costumam acontecer nos nossos países” e, em tom de desabafo, “temos boas relações e esperamos continuar assim”. Ramiro Escobar, professor e comentador de política internacional, não tem duvidas: “Obviamente tinha de felicitar, mesmo não sendo um santo da sua devoção”.

Neste momento, Brasil, Peru, Bolívia e Paraguai fazem uma grande aposta na ideia de unir os oceanos Pacífico e Atlântico através de um caminho de ferro. Edmer Trujillo, ministro dos Transportes e Comunicações, confirmou ao Expresso que “temos grande expectativa neste projeto, que ainda está na sua fase política”.

Mais de metade do território peruano é selva amazónica, a mesma onde estão os 3000 quilómetros de fronteira entre os dois países. “As questões ambientais são muito sensíveis”, diz-nos Francisco Belaunde, comentador de política internacional da TV Peru. Na mesma linha, Ramiro Escobar enumera alguns temas particularmente preocupantes: “Pode sair do acordo de Paris, prestar menos vigilância ambiental à Amazónia, criminalizar os movimentos indígenas...”

Noutro domínio, está a emigração venezuelana. O Peru está na linha da frente do isolamento a Maduro: “Apoiamos qualquer mecanismo para que regressem à democracia, exceto uma intervenção militar”, disse ao Expresso Martín Vizcarra. Além disso, o Peru é um dos maiores recetores de venezuelanos, mas, “com 500 mil, já estamos a sair do ponto de equilíbrio”. É por isso que Ramiro Escobar vai lembrando que, “se Bolsonaro concretiza uma mão dura contra a emigração venezuelana, isso vai afetar a política migratória conjunta”.

Mas não há só nuvens negras. Belaunde afirma mesmo que “se o novo presidente mantiver a promessa de fazer do Brasil um país de livre-comércio, é bom para o Peru”. E como o Mercosul não é prioritário, “ pode ser que se volte mais para a Aliança do Pacífico”, na qual o Peru apostou, com muito desgosto de Lula e Dilma Roussef, que pretendiam uma grande aliança sul-americana.