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Um ano passou e ainda se procura a Justiça que continua a escapar a Daphne Caruana Galizia

Daphne Caruana Galizia foi morta em outubro do ano passado

Foto Getty Images

Um ano depois, a família de Daphne Caruana Galizia ainda continua à espera que a Justiça em Malta consiga encontrar os culpados pela morte da jornalista. Matthew, um dos seus filhos, disse à imprensa internacional que as autoridades "brincam" com o caso: “Quando perguntamos por desenvolvimentos o procurador goza-nos e diz que não pode providenciar um ‘comentário permanente’ - esse era o nome da página da minha mãe”

Ana França

Ana França

Jornalista

Um ano depois, ainda ninguém sabe onde pára a justiça que tem escapado a Daphne Caruana Galizia, a jornalista maltesa assassinada a 16 de outubro de 2017, e aos seus familiares que lhe sobreviveram.

O carro de Galizia, que tinha 53 anos por altura da sua morte, explodiu e abanou a calma de Bidnija, a pequena localidade onde vivia. Abanou literalmente o chão debaixo dos pés do seu filho Matthew, com 31 anos, que estava em casa quando o carro da mãe foi projetado pelo ar a poucos metros do seu apartamento. Deveria ter abanado as estruturas políticas, cuja débil consistência Galizia investigava, para grande incómodo dos que a ameaçam e lhe deixavam mensagens de ódio na internet, há 30 anos. Mas não abanou. Há três pessoas presas pela bomba colocada no seu carro mas não se sabe quando irão ser julgados. Quem ordenou o assassinato também não se sabe. Sabe-se que não está preso.

Muitas vezes descrita como “um WikiLeaks na forma de uma única mulher”, Daphne Galizia era de longe a jornalista de investigação mais famosa de Malta mas era também conhecida fora do seu país. A sua página na internet “Running Commentary”, que continua aberta, está cheia de histórias sobre adjudicações de obras públicas danosas para o contribuinte, indícios de corrupção de alguns políticos malteses, lavagem de dinheiro por parte de russos a acontecer na própria ilha de Malta, ligações da classe política aos Panamá Papers e até reuniões entre líbios de reputação duvidosa que dali contrabandeavam petróleo para o sul da Europa. Por estas e outras histórias, Galizia foi alvo de intimidação durante anos, foi processada e foi presa duas vezes, cortaram a garganta ao cão da família, atearam fogo à porta de sua casa. Depois disso foi morta.

Nesse dia a jornalista estava a caminho do banco para descongelar a sua conta bancária, que lhe estava vedada por causa de um processo de difamação que o ministro da Economia, Christian Cardona, lhe tinha movido por Galizia ter escrito que ele visitou um bordel na Alemanha durante uma visita oficial. Era só um dos 43 processos que pendiam contra si.

Um ano depois, um coro de vozes volta a levantar-se contra a morte da jornalista e aquilo que consideram ser a impunidade reinante da pequena ilha. O seu filho, Matthew, que também é jornalista, disse ao diário britânico “The Independent” que “nada está a acontecer” na investigação. “Quando perguntamos por desenvolvimentos o procurador goza-nos e diz que não pode providenciar um ‘comentário permanente’ - esse era o nome da página da minha mãe”.

Também a escritora Margaret Atwood, escreveu no “The Guardian” sobre o caso: “O processo está num marasmo e há uma grande preocupação com a independência, a imparcialidade e o sucesso da investigação por parte das autoridades maltesas. Apesar da sua investigação aos mais altos níveis do governo, nenhum político foi investigado. A sua família teme que os culpados nunca sejam trazidos à Justiça”.

Atwood fala também dos ataques à memória de Galizia. “Depois da sua morte, o monumento em sua memória construído para nos lembrarmos que é preciso justiça foi destruído a mando do governo. Há imensos ataques à sua reputação e aqueles que querem apagar-lhe a importância e a nossa memória seguem impunes. A liberdade de expressão em Malta em declínio, é uma situação desesperante”, escreve a autora.

Corinne Vella, irmã de Daphne, também está frustrada com o progresso - ou a falta dele - nas investigações. À rádio pública norte-americana, a NPR, Valle disse que é “muito difícil de aceitar que as mesmas pessoas que Daphne estava a investigar sejam aquelas que estão agora encarregadas de encontrar o seu assassino”. “Imaginem que eu sabia quem era o assassino da irmã. A quem me dirigia? Em quem confiaria? Há mesmo muita gente que não faz o seu trabalho ou que não pode livremente fazê-lo e é por isso que o país é este caos”, disse Vella.

Em novembro de 2017, uma delegação da União Europeia foi enviada a Malta para tentar entender o que se passou. Ana Gomes, eurodeputada pelo Partido Socialista, esteve lá na altura e, no relatório que assinou com outros membros do Parlamento Europeu (PE) já em julho deste ano, expressou preocupação com a parcialidade do sistema judicial e da polícia e com os entraves à investigação do assassinato de Daphne Galizia.

Algumas das conclusões são um pouco alarmantes. Por exemplo, depois de várias entrevistas, os membros do PE dizem ter provas de que a polícia não está a seguir todas as provas que as testemunhas ofereceram. Além disso, há suspeitas de que os três detidos atuais tenham sido informados por membros da polícia de que iam ser presos para poderem destruir provas. Também Chris Cardona, o tal ministro da Economia alvo de alguns dos artigos de Daphne, foi visto a beber álcool com um dos suspeitos pouco antes de as autoridades o terem detido.

Ana Gomes esteve esta terça-feira presente nas homenagens feitas pela sociedade civil a Daphne Galizia, que conheceu pessoalmente quando integrou uma missão da Comissão de inquérito do Parlamento Europeu sobre os Panamá Papers. Um ano depois, a eurodeputada portuguesa continua sem confiança nas autoridades maltesas. “O Governo de Joseph Muscat diz-se Labour, ou seja trabalhista e socialista. Eu não vejo nada, porém, de socialista ou social-democrata nos contratos corruptos e opacos que o seu governo celebrou e que Daphne Caruana Galizia investigou e denunciou. Nem vejo nada de socialista nas repetidas e escandalosas obstruções a uma investigação séria e independente ao assassinato da jornalista”, escreveu Ana Gomes em comunicado.