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América mais desunida

Trump disse que a caravana de migrantes inclui “terroristas do Médio Oriente”

FOTO KEVIN LAMARQUE/REUTERS

A violência dominou os últimos dias de campanha para as intercalares de terça-feira. O debate foi torpedeado pela política do medo

Atração turística em Boston, os duck boats (veículos anfíbios) trouxeram os jogadores dos Red Sox até à baixa da capital do Massachusetts, na quarta-feira, após a vitória na final do campeonato americano de beisebol, festejos vigiados de perto pelas autoridades que proibiram o porte de armas e o consumo de álcool na rua.

“Nada de especial, apenas celebração e uma pausa no clima político deste país, marcado por banhos de sangue e discursos aterrorizadores”, disse-nos o democrata Joseph McNamara, membro da Câmara dos Representantes de Rhode Island. Dadas as circunstâncias, ele tem pouca vontade de falar sobre as eleições intercalares de terça-feira, cedendo apenas para dar uma alfinetada no inquilino da Casa Branca: “Boston está tão farta de ganhar, que não precisamos de Trump para nada”.

Esta região da Nova Inglaterra, que também engloba Maine, New Hampshire, Connecticut e Vermont, é fiel à esquerda, tal como, por exemplo, o Texas ou o Kentucky preferem a direita. São territórios incontestados, ao contrário do coração da América, uma cintura industrial pejada de swing states, estados que oscilam entre liberais e conservadores e onde o Expresso testemunhou que a fé em Donald Trump permanece inabalável (ler reportagem na revista).

Embora o nome do Presidente dos EUA não esteja no boletim de voto — elegem-se novos membros para a Câmara dos Representantes e Senado, assim como um conjunto de funcionários estaduais, entre eles 36 governadores —, este tipo de sufrágio transformou-se num referendo à figura do líder.

“O ódio estará nas urnas”, escreveu esta semana Paul Krugman, no “The New York Times”. “A onda de intolerância está ligada ao clima de paranoia e racismo deliberadamente criado por Donald Trump”.

Tal como McNamara, o Nobel da Economia referia-se à vaga de violência registada nas últimas duas semanas, após os ataques contra uma igreja afro-americana no Kentucky e uma sinagoga na Pensilvânia (13 pessoas morreram no total), assim como o envio de cartas armadilhadas a líderes e simpatizantes democratas.

Acusado de ter instigado os crimes devido à retórica inflamada, Trump concluiu que os episódios de racismo, antissemitismo e perseguição política eram uma consequência do trabalho dos media, “o verdadeiro inimigo do povo”.

Sobre este ponto, McNamara recorreu de novo ao humor para aligeirar a conversa. “Os jornais são tão assustadores que no Halloween deste ano as casas foram decoradas com páginas de ‘The Washington Ghost’ e de ‘The Boo York Times’”.

A tese de Trump não convenceu sequer congressistas republicanos que recusaram acompanha-lo até à Pensilvânia no rescaldo do massacre. “Estamos em apuros. Além do tom usado pelo Presidente, a Obamacare tornou-se um trunfo para os democratas e a classe média suburbana tem dúvidas de que o corte de impostos do ano passado os beneficiará”, explica ao Expresso Gordon Humphrey, antigo líder dos conservadores em New Hampshire.

MIGRANTES E “DOENÇAS”

Trump apontou o dedo igualmente à caravana de migrantes oriunda da América Central que segue em direção à fronteira com o México, segundo ele, “um grupo de bárbaros”, prometendo depois rever o direito de cidadania automática dos filhos de ilegais que nascem nos EUA.

Numa entrevista à Fox News, moderada por Laura Ingraham, a mesma jornalista que tinha jurado que as jaulas usadas para prender os menores capturados no sul não passavam de “campos de férias”, Trump assegurou que a “horda de invasores” inclui “terroristas do Médio Oriente” — facto desmentido pelas próprias autoridades americanas.

A contrainformação foi tal que David Ward, um antigo elemento da Immigration and Customs Enforcement, agência que verifica o cumprimento das leis no país, garantiu naquele mesmo canal de televisão que os migrantes trazem doenças como tuberculose, lepra e varíola, esquecendo-se que esta foi erradicada em 1980, segundo a Organização Mundial de Saúde.

No meio de tanto ruído, vários adeptos dos Red Sox confessaram-nos, durante a parada de quarta-feira, que tinham pouca informação sobre os candidatos. Há quatro anos, apenas 36,6% dos eleitores votaram nas intercalares, a percentagem mais baixa desde a II Guerra Mundial.

Até à hora de fecho desta edição, as sondagens indicavam que o Partido Democrata reconquistará a Câmara dos Representantes, enquanto o Senado permanecerá sob controlo republicano. Caso se confirme este cenário, o congressista Richard Neal deixa várias promessas. “Vamos reiniciar as investigações que os republicanos ignoraram, falo do alegado conluio Trump-Rússia e dos negócios privados do Presidente que indiciam um conflito de interesses. E, claro, veremos finalmente a sua declaração de impostos”.