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Internacional

Partido alemão cria portal para alunos denunciarem professores

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A AfD exige neutralidade aos docentes, mas eles dizem que não é possível ministrar educação cívica sem falar do seu contrário

Luís M. Faria

Jornalista

A Alternativ fur Deutschland (AfD), a partido de extrema-direita alemão, criou um portal online para os estudantes denunciarem os seus professores. A iniciativa gerou uma tempestade de críticas por evocar não só o Terceiro Reich, como a República Democrática Alemã, o regime comunista que existiu até 1989 e cuja polícia secreta, a Stasi, instituiu um vasto sistema de denúncia em que cidadãos anónimos denunciavam muitas pessoas, incluindo familiares, por delitos políticos e não só.

Desta vez o "delito" em causa são as críticas à própria AfD. Ela não aceita que os professores a relacionem com regimes como o de Hitler, ou que autorizem o uso de certas t-shirts ("Fck AfD") ou participem em manifestações contra o partido. Um professor já foi denunciado, por exemplo, por ter lamentado o regresso da extrema-direita ao Parlamento durante uma visita de sobreviventes de uma orquestra de raparigas em Auschwitz.

A AfD diz que a constituição obriga os professores a serem neutrais. Mas os representantes deles notam que isso não é estritamente possível quando se ensina educação cívica, por exemplo; para explicar os valores democráticos, é preciso falar daquilo que os contraria.

"É expectável que um partido que quer ostracizar os dissendentes esteja agora a criar plataformas para denunciar pessoas que têm opiniões diferentes. Os professores devem ter medo. É um ambiente assustador", disse Ilka Hoffman, do sindicato de professores.

Para o líder da Associação Alemã para a Educação e a Escola, Udo Beckmann, a iniciativa da AfD é "uma tentativa de usar meios democráticos contra a democracia". Mas o partido não tenciona desistir. Após lançar a versão inicial do portal em Hamburgo no passado mês, vai estendê-la proximamente a outros nove estados alemães.