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Naegleria fowleri: a história do parasita raro que mata e de uma menina de dez anos que lhe sobreviveu

Getty Images

A Naegleria fowleri está nas águas quentes, paradas e sem tratamento. Neste caso, estava numa piscina pública em Toledo. Esta é a primeira vez que o parasita foi detetado em humanos em Espanha. Em Portugal, não há registo

Não lhe sabemos o nome. Tem dez anos, é da zona de Toledo, em Espanha. É uma sobrevivente. Uma daquelas raras, que resistem ao que os médicos pouco acreditam que é possível sobreviver: só em 3% dos casos conhecidos, as vítimas do parasita Naegleria fowleri (vulgarmente designado como o come-cérebros) não morreram. A menina de dez anos teve um diagnóstico de meningoencefalite amebiana primária e faz parte desses 3%.

“É um caso absolutamente excecional, que ainda está em estudo e que aguarda a publicação de um artigo nas revistas científicas” sublinhou Manuel Tordera, diretor-geral de Saúde Pública da região, citado pelo jornal “El País”.

A criança contraiu o parasita numa piscina pública na cidade de Torrijos, a cerca de 90 quilómetros de Madrid, conta o jornal. A Naegleria fowleri estava na água e, durante o banho, a menina inspirou-o. Através dos nervos olfativos, aquele entrou no corpo e chegou ao cérebro, onde se desenvolveu a meningoencefalite amebiana primária, uma infeção neurológica grave.

Dores de cabeça, febre e pescoço rígido. Foram estes os sintomas com que a menina deu entrada, em março, no hospital Virgen de la Salud de Toledo, habitualmente associados a uma meningite comum. Primeiro, excluiu-se a possibilidade de ser de origem viral, depois bacteriana. Em parceria com o Centro Nacional de Microbiologia, o Instituto Universitário de doenças Tropicais e Saúde Pública das Canárias e a Universidade de La Laguna conseguiram identificar o que desenvolveu a doença. “Foi a primeira vez que identificamos Naegleria Fowleri numa pessoa e tem sido um desafio”, referiu Isabel de Fuentes Corripio, uma das investigadoras.

A doença foi combatida com anfotericina B, uma molécula antibiótica e antifúngica, administrada por via intravenosa e intratecal (no canal raquidiano, que atua de imediato no sistema nervoso). O tratamento nem sempre é eficaz - daí a baixa percentagem de sobrevivência. Sem avançarem mais detalhes, os médicos mantêm a menina sob observação para tentarem avaliar possíveis sequelas.

Águas paradas, sem tratamento e quentes

Todas as semanas, a menina ia nadar para a piscina pública de Torrijos. “[O diagnóstico] foi uma surpresa enorme que obrigou a manter todas as linhas de investigação abertas até chegar ao foco de contágio. Recolhemos amostras de água e as análises confirmaram a presença da amiba quer na piscina pequena, quer na grande”, referiu o diretor-geral de Saúde Pública.

A Naegleria fowleri é uma amiba de vida livre, um microrganismo que vive na terra ou no mar, que normalmente não infeta humanos - mas há exceções. É frequente encontrá-la em águas doces, paradas e com temperaturas mornas ou quentes - entre os 30 e até aos 45 graus -, refere a tese “Hospedeiros de Microrganismos Patogénicos: Deteção e Caracterização de Amibas de Vida Livre”, de Rodrigo Santos Costa, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Causa meningoencefalite amebiana primária, “uma doença que afeta crianças e jovens saudáveis e que sendo uma infeção aguda hemorrágica e necrótica é habitualmente fatal (97% de mortalidade)”. A infeção, acrescenta Catarina dos Reis Barreiros na tese “O Papel das Amibas nas Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde” (Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz), tem um período de incubação de um ou dois dias e “progride rapidamente para morte”.

Os sintomas, tal como apresentou a menina, são sobretudo fortes dores de cabeça, rigidez da nuca, febre e náuseas. Mais tarde, o doente começa a ficar mais sensível à luz e ao som e é possível que tenha convulsões.

Atualmente a piscina está fechada, enquanto as autoridades investigam. “Quando acabarem as investigações, veremos as medidas a adotar. Talvez seja necessário alterar o procedimento de manutenção das instalações, mas por agora a população pode estar tranquila. O local está encerrado e o risco é nulo”, garantiu Manuel Tordera, diretor-geral de Saúde Pública da região.

O parasita foi descoberto há 53 anos na Austrália, mas nos últimos anos foi também identificado no continente americano, em África e na Europa. “Não significa que se esteja a expandir, mas que os sistemas de deteção e a assistência médica estão melhores e que agora se consegue identificar casos que anteriormente poderiam passar despercebidos”, defendeu ao diário “El País” José Miguel Cisneros, presidente da Sociedade Espanhola de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica.

A ciência tem conhecimento de cerca de 400 casos de infeção pela Naegleria fowleri em todo o mundo. “Cada caso de sobrevivência é um feito histórico, porque permite conhecer melhor a amiba e, consequentemente, desenvolver um possível tratamento”, acrescentou José Miguel Cisneros.

Este foi o primeiro caso identificado em Espanha. No começo do ano, um menino morreu devido ao parasita na Argentina. Nos EUA, foram identificadas mais de 100 infeções nos últimos anos. Em Portugal, não há registo de que alguém tenha contraído a infeção por Naegleria fowleri.