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Internacional

China dá estatuto legal aos campos de reeducação para minoria muçulmana

OZAN KOSE/Getty

A minoria muçulmana Uighur, que, na província de Xinjiang é uma maioria, tem sido perseguida pelo governo chinês que acusa os membros da comunidade de quererem estabelecer um Estado independente e de extremismo religioso. As notícias de que o governo estaria a abrir campos de reeducação ideológica nunca foram confirmadas pela China até esta quarta-feira. Agora, é política oficial

Ana França

Ana França

Jornalista

Até aqui sempre tinham negado a sua existência mas agora a lei local da região de Xinjiang, onde a concentração da minoria muçulmana Uighur é maior, vai passar a reconhecer e autorizar a existência destes centros como parte do esforço do governo chinês no combate ao extremismo religioso.

“Os governos locais passam a poder estabelecer organizações de reeducação e modificação religiosa e outros centros de monitorização de atividades extremistas, com o objetivo de transformar a mentalidade de pessoas que possam ter sido afetadas por ideias extremistas”, escreve o South China Morning Post, citando a nova alínea no documento intitulado “Regulamento Anti-Extremismo para a Região Autónoma de Xinjiang”.

Além do foco no “treino vocacional”, estes centros ensinam a língua chinesa e a história e as leis do país e promovem a “reeducação ideológica para eliminar o extremismo”. No mesmo documento lê-se, ainda, que estão previstos tratamentos psicológicos de correção do comportamento para “ajudar os pacientes a transformar as suas mentes de forma a regressarem às suas famílias e a uma vida em sociedade”.

Dolkun Isa, diretor-executivo do Congresso Mundial Uighur, disse ao jornal de Hong Kong que as autoridades chinesas “têm estado a implementar estas medidas há mais de um ano sem justificação legal” e que essa justificação que agora aparece “é apenas uma formalidade para tentar legalizar a perseguição aos muçulmanos em Xinjiang”.

A denúncia do que se passa dentro destes campos tem sido feita, principalmente ao longo do último ano, por pessoas que ou conseguiram fugir depois de terem sido internadas ou que recebem relatos dos seus familiares presos enquanto no exílio. Do Canadá, onde a quantidade de refugiados Uighur é grande, chegam as histórias mais complicadas.

O jornal “The Globe and Mail” falou com vários membros da comunidade e, nesse artigo, uma menina da escola secundária diz que a sua família no Canadá não sabe o paradeiro de mais de 50 outros membros da família que ainda estavam na China. Também uma assistente social diz que, desde o início de 2018, 15 dos seus parentes próximos desapareceram.

O número total de pessoas que já foram internadas nestes campos, segundo números da Human Rights Watch, pode já ter ultrapassado a marca do milhão.