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“Eu planto a esperança. Como uma semente mesmo”: Nada Hassan, a psicóloga

Na clínica dos Médicos Sem Fronteiras no campo de Majdal Anjar, um dos primeiros depois da fronteira do Líbano com a Síria, o apoio psicológico às crianças refugiadas é prioridade

Foto Stefan Rousseau/PA Images via Getty Images

A Guerra da Síria já matou quase meio milhão de pessoas mas provocou também uma outra calamidade, mais difícil de quantificar: a saúde mental das pessoas que, sobrevivendo, não conseguem apagar da memória a violência e a morte que testemunharam. É aí que intervém Nada Hassan, psicóloga dos Médicos sem Fronteiras numa clínica no Vale de Bekaa, onde vivem em acampamentos improvisados milhares de refugiados fugidos da Síria. Este é o terceiro retrato de uma série de cinco que o Expresso trouxe do Líbano, de pessoas que lutam pela tolerância num país onde uma em cada seis pessoas é refugiada

Ana França

Ana França

Jornalista

Helena Bento

Helena Bento

(em Beirute)

Jornalista

No campo de Majdal Anjar, no Vale de Bekaa, a primeira paragem de milhares de sírios que atravessam a fronteira para o Líbano, há uma mulher a lutar contra os enormes traumas de guerra da população refugiada. Entre ela e a guerra que ainda dura em algumas zonas da Síria ficam sete quilómetros de terra árida e montanhosa. Trabalha numa clínica de difícil acesso, a duas horas de Beirute, no meio de um quase deserto que no inverno é um quase glacial. Está isolada aqui mas ainda mais isoladas, dentro e fora delas mesmas, estão as pessoas que ela tenta tratar.

Nada Hassan tem 36 anos, olhos muito verdes, grandes, e ocupa a última sala na clínica local dos Médicos Sem Fronteiras. A um canto tem alguns brinquedos que utiliza para que as crianças que viram coisas que ninguém devia ver se sintam crianças outra vez - e é também através da forma como cada uma delas brinca que Nada vai vendo o que se passa em casa destas famílias. Pelo chocalhar de duas cabeças de Barbies, que acabaram desfeitas nas mãos de uma criança de seis anos que entrou ali acompanhada dos pais, a psicóloga percebeu que havia violência doméstica em casa. Confrontou a mãe com a brincadeira “pouco natural” da filha, a mãe começou por negar mas depois admitiu: “Sim, é verdade”.

O episódio e consequente diagnóstico deu-se neste consultório como podia ter-se dado em qualquer outro e Nada até emprega aqui muitas das ferramentas que usava na sua “vida passada” como psicóloga numa clínica privada em Beirute, onde o caso de stress pós-traumático mais grave que viu foi o de um rapaz particularmente afetado pelo abandono da sua namorada - algo que conta a rir-se mas que não desvaloriza. Esses também são problemas.

Só que, chegada aqui, reparou que, sendo os métodos de diagnóstico e tratamento parecidos, a gravidade dos ferimentos mentais e os entraves ao tratamento impostos por um estigma enorme, cultural e religioso entre a população síria transformaram totalmente a sua profissão e a sua própria vida. Nada Hassan consulta agora, ela própria, um terapeuta.

Uma mulher síria no centro de saúde pré e pós-natal dos Médicos Sem Fronteiras. A mulher que tira notas é Diyana, uma das parteiras

Uma mulher síria no centro de saúde pré e pós-natal dos Médicos Sem Fronteiras. A mulher que tira notas é Diyana, uma das parteiras

Foto Jinane Saad/ Médicos Sem Fronteiras

“A primeira coisa que digo às pessoas quando aqui chegam é: ‘Lembrem-se que estão aqui por um tempo determinado’, não para sempre. E logo depois digo que a culpa do que está a acontecer não é delas.”

Utiliza uma imagem para explicar o método: “Eu planto a esperança. Como uma semente mesmo. Eles têm de se lembrar que não são a causa da guerra, que a culpa não é deles”. Nada sabe que as divisões sectárias na Síria podem levar a estes sentimentos de culpa. As religiões lutam entre si e dentro delas há septos que lutam também entre eles.

Os danos da guerra que não se veem

Neste momento só há um hospital em toda a Síria, destruído por mais de sete anos de guerra, a oferecer serviços de acompanhamento psicológico. Antes da guerra existiam dois. Mas um dos mais devastadores conflitos desde a 2ª Grande Guerra, que até agora matou quase meio milhão de pessoas, provocou uma outra calamidade, impossível de quantificar: a saúde mental das pessoas que, sobrevivendo, não conseguem apagar da memória a violência e a morte que testemunharam. Mais de cinco milhões de sírios fugiram do país, mais de 1,5 milhões estão agora no Líbano, um país que, antes da Guerra da Síria, tinha menos habitantes (cerca de quatro milhões) do que o número total de pessoas que fugiram da guerra.

Segundo números compilados pela agência Reuters, cerca de um quinto da população síria necessita de ajuda psicológica e as crianças estão particularmente em risco. Há uma geração inteira que pode vir a ter problemas graves de integração social devido a doenças como o stress pós-traumático, as memórias-flash e depressão profunda. Um outro estudo, conduzido pelo Royal College of Psychiatrists junto de estudantes sírios no Líbano, mostra que metade das crianças viram a guerra de perto: 48,4% testemunharam a destruição das suas casas ou de casas de familiares próximos, 32,9% viram um familiar ser ferido por balas ou bombardeamentos e 27,6% testemunharam a morte de um parente. M.K. Hamza, um psiquiatra sírio-americano que foi voluntário em todos os principais campos de refugiados sírios no Médio Oriente, criou um novo síndrome para a dor das crianças sírias porque nenhum distúrbio que ele tenha estudado é suficientemente grave para explicar a dor manifestada pelas crianças que ouviu. Chamou-lhe “síndrome de devastação humana”.

Porém, antes de tratar as crianças é preciso tratar os seus pais, diz Nada Hassan, que acompanha “raparigas e rapazes que estão extremamente deprimidos porque os pais passam a vida a dizer-lhes que nunca mais irão regressar à Síria e que a situação da família não irá melhorar”. “São os pais que, muitas vezes, tiram a esperança às crianças.”

Refugiados em Majdal Anjar, um campo com muito poucas condições de habitabilidade, muito frio no inverno e muito quente no verão

Refugiados em Majdal Anjar, um campo com muito poucas condições de habitabilidade, muito frio no inverno e muito quente no verão

getty

Os números apresentados, seja de crianças, seja de adultos, corrobora-os com a sua própria experiência e diz que a maioria das pessoas que ali chega com sintomas de stress pós-traumático - isolamento, depressão, problemas da fala e dificuldade de integração social - testemunhou a morte de familiares. O alto comissariado das Nações Unidas para os Refugiados não tem dúvidas sobre qual é, na realidade, o maior problema dos sírios deslocados pela guerra. “A mais prevalente e mais significativa doença entre a população síria são os distúrbios mentais: depressão, luto demasiado prolongado, stress pós-traumático e várias formas de ansiedade”, escreveu o organismo num relatório sobre este problema.

O caso mais grave de stress pós-traumático que Nada conheceu foi o de uma mulher que encontrou o filho cortado aos pedaços dentro de uma caixa de cartão, durante a guerra. E um homem, também seu paciente, assistiu a vários bombardeamentos, teve bombas a cair muito perto de si, e “agora de que cada vez que ouve um camião passar na estrada ou um barulho mais alto desata a correr e a chorar”.

“Tudo isto impede as pessoas de levarem uma vida normal”, diz a psicóloga. Um estudo conduzido em 2016 pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade do Líbano mostra que a prevalência de depressão entre adultos sírios aumentou de 6% antes da guerra para 44% após a exposição ao conflito.

Tradicionalmente, os serviços de apoio psiquiátrico e psicológico no Líbano estavam confinados à saúde privada, demasiado onerosa para a maioria dos libaneses e mais ainda para os sírios que chegam ao país com pouco mais do que o que trazem no corpo.

Mas a pressão deste fluxo de refugiados acabou por levar o Ministério da Saúde libanês a investir num sistema acessível a toda a população. O número de profissionais destas áreas destacados para os hospitais públicos tem vindo a aumentar consistentemente e há equipas móveis que tentam chegar a locais mais isolados, onde faltam unidades de saúde com estes serviços.

Várias barreiras impõem-se entre Nada Hassan e os pacientes. A falta de transporte é um - muitos consultam-na apenas uma vez por mês ou nos dias em que têm obrigatoriamente de ir à clínica porque têm outras consultas marcadas - e a religião é outro. “Nem toda a gente procura ou aceita ajuda psicológica porque há um grande estigma em relação a isso. Tudo o que acontece é atribuído à vontade de Deus e é bastante difícil quebrar isso. Na Síria e noutras regiões, a saúde mental ainda é, de facto, um tabu, não se fala sobre isso, não se tenta resolver problemas nesse âmbito.” Terminadas as outras consultas, são muitos os refugiados que se recusam a entrar no gabinete da psicóloga. Para convencê-los, Nada recorre a uma tática que passa por alertá-los para os problemas físicos que advêm dos males psicológicos e para a ansiedade que se aloja nas mais variadas partes do corpo. “Isso fá-los pensar duas vezes. Não têm interesse em passar a vida aqui.”

Os refugiados no Líbano encontram-se num limbo: não podem voltar para a Síria porque tudo está destruído mas não lhes são dadas boas condições de integração aqui

Os refugiados no Líbano encontram-se num limbo: não podem voltar para a Síria porque tudo está destruído mas não lhes são dadas boas condições de integração aqui

getty

Os casos de violência doméstica são dos mais complicados de destrinçar. “Em Beirute não é aceitável um homem bater numa mulher e posso sugerir à mulher que se divorcie ou perguntar-lhe se tem meios para sair de casa. Aqui não posso fazer isso, não posso apelar à sua autonomia, porque além de não poderem divorciar-se, porque são refugiadas e estão ilegais, têm filhos, vivem numa tenda e vão continuar a viver.” O que Nada Hassan faz é ensinar-lhes formas de parar a violência, explicar o que é “aceitável e o que não é”. Isso e chamar o marido para as sessões, “para que ele entenda que bater traz consequências físicas e problemas de saúde não só para a mulher como também para os filhos”. “Ser vítima de violência doméstica é difícil mas ser refugiada e vítima de violência doméstica ainda o é mais”, conclui.

Nada Hassan vê entre seis a oito pacientes por dia e também faz sessões fora da clínica, nos campos, porque sabe que as pessoas podem estar a sofrer e, mesmo assim, não a procurar - está a preparar-se aliás para ir visitar uma mulher de 48 anos que tem diabetes e hipertensão mas recusa-se a tomar injeções de insulina porque tem um trauma antigo com seringas.

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