Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Prometeram-lhe a morte. 25 anos depois, há suspeitos acusados

SEBASTIAN D'SOUZA/ Getty Images

“Os Versículos Satânicos”, de Salman Rushdie, causou polémica. O então líder do Irão prometeu a morte a todos os envolvidos na publicação, tradução e divulgação do livro. William Nygaard publicou a prosa na Noruega e foi esfaqueado. Não morreu. Hoje, 25 anos depois, as autoridades têm a acusação do crime - mas não divulgaram a identidade dos culpados

Ettore Capriolo foi esfaqueado em Milão. Queriam matá-lo. Falharam. Dias depois, numa rua de Tóquio, atacaram Hitoshi Igarashi. Esfaquearam-no e mataram-no. O primeiro traduziu para italiano e o segundo para japonês o livro “Os Versículos Satânicos”, de Salman Rushdie. A todos os envolvidos na publicação, tradução e divulgação do livro foi prometida a morte. Também tentaram acabar com a vida de William Nygaard, o responsável pela edição do livro na Noruega. A promessa não se cumpriu. Passaram 25 anos. Agora as autoridades norueguesas deduziram a acusação. Há suspeitos.

“No geral, o resultado da investigação indica-nos que não há outras motivações para tentar matar Nygaard além do seu papel como publisher do livro ‘Os Versículos Satânicos’ em abril de 1989”, explica agora a polícia norueguesa, que tinha um prazo até esta quinta-feira para deduzir acusação, sob o risco de o caso ser arquivado. “O ato parece um ataque direto à liberdade de expressão.”

Hoje, William Nygaard tem 75 anos. “Parece que é um passo na direção certa. Espero que a polícia possa agora, finalmente, descobrir quem me queria matar. O que mais importa não é castigar os atacantes, quero saber quem são e qual o contexto. Quero saber o que os liga ao caso e quais as possíveis ligações ao regime iraniano”, disse o publisher à NRK, estação de televisão pública norueguesa.

A capa do livro

A capa do livro

Culture Club/ Getty Images

11 de outubro de 1993. Manhã de segunda-feira. William Nygaard saiu de casa e ali mesmo à porta, em Dagaliveien, em Oslo, alguém disparou três vezes e fugiu. O homem ficou caído e gravemente ferido. Por vários meses, esteve a recuperar no hospital. As autoridades nunca descobriram quem o atacou. No entanto, a opinião pública - e o próprio Nygaard - atribuíram sempre a culpa do ataque ao regime iraniano e à ameaça lançada pelo Ayatollah Khomeini, líder do movimento xiita.

À época, recorda o “New York Times”, a investigação conduzida pela polícia centrou-se sobretudo em motivações pessoais por parte do atacante, acabando por excluir a possibilidade de se tratar de uma execução da tal promessa de morte. Tornou-se um dos casos por resolver mais mediáticos na Noruega. Entretanto, em 2009, o processo foi reaberto após um trabalho jornalístico. Havia provas de que a investigação não tinha explorado tudo o que havia a explorar.

Esta quinta-feira faz 25 anos que tentaram matar William Nygaard. Era também a data limite para deduzir uma acusação e evitar que o caso fosse arquivado. Oficialmente, as autoridades não revelaram o número de suspeitos ou as suas identidades. Sabe-se apenas que são pelo menos dois e que não são noruegueses. Segundo a imprensa local, um será de origem iraniana, outro de nacionalidade libanesa.

“Não sei porque os nomes e as nacionalidades dos suspeitos não foram reveladas”, criticou Salman Rushdie, hoje com 71 anos, num comunicado enviado à “VG”, uma publicação norueguesa. Sublinha ainda a satisfação por “finalmente” o caso estar a correr e pelos “progressos feitos”.

Uma ofensa ao Profeta, ameaças aos escritores

“O autor d’‘Os Versículos Satânicos’ - que é contra o islão, o profeta e o alcorão - e todos aqueles que estejam envolvidos na sua publicação e conscientes dos seus conteúdo são condenados à morte. Se alguém os conhecer e não for capaz de os matar, deve entregá-los a pessoas que os possam castigar.” As palavras, recordadas pelo “New York Times”, são do Ayatollah Khomeini,, político que transformou o Irão na primeira República Islâmica.

Salman Rushdie, autor do livro

Salman Rushdie, autor do livro

Jeremy Sutton-Hibbert/Getty Images

Em 1989, o livro foi publicado. E pouco tempo depois Khomeini criticou a história de Salman Rushdie, em que Gibreel e Saladin, dois indianos muçulmanos, sobrevivem à explosão de um avião sobre o canal da Mancha. Começam depois a sofrer transformações físicas, acabando por cada um deles se tornar na personificação do bem e do mal. No mundo islâmico, a prosa não foi bem recebida devido ao tipo de linguagem utilizada e o recurso a figuras e imagens da religião e história islâmica.

Foi neste contexto que Khomeini lançou a caça aos escritores, tradutores e publishers. Salman Rushdie viveu escondido durante anos e muitos outros que trabalharam no livro foram ameaçados, alguns atacados. O japonês Hitoshi Igarashi não sobreviveu. O italiano Ettore Capriolo e o noruguês William Nygaard tiveram sorte diferente.

Agora, aos 75 anos, uma vez mais, perguntaram a Nygaard se se arrepende de ter publicado “Os Versículos Satânicos” na Noruega. “Não, definitivamente”, respondeu sem hesitação, refere o “New York Times”. Publicou não por provocação, mas para “construir um diálogo”. Voltaria a fazê-lo.