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Bolsonaro lidera disputa por indecisos

Bolsonaro surgiu triunfante, quinta-feira, numa 
conferência de imprensa 


FOTO RICARDO MORAES/REUTERS

Bolsonaro gere a vantagem e evita exposição enquanto Haddad tenta livrar-se do lastro do PT. Segunda volta é no dia 28

Jair Bolsonaro e Fernando Haddad vão ter de fazer um discurso de convergência ao centro se quiserem conquistar eleitores nas próximas duas semanas, dizem analistas ao Expresso. A mudança de estratégia é mais vital, todavia, para o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) do que para Bolsonaro, pois Haddad (28% na primeira volta) precisa de conquistar muitos votos para cobrir a grande distância que o separa do candidato de extrema-direita. Bolsonaro teve um resultado confortável e não poderá mexer muito em termos estratégicos; foram as franjas mais radicalizadas que o ajudaram a chegar aos 46% e qualquer alteração substantiva poderá minar esse apoio.

Uma variável marcante da segunda volta é o confronto entre os discursos dos candidatos sobre família. “Há uma polarização interessante pelos costumes [valores]. Haddad tem mais credenciais familiares: casado há 30 anos, católico [ortodoxo], nunca foi extremista; Bolsonaro casou várias vezes, são conhecidos casos polémicos com mulheres e tem um temperamento oposto” ao do adversário, diz Óscar Vilhena Vieira, diretor da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O candidato do PT começou a dar sinais dessa estratégia de convergência ao centro quando mal mencionou Lula no discurso de domingo. Saiu de cena o vermelho, cor das campanhas do PT há mais de 30 anos. “Se na primeira volta o vermelho tinha de dominar em Haddad, pois permitia a identificação com Lula da Silva e com o PT, agora é sintomático que dominem as cores nacionais — verde e amarelo —, num apelo patriótico aos eleitores”, diz Thyago Mathias, diretor de Comunicação Estratégica da consultora Llorente e Cuenca Brasil.

“Jair Bolsonaro está a tentar reverter um certo radicalismo. Começou a fazer um discurso à direita e não de extrema-direita”, diz Óscar Vilhena Vieira. Este cientista político dá como exemplos a repreensão dada pelo capitão reformado ao seu candidato a vice-presidente, general Antônio Mourão. Bolsonaro desmentiu o anúncio feito por este de que iria rever a Constituição, não por via de uma Assembleia Constituinte, mas entregando a redação do texto fundamental a “um grupo de notáveis”. O candidato do Partido Social Liberal (PSL) também condenou publicamente os seus apoiantes que estiveram envolvidos em atos de violência.

Quanto à campanha para a segunda volta, Bolsonaro “fica à margem, não participa nos debates com o candidato do PT”, alegando razões médicas. “Uma estratégia de fuga ao confronto direto no espaço público, que deu certo até agora”, explica Mathias. Resta saber se irá dar alguma entrevista à cadeia de televisão Record, propriedade do evangélico e seu apoiante Edir Macedo, como fez na primeira volta, enquanto os outros candidatos participavam num debate nacional em canal aberto.

“Nada mudou em termos de conteúdo programático de Bolsonaro”, diz Mathias, notando “uma tentativa de controlo de focos de crise e não uma mudança de discurso”, ao passo que “Haddad ensaia políticas económicas viradas para os eleitores de centro”.

As frentes parlamentares Evangélica e Ruralista, formadas por deputados de vários partidos, já manifestaram apoio a Bolsonaro, mas o candidato da extrema-direita ainda está longe de garantir os três quintos que lhe garantiriam uma governação confortável. Para tal, terá de ter do seu lado 49 dos 81 senadores e 308 dos 513 deputados (ver Descodificador). No entanto, “o apoio parlamentar de Bolsonaro poderá ser suficiente para impedir um eventual processo de destituição”, salienta Mathias.

Congresso mais diversificado

O movimento #EleNão pode ter tido um efeito contrário ao desejado pelas suas impulsionadoras, ao dar enorme projeção ao nome de Bolsonaro. O certo, porém, é que as mulheres marcaram posição nas eleições e a bancada feminina na Câmara de Deputados passou de 51 para 77 deputadas, um aumento de 15%. No caso das deputadas de esquerda, “o número passou de 12 para 23”, lembra a politóloga Débora Thomé, autora do livro “Mulheres e Poder”. Destaque ainda para a eleição da primeira deputada indígena e de mais três parlamentares negras. No que toca ao género masculino, é de assinalar a eleição de mais dois deputados de origem oriental, 20 negros e menos 48 brancos. Este último grupo era o que, tradicionalmente, tinha maior representação.

Mesmo que Haddad consiga conquistar eleitores, sabe-se que “toda a vez que o ‘petismo’ [apoio ao PT] sobe, o ‘antipetismo’ também sobe”, diz Thomé, lembrando uma investigação de César Zucco e David Samuels. Contactado pelo Expresso, um membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, pedindo o anonimato, afirma: “Ninguém tem ideia do clima de terror, medo e violência que existe aqui.”

José Álvaro Moisés, que coordena os estudos sobre Qualidade da Democracia na Universidade de São Paulo, diz que “o Brasil está envolto numa onda conservadora e isso deve-se, em grande parte, ao facto de Bolsonaro ter sido o único político que deu atenção aos milhões de brasileiros que se sentem indignados com os rumos da política do país, especialmente, com a centralidade adquirida pelas práticas de corrupção no funcionamento do sistema político”.

“Os democratas deixaram o espaço de resposta vazio e foi um político de direita que soube aproveitá-lo, algo muito grave se considerarmos as suas posições sobre os negros, as mulheres e os homossexuais”, prossegue Moisés. Octávio Amorim Neto, catedrático de Ciência Política da FGV, lembra que o resultado de domingo tem razões “eminentemente políticas” e poderia ser outro “se os principais partidos, sobretudo o PT e o PSDB, não tivessem errado muito desde 2017”. A seu ver, “o PT errou ao insistir na candidatura de Lula, entre abril e setembro, mesmo estando ele preso. A partir de abril, muitos líderes ‘petistas’ passaram a defender o lançamento imediato da candidatura de Haddad ou o apoio a Ciro Gomes, por temerem um desastre. Foram derrotados pela burocracia do partido”.

O travão judicial (ver Descodificador) poderá evitar a “quebra da estrutura do Estado democrático que subjaz ao candidato de extrema-direita”, acrescenta o consultor Mathias: “É natural que Bolsonaro tente acostumar-se às estruturas vigentes em vez de tentar destruí-las, ou pode acontecer-lhe o mesmo que a Collor de Mello”, sintetiza, lembrando o Presidente que se demitiu em 1992, para evitar a destituição.