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“A proposta de Bruxelas para o ‘Brexit’ é irrealista”

fotos natacha cardoso

Chris Sainty, embaixador do Reino Unido em Portugal

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Apresentou credenciais ao Presidente da República a 1 de outubro, e o seu maior desafio será manter a mais velha aliança do mundo após a saída da UE. Em português escorreito, apesar de só ter começado a aprendê-lo há meses, o diplomata diz-se convicto de que haverá acordo para um ‘Brexit’ ordenado.

Um estudo da Universidade de Oxford indica que os apoiantes do ‘Brexit’ preferem arte realista, enquanto os partidários de ficar na UE gostam mais do impressionismo. É um bom retrato do seu país?
Ainda não vi esse estudo, mas não sei se poderá ajudar-nos a chegar a um acordo de saída da UE..

E que acordo é realista esperar na próxima semana?
O Conselho Europeu de 17 e 18 de outubro é das poucas oportunidades que restam para alcançar esse acordo. Estamos otimistas, apesar das manchetes da imprensa britânica, por vezes sensacionalistas ou assustadoras. Negoceia-se com intensidade impressionante, e quem tem experiência neste tipo de negociação europeia sabe bem que o ‘Brexit’ segue um padrão familiar. É normal que na última fase de um processo desta complexidade haja duas ou três questões que só se resolvem no último momento, com vontade política. Sempre que ambos os lados têm forte interesse em chegar a um acordo, ele surge. Mas otimismo não é complacência: nenhum negociador determina sozinho o desfecho. Também temos de pensar na conclusão pior, sem acordo. O Governo britânico está a preparar as empresas e atores económicos para essa possibilidade.

Fala-se de aviões sem poder descolar, comida empilhada em despensas...
Sim. Também nesta área há um certo sensacionalismo. É muito provável que nesse cenário haja uma certa perturbação temporária, mas acredito que a economia britânica e as dos parceiros europeus são resilientes e flexíveis. Após um breve período de interrupção seria possível encontrar soluções entre os dois blocos.

E se houver acordo mas o Parlamento britânico não o aceitar? Não há maioria de ‘sins’ garantida.
Não me parece provável que o Parlamento rejeite um bom acordo. A alternativa é muito pior. É certo que nos principais partidos há vozes divergentes, e os políticos que não gostam das propostas do Governo são os que fazem mais barulho. Mas nos últimos dois anos houve votações sobre vários pontos importantes das negociações e a primeira-ministra ganhou todas.

Então, o ‘Brexit’ é irreversível?
Acho que sim. Tem-se referido a hipótese de um segundo referendo, mas considero isso uma distração. Não consigo imaginar condições políticas para fazer uma consulta popular antes da data da nossa saída, em março de 2019.

De que forma é que tudo isto abalou a unidade do Reino?
Boa pergunta. Os riscos não são tão reais. Há quatro anos, a população escocesa votou pela permanência de forma esmagadora [55%-45%]. Apesar do ‘Brexit’, não vejo sinais de mudança de opinião. Os nacionalistas escoceses falam de um segundo referendo, mas é importante notar que não falam em nome de todos os escoceses.

Mesmo que isso os tire da UE, onde a maioria dos escoceses e norte-irlandeses queria ficar?
Sim. Quanto à Irlanda, é a questão mais espinhosa do ‘Brexit’. Britânicos, irlandeses e europeus concordam que é crucial evitar a introdução de uma fronteira aduaneira na ilha da Irlanda. Isso minaria o Acordo de Sexta-Feira Santa, de 1998, com consequências graves para a prosperidade e a paz na Irlanda. A proposta da Comissão Europeia é que a Irlanda do Norte permaneça na União Económica e Aduaneira, enquanto o resto do Reino Unido sai. É irrealista e não seria aceite por nenhum Governo britânico, por implicar uma divisão económica do nosso país.

E porque Theresa May depende dos votos do DUP [partido unionista norte-irlandês].
Um Executivo de maioria absoluta também recusaria a proposta da UE. Precisamos de criatividade e imaginação.

O que sugere o seu Governo?
A nossa ideia original era a permanência temporária de todo o Reino Unido no mercado único e na união aduaneira até se negociar um novo regime comercial permanente. A Comissão não gostou.

E grande parte do Partido Conservador, no poder, também não.
Há sempre políticos que rejeitam qualquer solução proposta. Tem de haver um compromisso entre as duas propostas sobre a mesa.

Uma bandeira de May tem sido a “Global Britain”. O mundo não está menos propício a isso, menos multilateral e mais fechado?
Vemos essa tendência, mas continuamos multilateralistas e cremos no sistema internacional. Estamos decididos a acrescentar-lhe valor, com uma visão virada para fora.

Como é que um bastião da democracia parlamentar olha para dirigentes em ascensão que chegam ao poder por via democrática mas não parecem apreciá-la grandemente?
A melhor forma de combater essa deriva é a defesa incansável dos valores que partilhamos com parceiros e aliados. É a abordagem atual do Reino Unido.