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Expectativa tempera estado de graça de João Lourenço

Angola e China ombro a ombro numa cerimónia de receção a João Lourenço em Pequim

FOTO ROMAN PILIPEY/EPA

Orçamento para 2019 vai ter de melhorar a vida social. Entusiasmo é real mas não eterno

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Angola promete ser novo modelo de cooperação com a China, reportava na quinta-feira o “Jornal de Angola”. Nesse dia o Presidente angolano regressava da sua primeira visita oficial à China. João Lourenço foi o primeiro chefe de Estado africano a regressar a Pequim, um mês após a realização do Fórum de Cooperação China-África (Focac), que ali juntou o Presidente Xi Jinping, os líderes dos países africanos e o secretário-geral da ONU, António Guterres, com vista a novos rumos de cooperação e desenvolvimento. Quando a China é o principal parceiro de Angola e Luanda o segundo parceiro africano de Pequim (a seguir à África do Sul), a expectativa é considerável.

Com o Banco Mundial e o FMI de novo em Angola desde há semanas, Lourenço regressa com quatro acordos firmados: um entendimento sobre recursos humanos, um acordo que evita a dupla tributação, outro sobre cooperação económica e técnica e um quarto referente a uma linha de crédito entre o Banco de Desenvolvimento da China e o Ministério das Finanças de Angola.
Tudo isto é visto como “prova da urgência e importância” que o Presidente deposita no investimento que permita desenvolver a economia, criar postos de trabalho e relançar a produção de bens que satisfaçam a procura interna e venham, no futuro, a ser exportados. Até serem conhecidas as quantias envolvidas e o impacto que vão ter na melhoria do ambiente de negócios que os angolanos tanto desejam, o que está garantido é o ambiente favorável ao chefe de Estado. É o que reflete uma sondagem da Consulteste Axis Research, ao fim do primeiro ano de mandato presidencial: 93% dos angolanos têm uma ideia positiva do desempenho do chefe de Estado.

Chamaram-lhe “exonerador implacável” pela rapidez com que concretizou demissões, nomeações e medidas de combate ao nepotismo e à inimputabilidade. Lourenço foi eficaz a pôr em prática o que prometera durante a campanha eleitoral e abalou as fundações do Estado do passado ao exonerar os filhos de José Eduardo dos Santos da petrolífera estatal Sonangol e do Fundo Soberano de Angola, e colocando o mais velho, José Filomeno (“Zenu”), em prisão preventiva.

Abertura económica

Quem esperou que o Estado punisse atos de natureza criminosa está satisfeito. Os que preferem ver uma caça às bruxas e justiça ao serviço de interesses pessoais esquecem o aviso que Lourenço fez. “Duvidei, mas está a surpreender-me positivamente. Todo o discurso de Lourenço é contra o MPLA e contra colegas do partido. Quanto ao funcionamento da justiça, vamos ver”, disse ao Expresso o professor de Sociologia David Boio, da Universidade do Huambo.

A substituição de José Eduardo dos Santos na presidência do MPLA conferiu poderes equivalentes ao seu sucessor. Após o Congresso do passado dia 8 de setembro, o “Novo Jornal” escrevia que o resultado da votação em que o general na reserva foi eleito presidente do MPLA por 2309 delegados entre 2342 “afastou a ideia de um partido fraturado entre eduardistas e lourencistas”.

O combate à corrupção tem gerado sentimentos positivos, mas há zonas cinzentas que resistem ao “efeito profilático de afirmar que ninguém está acima da lei. A começar por quem aplica a lei”, comentou um académico que pediu anonimato. “A oposição constrói agora outra narrativa que diz ‘tanta justiça também não!’ e defende a conciliação”, diz ao Expresso Carlos Pacatolo, diretor-geral do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, explicando: “A oposição sabe que esta agenda do Presidente dá credibilidade ao MPLA, fortalece o partido e pode fazê-la perder espaço”.

“Lourenço está abrir o país ao mundo, resolveu a lei da concorrência e dos monopólios, abriu a economia à competição e Angola deixou de estar tão dependente da China”, diz Pacatolo, lembrando, a respeito do período anterior: “Não tínhamos a política da Coreia do Norte mas estávamos, como ela, fechados para a economia. Até os palitos tínhamos de encomendar fora”.

A situação económica está em vias de normalização, a crise cambial que sufocou o país nos últimos anos estará para se resolver, mas o período de graça do Presidente não dura para sempre, lembra Boio. Ao fim de um tempo, as pessoas passam a achar normal a responsabilização do crime e perguntam quais vão ser as prioridades do Orçamento para 2019, que está em discussão entre os deputados e terá de ser aprovado em dezembro. Continuará a ser a Casa Civil, o sector militar e a polícia ou passará a contemplar de forma sensível a saúde e a educação?

Ao fim de um ano, a condição social “nada melhorou, até piorou”, reconhece Pacatolo, como os 7% de inquiridos na sondagem que responderam negativamente à subida geral dos preços. “Mas hoje há uma renovação da esperança e há espaço para outros pontos de vista”, conclui.

Dentro de dois anos o MPLA terá um congresso ordinário. Pela primeira vez haverá mais de um candidato à presidência. “É uma incógnita” saber como vão reagir as figuras afastadas por Lourenço do Bureau Político do partido, diz Boio. O “grande desafio” seria, comenta o sociólogo, que Lourenço promovesse “uma alteração constitucional que diminuísse a concentração dos poderes do Presidente”.