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Irma tem os pés destruídos. E ainda 5.000 kms para calcorrear

A caravana de milhares de pessoas que há mais de duas semanas se fizeram à estrada, em direção aos Estados Unidos, para fugirem da miséria, da violência e de grupos criminosos nos seus países de origem, na América Central, está a avançar pelo México, a caminho do norte. O grosso da coluna destes migrantes chegou há dias a Mapastepec, no estado mexicano de Chiapas. Um deles é a salvadorenha Irma, que, tal como a maioria dos companheiros de jornada, já percorreu a pé muitas centenas de quilómetros e cruzou várias fronteiras

CARLOS MARTÍNEZ, EM MAPASTEPEC, NO MÉXICO

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Irma está aflita dos pés. Tem bolhas do tamanho de cubos de gelo. Muitas, em toda a parte: no calcanhar, na zona periférica, por baixo, no peito dos pés. Tem quarenta e muitos anos. É gorda e sorridente. Às vezes consegue soltar uma gargalhada quando graceja sobre as suas penúrias. Os seus pés estão cheios de altos e custa olhar para eles. Um paramédico disse-lhe em Huixtla que não se lembrasse de rebentar as bolhas, porque elas poderiam infetar. Mas mesmo que não as rebente, é difícil precaver a infeção.

Para chegar ao seu destino faltam ainda a Irma milhares de quilómetros, com os pés enfiados numas sapatilhas de borracha. Se a marcha continuar, a Irma e aos que a acompanham faltam-lhes uns 5.000 quilómetros. Muitas bolhas.

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Irma é salvadorenha, de Llano Las Majadas, no município de Santa Rosa Guachipilín, na província de Santa Ana. Vivia de vender tortilhas naquele local, tão pequeno como uma mosca. Em 10 de junho de 2017, assegura, um membro de um bando chamado Mara Salvatrucha-13 assassinou o seu companheiro, um senhor com mais de 60 anos - e hoje ainda não sabe ao certo porquê. Toda a gente conhecia o assassino, incluindo ela, e não suportou ter de chorar o cadáver do companheiro vendo o bandido em liberdade. Por isso denunciou-o. E esperou que acontecesse alguma coisa. Não aconteceu nada. O bandido, livre; o companheiro dela, morto.

Irma é um dos milhares de centro-americanos que estão a fazer uma longa e penosa marcha a caminho dos Estados Unidos. A maior parte partiu das Honduras, mas há também salvadorenhos, guatemaltecos, nicaraguenses.

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As rotas que estas pessoas seguem têm sido percorridas desde há décadas por indocumentados, oriundos principalmente do triângulo norte da América Central, que sofreram a crueldade e os abusos das autoridades federais, estatais e municipais ao longo do caminho. As rotas dos indocumentados costumam evitar os postos da imigração, contornando-os por veredas que atravessam as mesetas circundantes, onde costumam instalar-se grupos de criminosos que os assaltam, sequestram, violam ou assassinam.

Mas hoje em dia, os postos da imigração não são mais do que uns edifícios irrelevantes, onde uns desconcertados agentes veem passar uma torrente de pessoas em que ninguém - absolutamente ninguém – tem os documentos em ordem.

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Milhares destes migrantes centro-americanos continuam a avançar pelo México, em direção ao norte. Embora avance como um bloco, a marcha deixou de ser uma massa compacta nas estradas, para se separar com quilómetros de permeio ao longo do trajeto. São milhares de pessoas. Os agentes federais da imigração mexicana veem-nos passar e afastam-se ou, quando detêm pequenos grupos que se separam da multidão devido a alguma paragem, retêm-nos até que a avalancha chegue, os recolha e volte a integrá-los.

Há dias, uma coluna com milhares de pessoas chegou a Mapastepec, cidade mexicana do estado de Chiapas situada a mais de 100 quilómetros da fronteira com a Guatemala, depois de terem percorrido os 65 quilómetros que distam do município de Huixtla - onde tinham acampado durante duas noites.

d.r.

Os primeiros a chegar apoderaram-se da praça central de Mapastepec desde as 10 da manhã, enquanto os mais atrasados caminhavam sob o calor ao longo dos últimos 25 quilómetros.

POLÍCIAS MEXICANOS SEM SABER O QUE FAZER

O governo mexicano enviou para Chiapas mais de 300 agentes federais de diferentes estados da União. Várias dezenas de patrulhas acompanham a marcha, sem fazerem mais do que vê-los passar ou organizar o trânsito nas estradas. De momento não os detêm, apenas os vigiam, algo que é insólito na história da migração centro-americana indocumentada através deste país.

As autoridades mexicanas não conseguem estabelecer um único critério para enfrentar a situação. Um agente do Instituto Nacional de Migração (INM) no posto de Pijijiapan decidiu a sua própria norma: não poderá passar nenhum indocumentado... que viaje em grupos pequenos. Em contrapartida, se caminharem integrados num bloco numeroso, ele considera que fazem parte da “La Caravana”, e deixa-os passar.

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Outra norma que criou é que têm de ir a pé. Dezenas de indocumentados viajavam na parte traseira de um camião com atrelado. O agente, diligente com a sua própria regra, mandou parar o camião e obrigou-os a descer; explicou-lhes que ninguém podia viajar em “veículos privados”, obrigou-os a esperar no posto da imigração e, quando já retivera algumas centenas, deixou-os seguir. A pé, assim sim. O agente da imigração deteve migrantes para os reunir. Insólito.

No entanto, cerca de cinquenta quilómetros antes, um agente federal regulava a quantidade de pessoas que podiam subir para uma pick up cujo condutor se ofereceu para transportar membros da caravana. Quando considerou que a parte traseira do veículo estava muito cheia -e estava – deixou-o seguir, como se fosse um porco-espinho, atestado de pessoas. Outros viajantes reclamavam com o agente por não os ter deixado aproveitar uma oportunidade tão boa. A resposta foi, em tom paternal: “é que vocês estão muito desesperados, tenham paciência”, e ali ficaram juntos - polícia e migrantes – à espera de um outro transporte que desse ajuda aos caminhantes.

Outro polícia federal explicou-me, espararramado sobre um sofá do hotel La Montaña, em Mapastepec, que tinha ordens para não entrar em conflito com a caravana. “Só estamos aqui para escoltar estas pessoas, para a própria segurança delas, e para evitar que haja problemas”, disse ele, após me pedir que não mencionasse o seu nome. “Quem lhe deu essa ordem?” Olhou-me muito sério: “Vem lá de cima, lá de cima”. E recusou-se a prosseguir a conversa.

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É complicado sair de países tão pequenos e ter noção do percurso. Das distâncias. Está-se em Chiapas e caminha-se, e caminha-se, durante três dias, durante jornadas cruéis... e continua-se em Chiapas.

Antes de iniciar a sua longa caminhada, Irma tinha ficado sozinha na terra onde vivia. Alegrara-se quando o pai do seu filho, de 15 anos - um homem que 15 anos depois de o ter feito se quis estrear no papel de pai - reclamou o rapaz a partir do Canadá. “Ele tem papéis lá no Canadá”, diz Irma, fazendo um sinal para cima com a boca. E o filho dela partiu.

Ela ficou sozinha, sem filho, sem companheiro. Uma migrante, um cadáver. Salvadorenhos ao fim e ao cabo. Então, de alguma maneira, o tal assassino impune inteirou-se de que tinha sido denunciado, e ameaçou-a de morte. Ela viu nas notícias que um montão de hondurenhos pensavam fugir do seu país e encontrou neles uma grande coincidência. Apanhou um autocarro, a seguir outro, e mais outro, e alcançou a caravana, precisamente quando esta arrombava os portões da posto fronteiriço guatemalteco em Tecún Umán. E aqui está ela, acompanhando esta romaria de asas quebradas, que Donald Trump, um dos homens mais poderosos do mundo, considera uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

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NINGUÉM QUER FICAR PARA TRÁS

Irma tem os pés destruídos - e a certeza de que a sua única proteção é acompanhar o ritmo da caravana. Não quer ficar para trás. Ela e mais uma dezena de migrantes decidiram gastar uns bons pesos e apanhar um autocarro em Rápidos del Sur, para pouparem o esforço da caminhada. Perguntaram ao motorista se poderia avisá-los quando estivessem em Mapastepec, para se apearem e esperarem pelos restantes, e o motorista disse-lhes que sim. Mas esqueceu-se, ou talvez não...

O caso é que quando passaram pelo posto da imigração de Pijijiapan tinham deixado o seu destino 40 quilómetros atrás. Aconteceu então aquilo que acontece quando não se está inserido num grande grupo e se dispõe do apoio que ele proporciona: os agentes do INM detiveram-nos e ameaçaram transportá-los para um centro de imigrantes.

Outro grupo, com umas 15 pessoas, dois bebés incluídos, seguiu a recomendação de um agente federal na estrada. Alejandra, uma rapariga hondurenha de 26 anos, alegrou-se por aquele bom federal os ajudar a conseguir boleia. Uma mulher, que o polícia lhes apresentou como sua amiga, fê-los subir para a pick up dela e prometeu levá-los a Mapastepec. Mas não. Em vez disso, passou ao largo da vila e foi entregá-los no posto da imigração de Pijijiapan.

Irma solta uma gargalhada: “Essa mulher disse-lhes que os levava directamente a Mapastepec e foi entregá-los, ha, ha, ha.” Os outros sorriem como podem, todos parados numa berma da qual não podem afastar-se, por ordem dos agentes da imigração.

Várias dezenas de pessoas, na sua maioria homens jovens, abordaram a ampla parte traseira de um camião de carga, que viajava sem contentor. Iam numa alegre algazarra, felizes por terem conseguido boleia para Mapastepec, sem repararem num pormenor: nenhum deles tinha a menor ideia de quanto faltava para chegar ao seu destino. Também foram parar ao posto do INM em Pijijiapan, onde os agentes os mandaram apear-se e os juntaram à trintena de detidos. Já eram quase uma centena.

d.r.

“AGORA SIM, AGORA PODEM IR”

De repente, à saída da curva, apareceu - agora sim - uma multidão de caminhantes tão entusiasmados que passaram ao largo da entrada para Mapastepec e prosseguiram, sem saberem que a tinham deixado para trás há muito. A eles, os agentes nem os saudaram. Como se fossem donos daquelas ruas, daquele caminho e daquele posto, os recém-chegados perguntaram aos detidos que raio faziam ali parados e os outros saltaram do sítio onde estavam detidos, sem pedirem autorização, e juntaram-se à caravana. O chefe dos agentes da migração disse, como para não perder de todo a autoridade: “Agora sim, agora podem ir com a caravana”, e deixou-os passar.

Irma e outros conseguem que uma pick up os deixe subir, mas o agente da imigração persegue-os num carro oficial, interceta o veículo e recorda-lhes a sua norma pessoal: podem seguir, mas em massa e, sobretudo, a pé. A pé. Todos descem da pick up e fazem um descanso abrigados numa sombra. Irma olha para os seus pés com lástima, pronta para seguir o seu caminho manquejando.

APENAS UM LUGAR NO CAMINHO

Mapastepec é um lugar no caminho até outro lugar. Não importa que lugar. É um sítio arenoso, de casas baixas, de ruas que noutros tempos - muito remotos – estiveram asfaltadas; com uma igreja feia e um parque central muito feio, no qual existem umas diversões infantis de plástico moldado, como um tobogã que está quebrado na sua parte final.

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Mapastepec é, sobretudo, um lugar por onde centenas de milhares de migrantes transitaram com temor nos últimos anos. Situada quase a 100 quilómetros de Arriaga, ainda município de Chiapas, Mapastepec esteve cravada no trecho mais nefasto para os migrantes pelo menos até 2015. Durante anos, graças ao furacão Stan, em 2005, muitas pontes ferroviárias ficaram estragadas, e o comboio onde os migrantes se penduravam como passageiros clandestinos deixou de arrancar desde a fronteira com a Guatemala.

Começou a partir de Arriaga. Os indocumentados caminharam esses mais de 200 quilómetros, entre montes, seguindo as vias em desuso, evitando os postos de estrada que agora enganam em multidão. E por aí, sobre essas vias em desuso e nos matagais, milhares de mulheres foram violadas e centenas de pessoas que resistiram foram assassinadas.

Em Mapastepec, a internet é um bem fugidio, e nós, os jornalistas, deambulamos em busca dela, como forasteiros num povoado de cinema. Sempre com os telefones erguidos, em busca de um sinal vindo lá de cima que não nos responde.

Juntamente com a caravana viaja um contingente de repórteres oriundo de toda a parte: suecos, norte-americanos, centro-americanos, mexicanos, espanhóis... com pequenos cadernos ou com umas enormes antenas circulares, ligadas a camiões tecnológicos, equipados para transmitirem em direto, inclusive a partir de Mapastepec. Às dez da manhã não resta um único quarto de hotel vago. Nada, nem um só. Após uma busca exaustiva e muitas súplicas, conseguimos que o dono do hotel La Montaña nos alugasse a sua adega, por 50 dólares. Todos os quartos estavam ocupados por polícias federais, membros da Cruz Vermelha e jornalistas.

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Os estabelecimentos são insuficientes, os frigoríficos e arcas congeladoras ficaram vazios, os proprietários saíram a correr para ir comprar caixas de refrigerantes. As cozinhas dos restaurantes colapsaram. Alguns meninos hondurenhos que fazem parte da caravana dos migrantes pedem esmola; as pessoas fizeram filas imensas para receber o seu prato de comida doada. Muitas chegam com os pés destruídos, a coxear, apoiadas em ramos de árvore cortados pelo caminho. Os albergues decidiram separar os homens das mulheres. E há o calor. O calor que tudo preenche, que está em toda a parte, que assenta como uma maldição sobre todos os que estão em Mapastepec.