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Tinha 7 anos e o seu rosto tornou-se o símbolo da fome no Iémen. Morreu Amal Hussain

YAHYA ARHAB/EPA

A menina não resistiu às consequências do severo estado de subnutrição. A fome é uma catástrofe anunciada, que atinge já 1,8 milhões de crianças e pode estender-se brevemente a metade da população do Iémen, tem alertado a ONU

Morreu Amal Hussain. O rosto da menina de sete anos, numa imagem duríssima que se tornou o símbolo da fome que afeta nada menos que 1,8 milhões de crianças no Iémen, foi dado a conhecer na semana passada pelo jornal “The New York Times”, o mesmo jornal que esta quinta-feira anunciou a sua morte. Amal estava num campo de refugiados, a seis quilómetros do hospital, e não resistiu às consequências do severo estado de subnutrição.

Ao telefone com o NYT, a chorar, a mãe disse ter “o coração destroçado” e recordou Amal como uma menina “sempre a sorrir”. Mas confessou também a sua preocupação pelos outros filhos.

A publicação da foto gerou uma onda de comoção e solidariedade entre os leitores, conta o jornal, que diz terem sido feitas ofertas de donativos para a família e recebidas inúmeras cartas demonstrando interesse pelo evoluir da situação de Amal.

Mas era grave, muito grave, o estado clínico da menina que os jornalistas encontraram ao fazer uma reportagem no Iémen, quando visitaram um centro de saúde em Aslam, a cerca de 150 quilómetros da capital do país, Sana. “Ela estava deitada numa cama, com a mãe. As enfermeiras alimentavam-na a cada duas horas, dando-lhe leite, mas ele vomitava com frequência e sofria de diarreia”, pode ler-se na notícia.

A mãe recuperava de uma infeção de dengue, e Amal - por amarga ironia, a palavra árabe para ‘esperança’ - acabou por deixar o hospital ainda doente, no final da semana. Infelizmente, disseram os médicos, a cama fazia falta, por terem muitos mais casos como o dela.

Amal voltou para o campo de refugiados, a sua casa desde que há três anos a família foi obrigada a deixar Saada, um lugar nas montanhas, por causa dos ataques aéreos constantes, e aí as associações humanitárias tentaram ajudar, nomeadamente fornecendo “açúcar e arroz”. Não foi suficiente.

Quando o seu estado de saúde piorou, a família foi aconselhada a levá-la ao hospital dos Médicos Sem Fronteiras mais próximo, mas não o fez, por não ter dinheiro. Amal acabou por não resistir.

14 milhões em “condições de pré-fome”

O conflito no Iémen provocou a “pior crise humanitária do mundo”, segundo a ONU, com sucessivos alertas a serem lançados pelo risco de a fome atingir pelo menos metade da população. 14 milhões de pessoas estão já em “condições de pré-fome”, anunciou recentemente o subsecretário-geral para os Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas.

A guerra opõe as forças do Governo - apoiadas pela coligação internacional dirigida pela Arábia Saudita - aos rebeldes Huthis, que se apoderaram em 2014 e 2015 de vastas regiões do país, incluindo a capital, Sana.

Esta quarta-feira, o emissário da ONU para o Iémen disse pretender relançar as discussões de paz “dentro de um mês”, após apelos de Washington para que se negoceie o fim do conflito, que já terá matado mais de 10.000 pessoas.