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A primeira entrevista de Bolsonaro depois de eleito: “Acesso generalizado às armas” e “igualdade para todos”

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Foi à TV Record e não à TV Globo que o Presidente eleito escolheu dar a sua primeira entrevista. Antecipou os nomes que quer ter no Governo, entre os quais o juiz Sérgio Moro, e confirmou que vai visitar Donald Trump, para “aprofundar discussões” sobre comércio e política militar

Na primeira entrevista concedida depois de ser eleito, Jair Bolsonaro afirmou que pretende convidar o juiz federal Sérgio Moro - responsável pelo processo Lava Jato - para ser ministro da Justiça, ou para o Supremo Tribunal Federal (STF). A conversa entre os dois deverá acontecer em breve, disse Bolsonaro, mas sem precisar quando.

Depois da vitória alcançada no domingo, Bolsonaro escolheu a TV Record (e não a TV Globo, como tem acontecido desde sempre) para falar aos brasileiros e esteve no ar durante cerca de 30 minutos, esta segunda-feira à noite.

Noutro momento da entrevista, o Presidente eleito voltou a defender o acesso generalizado às armas, defendendo os 21 anos como idade legal para as comprar (e não mais de 25), considerando dispensável a necessidade de renovar as licenças regularmente.

“Há um estado de guerra. A efetiva necessidade está comprovada pela violência”, afirmou, acrescentando ser preciso “abandonar o politicamente correto”. “Arma de fogo garante a liberdade de uma pessoa”, concluiu.

Ao falar de minorias, Bolsonaro mostrou-se mais moderado do que durante a campanha eleitoral, ao afirmar que não lhe interessa a cor dos brasileiros nem a orientação sexual.

“O que é a minoria? Nós somos iguais. Eu não tenho diferença para você. Não me interessa essa coisa da pele, opção sexual, região onde nasceu, género. Somos iguais, como está no artigo 5.º na Constituição”, sublinhou, para criticar “certas minorias”, que “podem achar que têm super poderes por serem diferentes dos demais”.

O caminho, disse, é procurar meios para que todos tenham as mesmas condições económicas e financeiras e não tratar determinados grupos como minorias. “O que se tem de fazer é procurar a igualdade de património para todos e aí todos ficam satisfeitos”, insistiu.

Hamilton Mourão, um homem “muito qualificado e preparado”

Quanto à formação do Governo, e depois da confirmação dos nomes do deputado federal Onyx Lorenzoni, para a Casa Civil, o general na reserva Augusto Heleno para a pasta da Defesa e o economista Paulo Guedes para a Economia, Bolsonaro adiantou que deve confirmar nos próximos dias o nome do astronauta e major na reserva Marcos Pontes para o Ministério da Ciência e Tecnologia.

Ao seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão, deixou elogios, considerando-o um homem “muito qualificado e preparado”. “Agora não sou capitão, nem ele general. Eu disse para ele: ‘General, nós somos soldados do Brasil’”, afirmou Bolsonaro, que negou a existência de atritos entre os dois: “Será um conselheiro de primeira hora”.

O Presidente eleito negou ter a pretensão de controlar os media, afirmando ser a favor da liberdade de expressão. “Quem vai impor limite é o leitor. O controle é o controle remoto, nada além disso”, garantiu.

Sobre a TV “oficial”, é sua intenção seguir o caminho da privatização, ou mesmo extinção: “Não queremos propaganda”, frisou.

Bolsonaro prometeu fazer uma limpeza no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), cujos elementos, segundo ele, desrespeitam a lei, não podendo por isso esperar dialogar.

No plano externo, Jair Bolsonaro confirmou que a conversa que manteve com o Presidente norte-americano, Donald Trump, foi mais longa do que as outras, envolvendo os outros líderes e anunciou que pretende visitar os Estados Unidos para aprofundar as conversações sobre comércio e política militar.

Mostrou igualmente contentamento pelo tom em que decorreram os contactos com os líderes da América Latina e da Europa, para ele um sinal da importância do Brasil.

Bolsonaro disse que vai visitar o presidente Michel Temer para agradecer as felicitações que recebeu, e prometeu que os dois meses finais do Governo vão decorrer na “mais perfeita harmonia”.

Disse ainda estar “pronto para conversar” com os candidatos à Presidência derrotados nas eleições, incluindo Ciro Gomes e Fernando Haddad (PT). “Apesar da campanha que fizeram para me desconstruir”, rematou.

Depois da ‘estreia’ na TV Record, o Presidente eleito concedeu outras entrevistas, nomeadamente à TV Band, onde negou a existência da ditadura militar no Brasil e defendeu a redução da maioridade penal para 14 anos.

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